77º Festival de Veneza: Filmes em tempos de pandemia

Com uma edição 2020 aparentemente simplificada, o 77º Festival de Veneza, que começa em 2 de setembro, anunciou há poucas horas pela voz do seu director-artístico Alberto Barbera, a sua selecção oficial de filmes Veneza 77. Há duas portuguesas na selecção de curtas e nas longas da seção Orizzonti e aqui uma análise mais detalhada da selecção e dos filmes.

A programação de Veneza 77 é bastante compacta apesar de todos os condicionalismo: são os mesmos 10 dias (até 12 de setembro) de festival no Lido, cerca de 18 filmes para já em competição, uma presença razoável de realizadores e estrelas pelo menos anunciadas, na sua maioria italianos e praticamente sem filmes americanos. Os jurados anunciados, com a presidência de Cate Blanchett, — vamos ver como e em que condições vão realizar o seu trabalho de avaliação dos filmes, que dá direito aos respectivos Leões e uma carreira que normalmente tem chegados aos Óscares de Hollywood — criam também algumas incertezas, quanto ao potencial do evento em tempos de pandemia e naturalmente sujeito a muitas regras impostas pelas autoridades de saúde: o evento será cercado de precauções, como medição de temperatura do público, uso de máscaras e mais exibições ao ar livre, para reduzir o risco de contágio. Nos dezoito filmes apresentados em competição, 4 são italianos, — esperavam-se mais — incluíndo o consagrado e habituée do Lido, Gianfranco Rossi (‘Fogo no Mar’ ou Sacro Gra), com mais um documentário intitulado ‘Notturno’. Aguardam-se nos próximos dias mais algumas novidades que possam acrescentar algo mais à selecção oficial, tendo em conta até que os outros dois importantes festivais — e dir-se-ia até tradicional concorrentes nas suas seleções — do outro lado do Atlântico, Teluride foi cancelado e Toronto vai ter uma edição também reduzida, complementada com projecções em streaming. Na verdade o risco da realização do festival é grande mas, também não deixa de ser interessante reconhecer que Veneza 77 será em princípio o primeiro realizado fisicamente na era Covid-19. Resta saber quais são as condições sanitárias que vão ser ainda impostas, daqui até lá face ao previsível segundo surto de Covid-19.

Nomadland
‘Nomadland’, da sino-americana Chloé Zhao, produzido e protagonizado por Frances McDormand.

OS NOVOS NÓMADAS

‘Laços’, a adaptação de Daniele Luchetti para o romance homónimo de Domenico Starnone vai ser o filme de abertura (fora da competição). Contudo vão estar na competição de Veneza 77, vários cineastas-autores de renome como Amos Gitai (‘Laila in Haifa’), Andrei Konchalowsky (‘Dear Comrades’), Michel Franco (‘Nuevo Orden’), Nicole Garcia (‘Amants’), Kiyoshi Kurosawa (‘Wife of a Spy’), Kornél Mundruczó (‘Pieces of a Woman’), ou a polaca Malgorzata Szumowska, com um co-realizado com Michal Englert (‘Never Gonna Snow Again’), havendo ainda espaço para alguns talentos emergentes. Para já o filme-acontecimento e que tem ‘vibrado’ por aí nas noticias especializadas da indústria e da crítica internacional, chama-se ‘Nomadland, da sino-americana Chloé Zhao, produzido e protagonizado por Frances McDormand, obra que será apresentada já mesmo no final da Mostra a 11 de setembro, para segurar os festivaleiros até ao último dia. Uma obra independente que aparentemente parece ser bastante poderosa, quanto mais não seja pela garantia do envolvimento profundo de Frances McDormand, neste projecto ‘político’ tanto como protagonista como produtora. O filme conta a história de Fern (McDormand), uma mulher que, após o colapso económico de sua cidade e da sua empresa, localizada na zona rural de Nevada, carrega todos os seus haveres numa carrinha e parte pela estrada fora explorando uma vida marginal, como nómada moderna. O filme apresenta ainda como protagonistas além de David Strathairn, verdadeiros nómadas-americanos, como Linda May, Swankie ou Bob Wells, figuras que foram as fontes de inspiração da interpretação de McDormand e os companheiros da sua personagem Fern nesta viagem entre o real e a ficção, pela vasta paisagem do oeste americano e que toca com estes tempos de pandemia.

