Les Promesses | © 78ª Festival de Veneza

78º Festival de Veneza | A Força de uma Promessa

‘Les Promesses’, do francês Thomas Kruithof (‘The Mechanics of Shadows’, 2017), que abriu a secção Orizzonti é um filme pequeno, mas muito bom e surpreendente, sobre o mundo da política autárquica.

Trata-se de uma história do que realmente significa ter coragem no mundo da política e sobretudo da política autárquica, aquela que está mais próxima dos cidadãos. E esta é a ideia base de ‘Les Promesses’  e que o realizador Thomas Kruithof escolheu para retratar a vida de uma autarca (Isabelle Huppert), que tenta dar respostas à luta e às necessidades dos seus munícipes e ao mesmo tempo conciliar isso com a sua própria ambição pessoal e política. Isabelle Huppert é Clémence, uma combativa presidente de câmara, de um dos problemáticos subúrbios parisienses, que está prestes a concluir o seu mandato, após ter passado toda a sua carreira lutando pela sua comunidade, marcada pela desigualdade, desemprego e pobreza. No entanto, quando lhe é oferecido um lugar de Ministra, a ambição de Clémence parece prevalecer sobre a devoção aos seus cidadãos. A tese do filme questiona como a sua integridade política e as suas promessas eleitorais conseguem sobreviver a essas suas novas aspirações ou à continuidade no mesmo lugar.

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A questão é que neste filme as promessas políticas têm valor e todos os personagens sabem disso, para as colocar em jogo a seu favor. O desempenho de Isabelle Huppert é absolutamente notável acrescentando cor, vivacidade, dinamismo à sua personagem naturalmente ‘cinzentona’ dos autarcas. Porém, ao mesmo tempo Huppert consegue impor-lhe vulnerabilidade, força, ambiguidade de caráter e sobretudo emoção, mesmo quando aparecem as zonas cinzentas mal resolvidas, que acabam por dar profundidade e realismo à sua interpretação. E o mesmo se pode dizer de Reda Kateb, no melancólico e eficiente chefe de gabinete da ‘presidenta’ Clémence. ‘Les Promesses’ é também um belo ensaio sobre as mulheres na política e sobre um mundo ainda hoje predominantemente masculino. O status quo mostra que é mais difícil para as mulheres evoluírem na carreira na política e muitas vezes acabam ‘demolidas’, pelos homens como acontece a Clémece que aspira o lugar de Ministra. Parece evidente que a forma como a personagem de Isabelle Huppert se expressa é determinante pelo facto de ela ser uma mulher e com tudo o que isso acarreta: é uma mulher forte e corajosa, embora também frágil e complexa. As promessas são infelizmente ao que parece a moeda da política e o seu único fundamento moral e ético. O filme de Thomas Kruithof é extraordinário porque é exactamente o espelho disso mesmo. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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