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Palestina 36, a Crítica

Chegou esta quinta-feira 19 de março às salas de cinema portuguesas um novo filme com Jeremy Irons no elenco: “Palestina 36” (2025, Annemarie Jacir).

É o primeiro filme da realizadora Annemarie Jacir a estrear comercialmente em Portugal, apesar de ela já ter uma carreira com cerca de 20 anos. É, no entanto, uma importante obra que (praticamente) inaugura entre nós a filmografia da realizadora. Anteriormente, em 2023, o Batalha Centro de Cinema fez uma retrospetiva com várias obras da realizadora. Este novo filme – que chega até nós através da Films4You – é um hino à resistência do povo palestino em meados do século XX.

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Qual a narrativa de Palestina 36?

“Palestina 36” é um filme de época cuja ação decorre entre 1936 e 1937. Acompanha, desta forma, os últimos anos em que o Reino Unido colonizou a Palestina. A longa-metragem acompanha, pois, a revolta de várias aldeias palestinas contra o sionismo (imposição de um estado judeu) imposto pelo Reino Unido e posteriormente Israel e que ainda hoje restringe a existência da Palestina.

O filme de Annemarie Jacir tem algumas personagens principais como Yusuf (interpretado por Karim Daoud Anaya), o Alto Comissário Arthur Wauchope (Jeremy Irons) ou o Capitão Orde Wingate (Robert Aramayo), entre outros. Contudo, é uma obra acima de tudo com um elenco de grupo onde a trama vai avançando entre diferentes protagonistas. Na verdade, esta é uma história sobre a resistência da Palestina e, por isso, existe uma união de grupo.

Uma ficção próxima do real

Palestina 36
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Com “Palestina 36” Annemarie Jacir apresenta-nos uma ficção onde reconstrói uma determinada época histórica num determinado país, o seu país de origem: Palestina. Para isso, pega num assunto real e adapta-o com personagens ora reais ora ficcionais.

Para lá disso, esta longa-metragem tem ainda uma mais-valia curiosa onde cruza a ficção com o documentário. Isto porque, ao longo do filme, são usados vários registos de arquivo de época de fontes como a Pathé, BFI ou Getty Images. Originalmente, as imagens eram a preto e branco mas foram restauradas e colorizadas para este filme – “porque procurei vida” e “para fazer avançar o mundo dos protagonistas”, referiu a realizadora. A única ‘alteração’ nos arquivos foi esta mantendo-se, de resto, iguais, nomeadamente no formato original 4:3.

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Annemarie Jacie refere ainda: “(…) consultei-os para perceber como era este mundo desaparecido, como as pessoas se vestiam, etc. É claro que, no final da pré-produção, (…) a minha equipa de direção de arte [baseou-se] fortemente nestes arquivos para criar o mundo mais autêntico possível. Desde a escritura do argumento, a presença das imagens de arquivo sempre foi parte integrante da história.”

A junção das imagens de arquivo com as imagens ficcionadas faz com que o filme ganhe o estatuto de híbrido. Em todo o caso, estas imagens são fundamentais para o contexto da época onde, muitas vezes, não é tão fácil e fiel ‘reconstruir’ certos acontecimentos, quer pela quantidade de pessoas, quer pelos locais.

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De 1936 para 2026

“Palestina 36” é um filme que prova ser fundamental para compreender a História recente da Palestina e para contextualizar os mais distraídos ou menos informados que o conflito entre Israel e Palestina não começou simplesmente em outubro de 2023. O conflito entre os dois países remonta mesmo aos finais do século XIX, ainda antes da narrativa deste filme. A colonização inglesa e a presença de judeus na região, bem como a declaração de Balfour em 1917 – também mencionada neste filme – foram lentamente intensificando os conflitos e deixando a Palestina cada vez mais cercada.

Assim, “Palestina 36” não é um filme contemporâneo mas é um filme que complementa a atualidade. Só por este facto de refletir sobre o início de tudo é já uma mais-valia existir e ter sido produzido.

