Women Talking © Plan B Entertainment

Frances McDormand pode aparecer muito pouco mas “Women Talking” vai muito além da premiada actriz, com escolhas perfeitas para as protagonistas.

Frequentemente, basta um elenco extraordinário para me convencer a dar uma oportunidade a uma obra. Não tendo conhecimento dos filmes prévios de Sarah Polley, seria de esperar que atrizes como Claire Foy, Rooney Mara, Jessie Buckley e Frances McDormand fossem o grande ponto de venda, mas a verdade é que a premissa foi o fator conquistador. Simples, direta ao assunto e focada num único debate sobre o que fazer perante ataques constantes de homens a uma comunidade de mulheres. Ficar e lutar, ir para outro local ou não fazer nada – opções mais difíceis e complexas do que parecem. Women Talking discute sobre a melhor decisão durante 104 minutos incrivelmente cativantes.

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Penso que começar pelo óbvio será o mais fácil. Women Talking é, sem duvida, guiado pelas personagens e pela capacidade impressionante que cada atriz tem em incorporar não só a personalidade da mulher que representa, mas também os seus valores, crenças e razões pelas quais decide votar numa das tais três opções. Polley executa na perfeição o seu argumento inteligentemente redigido, conseguindo algo tremendamente complicado: não olhar para uma decisão como a correta ou errada, mas sim respeitando todas as opiniões e validando as justificações oferecidas por cada mulher – e a personagem de Ben Whishaw – no tão interessante debate.

Claire Foy
Claire Foy é uma das protagonistas de “Women Talking” © Plan B Entertainment

Outro ponto brilhante passa pela construção detalhada de cada personagem. Em Women Talking, a vida de cada mulher tem um impacto direto na opção que defendem. Desde os eventos trágicos do passado à sua posição religiosa, não esquecendo o fator “mãe” nem a forma como cada uma vive com os seus traumas terríveis, todos os argumentos trazidos para cima da mesa possuem uma conexão emocional e pessoal com algo impactante para essa pessoa. Polley trata as suas personagens de maneira tão pormenorizada que, por exemplo, não faria sentido Ona (Mara) escolher a opção de Salome (Foy), nem vice-versa devido precisamente a esse cuidado no argumento.

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O próprio debate requer um balanço sobre o qual Polley, mais uma vez, demonstra ter controlo absoluto. Seja sobre o tópico principal, religião, trauma, família, amor, aceitação, perdão, vingança, ou poder, existem sempre opiniões extremas – positivas e negativas – e uma espécie de meio-termo, oferecendo sempre uma amostra ampla para cada tema. Women Talking consegue passar uma mensagem feminista inspiradora melhor do que muitas tentativas prévias, tudo sem passar a linha do desrespeito e ofensa ao sexo oposto, deixando claro que nem todos os homens são malvados – August (Whishaw) serve parcialmente esse propósito.

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O par atriz-personagem é também escolhido com uma precisão excelente. Mara é a atriz perfeita para o papel de moderadora da sua personagem, alguém que tenta perceber todas as perspetivas serenamente. Foy – o grande destaque – e Buckley encontram-se nos extremos, chegando a entregar monólogos longos e ininterruptos com close-ups verdadeiramente hipnotizantes. Também Judith Ivey como Agata – mãe de Ona – brilha com momentos emocionantes. No entanto, uma das prestações que provavelmente passará ao lado de muitos é mesmo a de Whishaw. O ator consegue alcançar um nível de autenticidade sentimental tal que as lágrimas soltam-se mais rápido quando o próprio se aventura pelas emoções mais pesadas.

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Os diálogos e outras interações não são sempre sérios, com uma quantidade algo surpreendente de humor a aparecer ocasionalmente para provocar algumas gargalhadas muito bem-vindas. Women Talking é daquelas obras onde a “ação” passa pelas palavras, logo a coreografia normalmente requerida para stunts massivas é igualmente necessária aqui, principalmente tendo em conta que as personagens estão todas presentes no mesmo espaço durante a maior parte do tempo de execução. Polley mantém um ritmo adequado, apesar de algumas fases curtas redundantes afetarem ligeiramente o segundo ato.

Independentemente disso, nos momentos onde o nível de entretenimento ameaça descair, entra a banda sonora belíssima de Hildur Guðnadóttir (“Joker“). Cordas bonitas criam uma melodia envolvente, consequentemente gerando um ambiente atmosférico que acompanha o desenrolar da narrativa de forma bastante emocional. Women Talking não possui muita cor, chegando mesmo a possuir sequências onde parece que se transformou num preto-e-branco sublime – pessoalmente, a obra podia ter sido toda a B&W. Guarda-roupa (Quita Alfred) e cenografia (Friday Myers) também merecem elogios.

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PS: McDormand tem meros segundos de tempo de ecrã devido ao facto de ser produtora. Estratégia de marketing bastante comum para vender o filme através do seu elenco. Fica o aviso.

LFF 2022 | Women Talking, em análise

Movie title: Women Talking

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Movie description: Um grupo de mulheres numa comunidade religiosa menonita isolada na Bolívia luta para reconciliar a sua fé com uma série de agressões sexuais cometidas pelos homens da colónia.

Date published: 9 de October de 2022

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Country: USA

Duration: 104'

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Director(s): Sarah Polley

Actor(s): Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley, Ben Whishaw, Frances McDormand

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Genre: Drama

  • Manuel São Bento - 80
80

CONCLUSÃO

“Women Talking” conta com uma banda sonora belíssima por parte de Hildur Guðnadóttir e possui prestações verdadeiramente hipnotizantes – Claire Foy sendo um destaque claro – com monólogos emocionalmente poderosos capazes de quebrar o espetador menos sensível. O argumento excecionalmente redigido e coreografado de Sarah Polley enriquece tremendamente o debate principal guiado pelas personagens completamente desenvolvidas, onde trauma, religião, aceitação, perdão, vingança e poder são alguns dos temas mais marcantes. O detalhe e complexidade pertencentes a cada personagem demonstram uma dedicação e cuidado notáveis. Merecedor de vários (e inevitáveis) prémios.

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