Morreu o cineasta português João Canijo
A cultura e o cinema português em particular foram surpreendidos esta quinta-feira 29 de janeiro à noite com o falecimento do realizador João Canijo.
Um dos mais conhecidos e consagrados realizadores portugueses tinha 68 anos e foi vítima de ataque cardíaco fulminante. O corpo foi encontrado pela sua empregada doméstica, após o almoço, na casa do realizador em Vila Viçosa.
Foi casado com a atriz Margarida Marinho com quem teve um filho nascido em 1993. No entanto, o casal separou-se algum tempo depois.
Os primeiros filmes de João Canijo

O realizador era natural do Porto onde nasceu a 10 de dezembro de 1957. Começou a carreira em 1984 com a realização da curta-metragem “A Meio Amor”. Logo nesta obra trabalhou com a atriz Rita Blanco, nome com quem trabalhou na grande maioria dos seus filmes.
Em 1988 realiza a sua primeira longa-metragem “Três Menos Eu” onde volta a trabalhar com Rita Blanco. Ao elenco juntam-se igualmente Anne Gautier, Pedro Hestnes, Isabel de Castro e João Cabral, entre outros.
Contudo, é com o filme “Filha da Mãe” (1990) e com a minissérie de televisão “Alentejo sem Lei” (1991) que João Canijo se torna conhecido do grande público em Portugal. No caso da série, tornou-se um clássico de culto por ser um western passado no Alentejo e com muitos momentos de comédia disparatada.
O reconhecimento além-fronteiras

Nos anos seguintes, João Canijo trabalha sobretudo na área de produção e argumento para cinema mas também realiza duas outras séries e o filme “Sapatos Pretos” (1998).
Contudo, é com “Ganhar a Vida” (2001) que o realizador obtém o tão desejado reconhecimento internacional do seu trabalho. O filme faz parte da seleção oficial do Festival de Cannes na secção “Un Certain Regard”. Não traz prémios de França mas, em Portugal, Rita Blanco ganha o Globo de Ouro de Melhor Atriz.
Volta, pois, a Cannes em 2004 com “Noite Escura” na mesma secção paralela. Novamente, só recebe prémios em Portugal. No entanto, desta vez, consegue vencer o Globo de Ouro de Melhor Filme do ano.
Em 2011 estreia no Festival de San Sebastián “Sangue do Meu Sangue” onde consegue arrecadar o prémio FIPRESCI e uma Menção Honrosa Otra Mirada da TVE.
Mais recentemente, em 2023, lançou o díptico “Mal Viver” / “Viver Mal” que foram, respetivamente, o terceiro e sexto filmes portugueses mais vistos em Portugal. Facto que aconteceu depois de “Mal Viver” vencer um dos principais prémios do Festival de Cinema de Berlim: o Urso de Prata.
João Canijo deixou-nos ainda dois filmes por estrear e que estavam atualmente em pós-produção: “Encenação” e “As Ucranianas”.
Filmes de João Canijo no streaming

A saber, podes ver vários dos filmes e séries de João Canijo no streaming em Portugal. Eis, portanto, a lista completa:
- “Alentejo sem Lei”: RTP Arquivos
- “Sangue do Meu Sangue”: FilmIn e HBO Max
- “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor” (2011): FilmIn
- “Raul Brandão era um grande escritor…” (2012, curta-metragem): FilmIn
- “É o Amor” (2013): FilmIn
- “Caminhos da Alma – Fátima” (2017; versão minissérie do filme “Fátima”): RTP Play
- “Mal Viver”: FilmIn / RTP Play
- “Viver Mal”: FilmIn
- “Hotel do Rio” (2024, versão minissérie de “Mal Viver” e “Viver Mal”): RTP Play
Condolências pela morte
Por fim, já algumas personalidades vieram demonstrar as suas condolências pela morte do realizador. José Luís Carneiro, líder do Partido Socialista, referiu na rede social X: “A sua obra marcou profundamente o nosso cinema pelo rigor, pela intensidade e pelo olhar sobre o humano.” Já o candidato presidencial António José Seguro publicou na sua página de Facebook: “Parte um cineasta maior, um olhar lúcido e corajoso sobre o mundo, cuja obra nos ensinou a encarar a vida sem complacência, mas sempre com humanidade. Os seus filmes deram voz a silêncios, expuseram feridas e revelaram emoções profundas que permanecerão vivas na memória coletiva.”
Também a Academia Portuguesa de Cinema lamentou a morte referindo: “Deixa-nos uma obra livre e profundamente humana, que continuará a influenciar gerações de cineastas e espectadores.”
Do lado do cinema, o diretor de som Vasco Pimentel referiu: “O conjunto dos filmes dele é as duas coisas ao mesmo tempo: a alma que ele carregava consigo e a máscara com que a encobria.” O realizador Vicente Alves do Ó recorda o seu filme favorito do colega: “Raras vezes o cinema português atinge aquele lugar de rasgo, onde todas as realidades se encontram: a vida, o sonho, a morte e o pesadelo. O teatro, a literatura, a música ou a ópera. E se são poucos os filmes portugueses que o conseguem, ‘Noite Escura’ de João Canijo, é um desses filmes.” Por fim, Fernando Vendrell lamentou: “Com a partida repentina do João Canijo (e se ele gostava de fazer partidas…) ficaram algumas (muitas) conversas por fazer.”
A MHD envia igualmente as condolências aos familiares e amigos do realizador.

