"4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" | © Mobra Films

Cannes em Casa | 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

Em 2007, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” de Cristian Mungiu conquistou a Palme d’Or no Festival de Cannes. O filme foi um grande fenómeno, pondo o Novo Cinema Romeno no mapa e levando a mudanças de regras na corrida para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Todos estes anos depois, Mungiu está de volta à Croisette, competindo por mais uma Palma de Ouro com “R.M.N.” Se conseguir, juntar-se-á a um grupo de cineastas que inclui Ken Loach, os irmãos Dardenne, Michael Haneke e Francis Ford Coppola, entre outros.

Em 1987, Nicolae Ceaușescu estava no poder e a Roménia vivia os últimos anos da sua ditadura. É neste contexto histórico que “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” se desenrola, focando-se em duas estudantes universitárias, Otilia e Găbița, colegas de quarto no dormitório da faculdade. Acontece que a segunda rapariga está grávida contra vontade e procura um aborto, algo ilegal na Roménia da época. Acompanhamo-las ao longo do dia em que o ‘crime’ é cometido, seguindo os afazeres desde manhã até à noite, desde que saem do dormitório até ao descartar do feto.

Cristian Mungiu tudo observa com metódico cuidado, encenando tableaux naturalistas em que a câmara pouco interfere e prefere manter-se distante, calculadamente desapaixonada. Os takes são longos e a montagem faz-se de cortes judiciosos, deixando a ação desenrolar-se no que, ocasionalmente, parece ser tempo real. As cenas são tão compridas como os takes, funcionando como um movimento de aproximação invisível. Somos expostos a algo banal e forçados a processar todos os seus detalhes até que o quotidiano se torna extraordinário, até que tensões impercetíveis se evidenciam.

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Sumariamente, trata-se da mesma estética que, em 2007, já havia sido aperfeiçoada por outros cineastas romenos em busca de um novo realismo. O filme assim se inclui numa tradição nacional e fá-lo além do formalismo. Em termos de tom, tema e texto, “4 Anos, 3 Meses e 2 Anos” tem muito em comum com outras fitas que o antecedem. Pensemos na “Morte do Sr. Lazaresu” de Cristi Puiu ou “A Leste de Bucareste” de Corneliu Porumboiu. Os três filmes partilham o gosto pelo registo temporal em jeito Baziniano, uma atitude pessimista e a obsessão com o passado ditatorial romeno.

Esses dois filmes primeiros abordaram a História através da reverberação sociopolítica, um movimento indireto no caso de Puiu, e um debate aberto no filme de Porumboiu. Também tentaram adocicar o niilismo com travos de comédia negra, promovendo-se assim mesmo nos seus cinemas nacionais. “4 Anos, 3 Meses e 2 Anos” não perpetra quaisquer eufemismos ou ilusões tonais. Não há aqui a pretensão da tragicomédia ou um olhar para trás pela via oblíqua. Nesta obra, encaramos o passado ao situar a história nesse período e o drama deprimente não finge ser mais que isso.

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Não queremos com isto acusar o filme de algum simplismo pernicioso. Esta é a obra-prima de Cristian Mungiu, um dos melhores vencedores da Palme d’Or e um texto indispensável no que se refere à dramatização do aborto em cinema. O miserabilismo da história nunca se sente forçado, permanecendo plausível e longe do gratuito devasso. É certo que muitas desgraças se abatem sobre as duas mulheres durante o dia retratado, mas as caracterizações são tão ricas que toda a escolha e comportamento nos aparece sustentado pelas personalidades em ação.

Note-se, por exemplo, o desequilíbrio de poder e dever entre as amigas. Găbița é quem está a tentar terminar a gravidez e quem sofre as mais intensas dores físicas, o maior risco corporal. Contudo, é Otilia quem se responsabiliza por organizar todos os detalhes da operação, fazendo-se cúmplice e tão legalmente vulnerável como a companheira. As especificidades são exacerbadas pelo trabalho das atrizes, especialmente Anamaria Marinca no papel de Otilia. Nas suas mãos, a jovem evita ser a mártir santa que ajuda a amiga.

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Pelo contrário, é uma mulher cheia de raiva, bem ciente de todos os riscos que está a tomar. A metodologia da rapariga organizada como interpretada por Marinca parece um eco da câmara e seu rigor. Ela é a ordem que treme incerta sobre o caos. Tal simbiose acentua a tensão de cenas em que o plano se desmantela face ao staff de um hotel, face ao aborcionista, face a tudo e todos. Os obstáculos multiplicam-se, a escuridão consome e a desgraça parece cada vez mais inevitável. À medida que o dia avança e a história se desenrola, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” vai ganhando permutações do terror.

O suspense é retorcido até ao limite, até que o coração nos palpita no peito e a questão do aborto é uma abstração e o real propósito da fita é explorar o conflito entre o indivíduo e o sistema totalitarista. O visceral colide com o ideológico, dando forma e carne ao conceito, tornando impossível ignorar quanto o próprio corpo é político. Quando a liberdade é assim limitada, a autonomia da pessoa é um ato de revolta e qualquer asserção da mesma é uma transgressão punível pela lei injusta, pelo estado desumano. A liberdade não é só um sonho, não é um privilégio – é uma necessidade e a negação da mesma é o inferno na Terra.

“4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” está disponível em DVD.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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