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UM FORTE CONTIGENTE FEMININO

A propósito do protagonismo das mulheres, o director artístico Alberto Barbera que sempre foi bastante relutante quanto aos seus critérios de selecção, voltou a afirmar que nunca escolheu um filme por causa de ser de uma realizadora, mas sempre com base na sua qualidade, ‘e também o fiz este ano’, conclui para justificar a forte presença de mulheres-cineastas na competição. Certamente depois de tanta insistência e polémica em edições anteriores, nas questões de representação de género, houve talvez agora mais possibilidades de selecionar realizadoras para esta competição: são oito mulheres-cineastas selecionados para Veneza 77, incluindo duas italianas, Susanna Nicchiarelli (‘Miss Marx’) e Emma Dante (‘La Sorelle Macaluso’), além da norueguesa Mona Fastvold com ‘The World to Come’ que conta precisamente uma história passada no final do século XIX, de duas mulheres que vivem com maridos em casas isoladas, não muito distantes uma da outra, que se apaixonam, e que Barbera destacou como uma filme de afirmação feminina: ‘A estrutura moderna, a ênfase nos detalhes e a fisicalidade do trabalho diário feminino aludem ao presente enquanto abordam o passado, neste filme refinado e bonito’. A actriz-realizadora francesa Nicole Garcia apresenta também ‘Amants’, um filme de suspense baseado num texto teatral, com trio de atores de excelência: Stacky Martin, Benoit Magimel e Pier Niney, sobre uma mulher que reencontra um velho amante que desapareceu há muito tempo, enquanto ela entretanto se casou com um milionário. Depois temos a sempre surpreendente realizadora polaca Magorzata Szumowska (‘A Face’, Prémio do Júri da Berlinale 2018), que realiza a meias com Michal Engglert, o título ‘Never Gonna Snow Again’, a história de uma estranha massagista que faz domicílios aos clientes. E há ainda mais algumas importantes realizadoras a concurso como a alemã Julia Von Heinz (‘And Tomorrow The Entire World’), a bósnia Jasmine Zbanic (‘Quo Vadis, Ainda’), e claro a muito aguardada e já referida Chloé Zhao (‘Nomadland’). Itália está literalmente em ‘forza’ nesta Veneza 77, com quatro cineastas em competição e primeiro as senhoras já anunciadas com os títulos: ‘La Sorelle Macaluso’, de Emma Dante, o seu segundo filme, depois da estreia em Veneza de ‘Via Castellana Bandiera’, em 2013. ‘La Sorelle Macaluso’ é baseado na peça com o mesmo nome, sobre temas recorrentes da realizadora: família, violência de laços de sangue, a fronteira entre a vida e a morte; Susanna Nicchiarelli com ‘Miss Marx’, conta a história da filha mais nova de Karl Marx, uma mulher cheia de talentos que viveu apesar de tudo uma vida bastante infeliz, nos primórdios do feminismo e da afirmação do socialismo como ideologia. Barbera apresentou ainda com grande ênfase ‘Notturno’, do italiano Gianfranco Rosi, já com um Leão de Ouro em casa com ‘Sacro Gra’: ‘Com dois anos de filmagens na Síria, onde decorre uma das guerras mais atrozes dos últimos tempos, era de esperar ver imagens de cadáveres, destruição e batalhas que abundam nas reportagens jornalísticas, Rosi está antes interessado na situação das pessoas, procurando uma linguagem cinematográfica pura e essencial’ do quotidiano dessas vidas. Depois, há Claudio Noce com ‘Padrenostro’, um filme produzido e interpretado pela estrela italiana Pierfrancesco Favino (‘O Traidor’), um filme inspirado em factos reais, vividos pela família do realizador. Segundo novamente Barbera trata-se um retrato dos ‘anos setenta e do terrorismo vermelho, observados por criança que descobre o medo do mundo violento, mas também a amizade’. Fazendo das necessidades uma virtude  Alberto Barbera tirou alguns coelhos-da-cartola, trazendo assim uma lufada de ar fresco — esperemos que não contaminada — abrindo outras possibilidades e perspectivas a Veneza 77, inclusive se acrescentar-mos uma selecção de muitas primeiras e segundas obras apresentadas nas seções paralelas como a Orizzonti — destinada a obras que representam as últimas tendências estéticas e expressivas do cinema internacional — onde se destaca a presença de duas realizadoras portuguesas: ‘The Shift’, realizado por Laura Carreira, seleccionado na competição de curtas metragens e ‘Listen’, a primeira longa-metragem de ficção da actriz-realizadora Ana Rocha de Sousa. Segundo a realizadora e escritora Laura Carreira, que vive actualmente na Escócia, o seu filme revê-se em que ‘a ideia de que vivemos como indivíduos livres nunca me pareceu verdadeira. A nossa dependência crónica do trabalho e a insegurança sentida por tantos é uma realidade que o cinema deve representar e quero que meus filmes contribuam para isso. ‘The Shift’ é o retrato dessa dependência a partir da perspectiva de uma jovem mulher que vê a sua vida descarrilar num instante sem que possa fazer nada para o evitar.’A realizadora de ‘The Shift’ que está agora a escrever uma longa-metragem, apresentou apenas uma curta-metragem intitulada “Red Hill” (2018); Por sua vez, ‘Listen’, a primeira longa-metragem de ficção da actriz-realizadora Ana Rocha de Sousa, é uma coprodução luso-britânica, com a participação ICA/RTP, protagonizada por Lúcia Moniz, Ruben Garcia e Sophia Myles. Trata-se de um drama familiar sobre um casal português emigrado em Londres a quem os serviços sociais britânicos retiram os filhos, algo que tem a ver cremos com uma história da realidade. Ana Rocha de Sousa, como actriz já participou em várias séries de ficção televisiva. Entretanto foi estudar cinema na London Film School e, assinou as curtas-metragens, ‘Jantamos cedo’ (2009) e ‘Minha alma and you’ (2013).

