Spencer/© 78ª Festival de Veneza

78º Festival de Veneza: Uma Semana de Competição (1)

Faço uma primeira resenha dos filmes de uma semana de filmes da competição de Veneza 78: ‘Spencer’, de Pablo Larraín, ‘Il Buco’, de Michelangelo Frammartino, ‘Illusions perdues’, de Xavier Giannoli, e ‘L’événement’ da francesa Audrey Diwan. Tudo excelentes obras que tornam esta competição, uma das mais equilibradas dos últimos anos e vários filmes bem posicionados para os Leões.

Um dos filmes mais esperados na competição de Veneza 78, era ‘Spencer’, do chileno Pablo Larraín (‘Jackie’), sobre a Princesa Diana, protagonizada por Kristen Stewart (‘Seberg’). E a curiosidade era ver mesmo como a actriz alcançaria este papel de enorme responsabilidade. O filme estava anunciado, como uma história da solidão de uma princesa e da sua fuga forçada às limitadoras regras da realeza britânica. Mas torna-se sobretudo numa crónica da luta de uma mulher extraordinária para ter uma vida normal, igual a tantas outras mulheres. Diana buscava essa normalidade e queria receber dos outros aquela luz que ela própria emanava para os súbditos ingleses. Porém era forçada a viver sob o cerco da imprensa e sob as rígidas regras e tradições. ‘Spencer’ não vai muito mais além do que já sabemos e do que foi visto com extrema subtileza na série ‘The Crown’; e também não nos oferece nenhuma nova revelação sobre a personalidade de Lady D. Ajuda-nos antes a colocar-nos no lugar dela e imaginarmos os seus sentimentos e emoções, num momento de grande crise e conflito interior. O filme concentra-se, do Natal de 1991, na residência real de Sandringham House, — vizinha da propriedade dos Spencer e onde ela cresceu — durante os quais Diana decide deixar definitivamente a sua vida de princesa, em busca da sua liberdade individual e de uma relação mais próxima com os filhos. ‘Spencer’, é um filme interessante que vale sobretudo pela notável interpretação de Kristen Stewart, uma norte-americana, nascida em Los Angeles, que além de vestir bem os elegantes modelos da Princesa Diana, consegue entrar na perfeição nos complicados assuntos da realeza britânica, sem exageros e não prescindindo dos seus dotes de actriz polivalente.

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‘Il Buco’ de Michelangelo Frammartino (As Quatro Voltas), um dos filmes italianos na competição de Veneza 78, que vai até às profundezas da Terra, da Itália, dos anos 1960. Durante esse período de grande desenvolvimento económico na Europa, que varreu também a Península itálica, mas ficou-se no prolífico norte da bota. No outro lado do país, mais a sul, um grupo de jovens espeleólogos visitou o planalto calabrês e o seu imaculado interior, mergulhando no subsolo de um Sul, que continuava rural, pobre e entregue a si próprio. Assim os espeleólogos descobriram, o Abismo de Bifurto, com 700 metros de profundidade, uma das maiores grutas do mundo. A partir das conversas e testemunho de um dos espeólogos, actualmente com 80 anos, Frammartino faz uma de profunda reconstituição histórica e quase documental, desse acontecimento que marcou a história da espeleologia moderna. Desde a sua primeira longa-metragem, ‘O Presente’, que Michelangelo Frammartino elegeu a região da Calábria, a terra de seus pais, como o  território privilegiado para fazer os seus filmes, e uma região que ainda tem uma relação muito forte com a natureza. O cinema de Frammartino procura mesmo descentralizar a figura humana, colocando-a numa posição de maior equilíbrio com a paisagem e o ambiente, tratando-o com grande com respeito e do ponto de vista ecológico. Renunciando quase sempre, aos diálogos e à música, em ‘Il Buco’, o realizador volta a permitir-nos uma observação cuidada, deixando-nos ouvir as reações, vozes e sons da natureza. Em ‘Il Buco’ — escrito pelo realizador com Giovanna Giuliani — e nessa descida (ou melhor descidas) às profundezas de Bifurto, foi preciso confiar nas ferramentas dos espeleólogos e nas novas maravilhas tecnológicas do cinema: a equipa desceu apenas até 400 metros de profundidade onde está um lago, mas viveu uma façanha diária, proporcionando-nos viver também uma aventura de enorme beleza.  

