Roma

75º Festival de Veneza (2) | ‘Roma’: As Mulheres da Minha Vida

Competindo novamente pelo Leão de Ouro, o realizador Alfonso Cuarón, chama-nos para conhecer a história da sua família que habitava em Roma, um bairro da Cidade do México.

‘Roma’ é um regresso ao cinema de autor, e a uma negação do cinema ‘made in hollywood’, deste mexicano que lançou aqui em Veneza, o seu primeiro sucesso internacional, ‘E a Tua Mãe Também’, (2001) e mais tarde ‘Gravidade’ (2005). ‘Roma’, é sem dúvida o filme mais pessoal do realizador que até já realizou um filme da saga Harry Potter. Este seu novo filme a concurso,— um dos da parceria com a Netflix, que foi rejeitado na polémica de Cannes — vai ser avaliado pelo seu amigo e parceiro Guillermo del Toro, mas foge completamente a essa ‘estética hollyodesca, numa crónica cinematográfica a preto e branco que custou ao mexicano cinco anos de trabalho — entre outras peripécias como um assalto à mão armada em pleno set de filmagens — para dar o realismo necessário e um registo de memórias (auto) biográficas, que tem dedicatória final a uma serviçal da sua família.

Roma
Memórias de infância dedicadas a uma serviçal da família.

’Roma’ relata a história de um turbulento ano da vida de uma família de classe média, na Cidade do México dos anos setenta. Rigorosamente espelhados no guarda-roupa e até no som do musical ‘Jesus Christ Superstar’. Cuarón inspirou-se nas mulheres de sua infância, para realizar com enorme sensibilidade e emoção uma extraordinária ode ao matriarcado que moldou o seu mundo e a sua vida: um retrato íntimo das mulheres que me criaram, em reconhecimento ao fato de que o amor é um mistério que transcende o espaço, a memória e o tempo, refere o realizador nas notas de produção. E por isso ‘Roma’ é uma tentativa simples e sincera de capturar a memória de acontecimentos vividos pelo realizador há quase cinquenta anos atrás; ao mesmo tempo que é uma visão da sociedade mexicana, de um país onde a classe e a etnia foram, e continua a ser, entrelaçadas de uma maneira perversa, como aliás na maioria dos países da América Latina.

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TRAILER | ‘ROMA’ DE ALFONSO CUARÓN

‘Roma’ é ainda um retrato vívido dos conflitos internos, da hierarquia social e cultural, da violência e de um momento da agitação política e estudantil da cidade capital do México dos anos 70. No entanto, segue a jovem e terna empregada doméstica, Cleo, (Yalitza Aparicio) de origem indígena, que trabalha mas que se comporta quase como se fosse da família. Mas falta esse quase! Por outro lado, Sofia (Marina de Tavira), tem que lidar com ausências prolongadas do seu marido, enquanto Cleo enfrenta uma aborrecida notícia que ameaça atrapalha-la nos cuidados aos quatro filhos da mulher, e que ela trata e ama como se fossem seus. Ao tentarem construir um novo sentido de amor, solidariedade num contexto onde a hierarquia social, classe e etnia influenciam e de que maneira, Cleo e Sofia lutam silenciosamente contra as mudanças que ameaçam a estabilidade e aparente harmonia desta família.

Roma
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Isto num país e numa época onde as milícias apoiadas pelo governo carregavam com violência sobre os estudantes que se manifestavam nas ruas e onde se vivem os assaltos à mão armada e uma violência endógena que se perpetua até à actualidade.

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O realizador na rodagem com a actriz mexicana Yalitza Aparício.

Filmado num preto e branco brilhante em longos planos sequência, ‘Roma’ é efectivamente um retrato íntimo, profundo, angustiante, mas ao mesmo tempo cheio de vida e esperança onde grandes e pequenos, pobres ou ricos, patrões e empregados que constituem os diversos personagens desta história comum, — que faz lembrar um pouco o filme brasileiro ‘A Que Horas Ela Volta’ (2015), de Anna Muylaert — tentam manter o equilíbrio num período de grandes conflitos pessoais, sociais e políticos. É um filme muito emocionante!

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

One thought on “75º Festival de Veneza (2) | ‘Roma’: As Mulheres da Minha Vida

  • Olá! Estou no trabalho navegação Ԁo meu novߋ
    blog iphone 3gs ! Só queria Ԁizer que eu amo leitura sеu blog e eѕtamos ansiosos ρara todⲟs os seus posts!

    Continue ᧐ fantástico trabalһɑr!

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