via Festival de Cannes

75º Festival de Cannes | ‘Holy Spider’

Holy Spider’, a terceira longa-metragem do realizador Ali Abassi (‘Border’) é um thriller de investigação jornalística e criminal, sobretudo uma denúncia ao fanatismo religioso e misoginia da sociedade iraniana.

Nascido em Teerão, mas radicado na Dinamarca desde 2002, Ali Abbasi, aclamado internacionalmente por Na Fronteira — Prémio Lux do Cinema Europeu 2019 — estreou agora na Competição, este ‘Holy Spider’, um thriller provocador e sombrio, uma poderosa investigação jornalística e criminal, uma caça ao homem, a um serial killer e sobretudo um filme sobre o fanatismo religioso ou como a fé, pode-se tornar mortal; além disso é igualmente um olhar muito crítico de denúncia aliás, em relação à misoginia da sociedade iraniana, que impregna as autoridades religiosas, policiais e até a justiça.

holy spider
via Festival de Cannes
Lê Também:
75º Festival de Cannes | ‘R.M.N.’: A Vida dos Outros

Filmado na Jordânia obviamente por causa do seu tema, que compromete muitas instituições e põe em causa muitas questões políticas e religiosas do Islão e do Irão, ‘Holy Spider’, no que diz respeito ao seu género de thriller de investigação, assemelha-se bastante com o tema conspirativo de Boy From Heaven’, de Tarik Saleh, que já falei aqui há dias, porque integra igualmente esta Cannes 75 e é um dos melhores filme até ao momento. ‘Holy Spider’ baseou-se numa notícia de jornal, passada do início dos anos 2000, sobre um homem chamado Saeed Hanaei (Mehdi Bajestani), que assassinou dezesseis prostitutas, antes de ser preso e julgado. O filme passa-se em Mashhad, a cidade sagrada, onde o oitavo Imam Ali al-Reza foi morto por envenenamento em 818. A questão do martírio está associada, a esta figura do Islão, que é celebrada como um ‘santo’ por milhões de peregrinos. No centro da história, está um bom pai, um bom marido, um veterano de guerra — apesar de tudo com algumas perturbações mentais, por ela provocadas — e um crente piedoso, acima de qualquer suspeita, que cultivava, uma concepção de pureza que o incita a estrangular, prostitutas escolhidas na rua, que se aglomeram, inclusive em torno dos edifícios religiosos.

VÊ TRAILER DE ‘HOLY SPIDER’

Ali Abassi desdobra a sua história, em duas narrativas paralelas e em duas partes: uma bastante crua dedicada ao método, algo ‘tosco’ e displicente do assassino da moto e à forma como transporta as raparigas, até sua casa, mesmo correndo o risco de ser surpreendido pela família. É aí que acaba por as estrangular de uma forma fria e implacável, para depois transportar os cadáveres envoltos num tapete e livrar-se deles, em qualquer lado. Sem grandes considerações psicológicas, embora sabendo que o homem teve um passado traumático na guerra, o filme mostra-nos um verdadeiro monstro em ação, mesmo que adornado pelos preceitos da virtude e da fé do Islão.

Lê Também:
75º Festival de Cannes | ‘Les Amandieres’
holy spider
via Festival de Cannes

Ao mesmo tempo, Ali Abassi destaca o extraordinário trabalho de investigação de Rahimi  (Zar Amir-Ebrahimi), uma corajosa jornalista, que veio propositadamente de um meio de comunicação social, de Teerão para cobrir o caso, e no qual vai-se envolver fortemente, correndo o risco de morte e enfrentando muitos obstáculos que são colocados no seu caminho. Da denúncia da loucura religiosa à misoginia da sociedade iraniana passa-se então para uma segunda parte do filme, com o julgamento do assassino, bem-falante e sinceramente convencido do seu direito de matar, conseguindo aliás um irracional, apoio popular, social e religiosa, que procura obstruir a justiça e justificar a sua ‘inocência’.

75º Festival de Cannes
via Festival de Cannes
Lê Também:
75º Festival de Cannes | ‘Crimes of the Future’

‘Holy Spider’ é mais um filme extraordinário que merece ser descoberto, pela aspereza do seu estilo, pela grotesca morbidez de certos detalhes — uma prostituta obesa, que morta ainda ri, depois de ter dado uma valente sova no fraco assassino ou o discurso para a câmera do pequeno filho do assassino que descreve com a ajuda da irmã mais pequena, o método do pai — e a loucura que banha essa história de crime, purificação religiosa e quase ausência de investigação e justiça.

JVM, em Cannes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

José Vieira Mendes has 549 posts and counting. See all posts by José Vieira Mendes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.