VÊ TRAILER DE ‘IL BUCO’

‘Illusions perdues’, de Xavier Giannoli (Marguerite)f oi a primeira longa-metragem francesa a competir na Veneza 78, mas não a única. E começamos, por olhar para o título de um dos clássicos da literatura universal e para uma história e factos, que bem poderiam ter acontecido hoje. Mesmo sabendo que foi escrita, há mais de 100 anos. Na verdade, ‘Illusions perdues’, conduz ao cinema o romance homónimo de Honoré de Balzac (1799-1850), publicado entre 1837 e 1843 em três partes (Os Dois Poetas, Um Grande Homem da Província e Eva e David, também conhecido como O Sofrimento do Inventor). É um momento fundamental do vasto conjunto de obras que constituem a (inacabada) ‘Comédie Humaine’, do escritor realista francês. ‘Illusions perdues’ foi aliás considerada pelo próprio Honoré de Balzac como ‘a sua obra fundamental’. No centro da história (do romance) do filme está o jovem poeta Lucien Chardon (Benjamin Voisin), um rapaz de província com pretensões à nobreza, que decide deixar a sua cidade natal Angoulême, no interior da França e vir viver em Paris, para tentar realizar-se profissionalmente: ambiciona tornar-se escritor. Com a ilusão de conseguir viver dessa atividade, instala-se na capital na altura da pós-Revolução, com dois originais prontos debaixo do braço: um livro de poemas e um romance histórico. Lucien consegue emprego na imprensa diária e descobre que o compromisso com a ética e a verdade não é o forte dos jornalistas, onde a única lei é a de compra e venda e que esta não poupa ninguém, nem o mais romântico dos escritores, nem o melhor amigo. Na França de 1820, a corrupção, o suborno, as trapaças políticas e as artimanhas jurídicas fazem parte da profissão. Publicado em 1843, o romance é como já disse uma das obras-primas da literatura universal. Giannoli tem a virtude de conseguir condensar muito bem e com grande eficácia, essa obra monumental num filme de época, em que qualquer semelhança com a realidade actual, não é pura coincidência. Para assistir Giannoli, neste filme extraordinário e que não deixa ninguém indiferente, está um elenco de luxo, que inclui grandes estrelas francesas como Gérard Depardieu, Cécile de France (recentemente vista em Cannes em The French Dispatch, de Wes Anderson) e o aclamado realizador-ator canadiano Xavier Dolan. No papel de Lucien, e muito bem, temos Benjamin Voisin, co-protagonista de Verão de 85, de François Ozon.

VÊ TRAILER DE ‘ILLUSIONS PERDUES’

‘L’événement’ da francesa Audrey Diwan é mais um filme da competição de Veneza 78 que adapta uma obra literária de folgo, mas contemporânea, desta vez da escritora Annie Ernaux (Uma Paixão Simples, [Livros do Brasil]. E o filme com o mesmo título do romance é o segundo dos três franceses, que disputam o Leão de Ouro. ‘Durante anos, girei em torno desse acontecimento na minha vida’, dizia a escritora Annie Ernaux, a propósito de ‘L’événement’ (2000), o seu romance autobiográfico, que marcou de certo modo a sua vida e que por enquanto ainda não está publicado em Portugal. Ernaux conta a história de uma interrupção da gravidez, passada em 1963, pela qual ela passou, quando era uma estudante universitária de 23 anos e o aborto da ainda era ilegal em França. A própria palavra era um tabu, para as famílias e para a maioria dos médicos.

VÊ TRAILER DE ‘L’ÉVÉNEMENT’

A realizadora de uma forma bastante próxima e intimista, e quase em tom documental, leva-nos numa tremenda e emocionante viagem às memórias de Ernaux, que nos toca profundamente, independentemente do género: um drama profundo sobre os (negados) direito das mulheres, da relação com o mundo masculino e da dramática realidade dos abortos (clandestinos, sobretudo), que ainda persistem em muitos países; e que vimos aliás em outros filmes recentes como ‘4 Meses, 3 Meses, 2 Dias’, do romeno Cristian Mungiu; ou mais recentemente Nunca, Raramente às Vezes, Sempre, da norte-americana Eliza Hittman. ‘L’événement’ é uma história de um aborto chocante e dura que mergulha profundamente nas imagens, angústia e sofrimento da protagonista, como se as suas acções se transformassem instantaneamente numa sensação violenta para o espectador. No papel da protagonista, uma das actrizes-promessas desta Veneza 78: Anamaria Vartolomei, já vista em ‘My Little Princess’ (2011) e ‘L’échange des princesse’ (2017). Esta é a segunda longa-metragem de Audrey Diwan, realizadora, argumentista escritora francesa de origem libanesa, depois de ‘Mais vous êtes fous’ (2019), um drama familiar que aborda o tema do vício da cocaína.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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