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78º Festival de Veneza | Madres Paralelas e Algoritmos

‘Madres Paralelas’ do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, apresentou um novo cartaz internacional, já que o anterior da ‘maminha’ que jorrava leite, foi censurado no Instagram. Almodóvar não resistiu às ‘pressões comerciais’, contudo torna-se importante reflectirmos até que ponto os algoritmos, começam a limitar as nossa vidas.

O algoritmo e um mundo sem espírito crítico ou pensamento como Instagram, censurou há uns dias o primeiro cartaz de Madres Paralelas, o filme de Pedro Almodóvar, da autoria do estilista e designer espanhol Javier Jaén. Onde está o humanismo ou o espírito crítico no algoritmo do Instagram que censurou o cartaz de Jaén? É verdade, que as políticas de utilização do Instagram são bem claras: não se pode ‘postar’ ou melhor exibir mamilos, excepto se for num contexto de maternidade ou aleitamento. Ao que parece foi precisamente neste espírito que Jaén criou o cartaz de ‘Madres Paralelas’. Porém, a 9 de agosto passado, o Instagram censurou o cartaz que este partilhou, em que aparece o mamilo de uma mulher, pingando leite materno, emoldurado num olho. A publicação foi acompanhada de um texto que justificava a sua criação e a satisfação pela originalidade do cartaz, que se adequava, ao espírito do filme de Almodóvar. O designer e estilista espanhol afirmou em várias entrevistas, que lhe pareceu mais um mecanismo de censura machista e sexista do que outra coisa, que olha para a questão da maternidade, como algo pornográfico e sexualizado: ‘Supondo que não há nada de errado com sexualidade ou erotismo, mas neste caso estamos a falar da imagem menos erótica do mundo’, disse Jaén ao El País. Por sua vez, Almodóvar através de um comunicado da El Deseo, disse que devemos estar de alerta, antes que as máquinas decidam o que podemos e o que não podemos fazer: ‘Sempre contei com a gentileza dos outros, mas contanto que sejam humanos e um algoritmo não é humano. Não importa quantas informações o algoritmo tenha, pois ele nunca terá coração ou bom senso’, afirmou com veemência o realizador. Almodóvar também falou sobre a necessidade de debater a visão da sociedade sobre um mamilo feminino e  da necessidade de saber quem são as mentes que estão por trás de um algoritmo que decide o que é e o que não é obsceno e ofensivo para as pessoas ou para os utilizadores das redes sociais. O que é facto é que a absurda censura do Instagram, voltou a abrir o debate sobre o papel tutelar que os algoritmos estão aos poucos adquirindo no nosso dia a dia, e sobretudo como eles estão mexendo com o consumo cultural e a vida dos cidadãos do século XXI. A imagem do cartaz de Jaén é pornográfica? A resposta óbvia é que não! A questão é que a inteligência artificial (IA) parece não ter sequer a capacidade de discernir uma imagem erótica ou uma ‘postagem’ que realmente viole a honra e os direitos humanos, como tem acontecido muitas vezes, com manipulações e falsas notícias. A revolução digital, liderada pela inteligência artificial parece ser irreversível e, neste contexto, existem duas abordagens:  viver com algoritmos estigmatizantes e dogmáticos, ou tentar compreender como funcionam? O propósito não deve ser o de justificar as suas decisões — que ser cada vez mais difícil — mas no entanto, de procurar construir pontes que possibilitem uma melhor convivência e compreensão entre a IA e a sociedade moderna.

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A INFLUÊNCIA DOS ALGORITMOS

Marcus du Sautoy (Londres, 1965), matemático e professor em Oxford, autor do livro e  documentário ‘The Creativity Code’, diz que se quisermos entender como funcionam os algoritmos que controlam a nossa vida moderna, precisamos entender as regras matemáticas que os sustentam. Neste ponto, parece que esta tarefa se destina não apenas aos cientistas, mas a todas as pessoas que de alguma forma têm a capacidade de influenciar as decisões dos outros, em grande escala: os especialistas de marketing e publicidade. Nesse mesmo livro, Du Sautoy reflecte ainda sobre os avanços da inteligência artificial no mundo dos museus, galerias de arte, salas de concerto e editoras, espaços que talvez se tenham tornado nos últimos lugares — após a reviravolta tecnológica das universidades e do ensino à distância — em que se sinta mais humanismo e espírito crítico. Contudo, a censura no Instagram já não é uma novidade. No ano passado, a rede social apagou uma série de fotografias artísticas da modelo Nyome Nicholas-Williams, em que esta apareceu com o torso nu e abraçando os seus próprios seios. O Instagram respondeu com uma declaração pública. Uma porta-voz da empresa explicou que o algoritmo de censura, que utilizam tem uma categoria específica de corte: apagar imagens em que alguém aperta os seios e que nesse caso funcionou ‘mal’, pois não percebeu que aquelas fotografias eram uma auto-expressão artística e não imagens provocadoras ou pornográficas.

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A CENSURA NAS REDES SOCIAIS

Da mesma forma, há vários casos da censura feitos pelo Facebook e Instagram aos nus artísticos, até nas nossas próprias postagens. Por exemplo as obras de Antonio Canova, (1757-1822) um escultor e pintor italiano, considerado um dos maiores expoentes do neoclassicismo na escultura, foram apagadas. Vittorio Sgarbi, presidente da Fundação Canova de Possagno, Itália, tornou público o desconforto que existe dentro do Museu Canova, em relação a estas redes sociais. Ironicamente perguntou-lhes o que deveria fazer: fechar ou cobrir as esculturas, que são verdadeiras obras de arte e não pornografia. Neste contexto, alguns cientistas como Kai-Fu-Lee, autor do ensaio As Superpotências da IA: China, Silicon Valley e a Nova Ordem Mundial’ (Relógio d’Água), afirma que procurar entender como funcionam os algoritmos não é o suficiente. Lee, levanta mesmo a questão da necessidade de criar um novo contrato social, porque os algoritmos que a IA usa, estão conseguindo finalmente modificar o presente e o futuro das sociedades em geral. Enquanto esse momento não chega, existem movimentos como Liberte o mamilo’, que se propõem a lutar contra esta censura dos mamilos femininos nas redes sociais como o Instagram ou Facebook. Enfim, diante dos absurdos impostos pelos ‘estúpidos algoritmos’, continuará sempre a existir um certo humanismo, espírito crítico e esses pequenos atos de dissidência e de notável rebeldia artística, como o primeiro cartaz original de ‘Madres Paralelas’.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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