MOTELx Anna and the Apocalypse critica

MOTELx ’18 | Anna and the Apocalypse, em análise

Anna and the Apocalypse” é uma das obras mais deliciosamente bizarras em competição no 12º MOTELx, misturando cantoria musical, espírito natalício, drama adolescente, mau tempo escocês e claro, muitos mortos-vivos.

“Anna and the Apocalypse” é um filme de terror com zombies. É claro que também é uma comédia de adolescentes, um filme de Natal e um musical escocês. Para muitas pessoas, tal mistura de géneros aparentemente incompatíveis será sinal de uma obra a evitar a qualquer custo. Para outros, a possibilidade de testemunhar a conflagração de tantas ideias insanas no mesmo filme será como um farol a guiar cineastas famintos ao seu festim de loucura cinematográfica. Por outras palavras, se são como o primeiro tipo de espectadores aqui referidos, mais vale pararem de ler esta crítica, pois não haverá aqui qualquer questionamento de quão maravilhoso que é algum cineasta meio doido ter decidido criar este cocktail de géneros, com tantos números musicais como pessoas a serem esventradas por zombies.

John McPhail é esse cineasta doido e “Anna and the Apocalypse” é somente a segunda longa-metragem na sua filmografia enquanto realizador. O filme centra-se na figura titular de Anna, uma jovem cuja mãe morreu e agora vive com um pai que não a compreende a ela ou aos seus desejos de viajar pelo mundo antes de ir para a faculdade. O pai dela trabalha como contínuo na escola secundária da filha, onde ele sente o ódio do diretor tirânico e monstruosamente classista do estabelecimento. Também nessa escola estão os amigos de Anna: John, que está apaixonado por ela, Nick, com quem ela dormiu e depois se arrependeu, Lisa, uma rapariga extrovertida e cheia de energia, Chris, amante de filmes de terror e namorado de Lisa, assim como  Steph, uma americana que se sente rejeitada pelos pais, em parte, devido à sua sexualidade.

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Um insano cocktail de géneros cinematográficos.

Durante a primeira parte do filme, McPhail e sua equipa simplesmente nos apresentam ao ecossistema social da escola secundária, estabelecendo os principais elementos estilísticos do projeto, incluindo os seus inesperados números musicais com um sabor muito pop e muito genérico. Algo que os cineastas também estabelecem de imediato é o tom híper-sincero de todo o projeto, que se assume como algo semelhante a um episódio natalício de “Glee”, se “Glee” se passasse na Escócia e se, depois do primeiro ato introdutório, aparecessem uns quantos zombies. Ou melhor, muitos, muitos zombies, pois, na manhã seguinte ao espetáculo escolar de Natal, parece que todo o mundo está no precipício do apocalipse zombie, com a infeção sobrenatural a ser verificada nos quatro cantos do mundo com consequências desastrosas.

Não que, verdade seja dita, os nossos heróis juvenis se apercebam disso imediatamente. Num dos momentos em que o filme mais pisca o olho a “Zombies Party – Uma Noite… de Morte” de Edgar Wright, Anna e John começam o seu dia sorridentes, com os auscultadores nos ouvidos, a cantar sobre como está um dia lindo. Para além da absurdez de alguém estar a cantar sobre um dia bonito quando a ação se passa em Dezembro na Escócia, com seu permanente céu cinzento, há também o contraste ridículo entre a cantoria dos miúdos e o inferno de carnificina zombie que se desenrola à sua volta sem os dois se aperceberem. Talvez este seja um dos melhores comentários sobre o egocentrismo juvenil na idade tecnológica em que vivemos. Talvez seja somente uma piada meio parva, mas divertida. Em todo o caso, é uma deliciosa sequência.

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Menos deliciosa é a duração do filme que, com 108 minutos, é demasiado comprido para o seu próprio bem. Parte dessa duração é dada ao já mencionado primeiro ato, onde as personagens e suas dinâmicas são apresentadas com adequada paciência e investimento emocional. Contudo, a maior parte de a ação depois dos zombies atacarem sofre de saturação narrativa e falta de energia. A inclusão de um subenredo com o diretor tirânico, que acaba por culminar na sua ascensão ao maquiavélico patamar de vilão principal, acima mesmo dos zombies, é de particular infelicidade, matando qualquer energia dramática que a narrativa dos adolescentes perdidos no meio do apocalipse pudesse ter.

O que compensa essa falta de energia ou adequada estrutura narrativa é o modo como o filme trata com absoluta sinceridade a dor e angústia das suas personagens. Num festival como o MOTELx, é fácil encontrar variadíssimas abordagens ao filme de terror, mas certos tipos de narrativa são raros. No meio de tantos espetáculos formalistas e documentações de sofrimento extremo que choca, mais do que comove, “Anna and the Apocalypse” é uma obra incrivelmente incomum. Aqui, o terror não provém da imagética ou da construção de sustos cinematográficos, mas sim do facto de que a audiência é convidada a empatizar e criar ligações emocionais às personagens que, não obstante a sua natureza mais ou menos unidimensional, são retratados com claro afeto pela parte dos cineastas.

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O filme brilha pela sua sinceridade emocional.

Chris, por exemplo, não é muito psicologicamente complexo, mas é tão adorável como um cesto cheio de cachorrinhos que adoram robots. Quem é que quer ver cachorrinhos que adoram robots a ser chacinados por zombies? Por favor não respondam. Existe tensão e drama neste filme, pois queremos que as personagens possam sobreviver e ser felizes, algo que é progressivamente mais difícil de encarar como uma conclusão possível á medida que a situação delas piora. Aqui, McPhail demonstra como o seu cocktail de géneros, não é somente uma mistura de estéticas e mecanismos superficiais, mas sim uma fusão de alegorias e poderosos arquétipos narrativos.

Do filme de zombies, vem a crítica à estrutura social vigente em queda livre, do filme de adolescentes, vem o arco de crescimento pessoal, do filme de Natal, a reflexão sobre o poder da família e da amizade, e do terror apocalíptico vem o fatalismo que chega ao seu auge no final ambíguo. Quando “Anna and the Apocalypse” consegue equilibrar todas essas facetas e mostrar quão ama e se importa com as suas personagens, então é uma delícia e uma preciosidade tão incomum como admirável. Não é um filme perfeito, mas todos somos sortudos por uma confeção tão maravilhosamente bizarra existir no nosso mundo.

Anna and the Apocalypse, em análise
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Movie title: Anna and the Apocalypse

Date published: 2018-09-08

Director(s): John McPhail

Actor(s): Ella Hunt, Malcolm Cumming, Sarah Swire, Christopher Leveaux, Ben Wiggins, Marli Siu, Mark Benton, Paul Kaye, Ella Jarvis, Calum Cormack

Genre: Terror, Musical, Comédia, 2017, 108 min

  • Cláudio Alves - 65
  • Luís Telles do Amaral - 75
70

CONCLUSÃO

“Anna and the Apocalypse” é um musical meio banal, mas uma comédia de adolescentes comovente, um filme de zombies divertido, uma história de Natal incrivelmente original e um drama do apocalipse poderoso. Este cocktail de géneros é bizarro, mas sincero, inocente e bom entretenimento, mesmo que sofra de alguns problemas preocupantes. Mal podemos esperar para ver que outra loucura sai da mente criativa de John McPhail.

O MELHOR: A quimérica premissa narrativa.

O PIOR: O diretor tirano e todo o seu subenredo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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