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Veneza 77
‘The Shift’, realizado por Laura Carreira, seleccionado na competição de curtas metragens da Orizzonti.

AS ESTRELAS COM MÁSCARA?

Voltando à possível passadeira vermelha de Veneza 77 provavelmente com máscara tirada só para a fotografia — um acessório normalmente utilizado nas alegrias do carnaval veneziano — à frente das celebridades estão, além do presidente do júri Cate Blanchett e de Tilda Swinton a quem vai ser atribuído um Leão de Carreira (como aliás à realizadora cineasta de Hong Kong Ann Hui), esperam-se pelo menos no anúncio desta programação figuras como: Frances McDormand, Shia LaBeuf, Adèle Exarchopoulos, Jim Broadbent, Helen Mirren, Fionn Whitehead, Willem Dafoe, Caetano Veloso — no documentário ‘Narciso em Férias’, no qual o músico relata seu período na prisão durante a ditadura militar — Bernard-Henri Lévy — e as suas conferências à volta do mundo —, Patrice Leconte, Andrew Garfield e Jason Schwartzman (no filme de Gia Coppola) em vários filmes fora de competição. E pela a Itália estarão Alba Rohrwacher, Luigi Lo Cascio, Laura Morante, Silvio Orlando, Giovanna Mezzogiorno, Adriano Giannini, Linda Caridi, Stefano Accorsi, Valeria Golino, Maya Sansa, Serena Rossi, Antonia Truppo, Lino Musella, Luca Zingaretti, Roberto Benigni, Caterina Caselli, Isabella Rossellini, Francesco De Gregori, Pietro Castellitto, Massimo Popolizio e a mais famosa actriz palestiniana Hiam Abbass. E quem sabe também se Greta Thumberg também irá acompanhar o documentário ‘Greta’, de Nathan Grossman dedicado a ela mesmo ou o realizador Luca Guadagnino que mostrará ‘Salvatore – The Shoemaker of Dreams’. E por último se também vai la estar o veterano cantor Paolo Conte que com a sua voz rouca animou muitas vezes a entrada das estrelas na passadeira vermelha, para apresentar Via con me’, o documentário de Giorgio Verdelli.

Competição Veneza 77

“In Between Dying”, de Hilal Baydarov

“La Sorelle Macaluso”, de Emma Dante

“The World to Come”, de Mona Fastvold

“Nuevo Orden”, de Michel Franco

“Amants”, de Nicole Garcia

“Laila in Haifa”, de Amos Gitai

“Dear Comrades”, de Andrei Konchalovsky

“Wife of a Spy”, de Kiyoshi Kurosawa

“Sun Children”, de Majid Majidi

“Pieces of a Woman”, de Kornél Mundruczó

“Miss Marx”, de Susanna Nicchiarelli

“Padrenostro”, de Claudio Noce

“Notturno”, de Gianfranco Rosi

“Never Gonna Snow Again”, de Malgorzata Szumowska e Michal Engglert

“The Disciple”, de Chantany Tamhane

“And Tomorrow The Entire World”, de Julia von Heinz

“Quo Vadis, Ainda”, de Jasmine Zbanic

“Nomadland”, de Chloé Zhao

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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