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Será Palestina 36 uma forma de dar a conhecer a História do país?

Palestina 36
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Em geral, “Palestina 36” é uma obra bem conseguida e coesa. Devo admitir que o facto da narrativa navegar por várias personagens diferentes fez com que, por vezes, perdesse um pouco o rumo da História. Contudo, nada de problemático. O que, efetivamente, sinto um pouco como problema é faltar uma melhor contextualização da situação da Palestina. Para um filme histórico como estes onde a História da Palestina não é necessariamente do conhecimento geral, o filme ganhava um pouco mais se tivesse alguns intertítulos de contexto ou um narrador. Confesso que, pessoalmente, tive de consultar um pouco mais da História da Palestina para melhor compreender a narrativa do filme.

Deste modo, em traços gerais, “Palestina 36” é, de facto, um filme importante para o mundo conhecer um pouco – porque o cinema é sempre apenas uma amostra – a difícil realidade do povo palestino e a opressão que sofreram e ainda sofrem hoje.

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Em termos técnicos é também de elogiar o formato 2.35:1 onde a paisagem tem um papel preponderante. Efetivamente, a Palestina é um país intrinsecamente ligado ao mar e à agricultura e este formato de imagem permite aos espectadores ter um olhar privilegiado dos décores exteriores do filme. De referir que a rodagem desta longa-metragem aconteceu mesmo (parcialmente) na Palestina. No entanto, o contexto atual obrigou a que uma parte das filmagens tivesse de acontecer na Jordânia.

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A estrutura e o argumento de Palestina 36

Palestina 36
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O argumento de “Palestina 36” tem também uma construção muitíssimo bem pensada onde o clima de repressão e resistência vai crescendo aos poucos ao longo do filme. Começamos com uma greve dos agricultores sob ameaça de ficarem sem as suas terras, depois vão-se fazendo detenções, um grupo de mulheres manifesta-se a favor da independência da Palestina, sabe-se via rádio da divisão territorial e, por fim, cercam violentamente e destroem uma aldeia. É certo que a construção narrativa é linear no sentido em que é cronológica mas o facto de a realizadora e argumentista ter conseguido criar este ritmo de crescendo é também muito positivo.

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Ao longo do filme, são utilizados alguns intertítulos brevemente explicativos da localização temporal e/ou temática sendo maioritariamente identificados os meses e ano da ação. Contudo, o primeiro intertítulo de todos é, de facto, relevante: “O ano em que tu nasceste”. Pode ser a referência a um pessoa em concreto que não é identificada. Contudo, também é uma referência histórica para identificar o princípio do fim da Palestina. A resistência nasceu ali mas a Palestina deixou de existir como tal.

É também com Yusuf que se abre a narrativa deste filme. Um rapaz aparentemente simples que chega de viagem num comboio mas que, ao mesmo tempo, vai sofrer mais tarde com a detenção do irmão e vai igualmente tornar-se o símbolo da resistência. Uma figura praticamente mítica que representará a união dos palestinos.

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No centro deste filme terão ainda muita importância na narrativa, do lado palestino, Khuloud (Yasmine Al Massri), uma jornalista que será o rosto feminino pela resistência palestina, e Kareem (Ward Helou), uma criança que ficará com a sua infância roubada após um ataque mortífero. Já do lado inglês, o centro de tudo são mesmo as personagens de Robert Aramayo e Jeremy Irons.

Conclusão

Em suma, “Palestina 36” é um épico (ainda que contido) com um grito de revolta de um povo palestino oprimido há décadas. Faça-se luz sobre este assunto e discuta-se!

Palestina 36

Conclusão

  • “Palestina 36” mostra-se como um filme-hino sobre a resistência dos palestinos à repressão onde a ação de 1936 se repercute nos dias de hoje.
  • Apesar de ter algumas personagens principais relevantes, o filme funciona muito pelo grupo – como metáfora da união – havendo personagens mais secundárias que também ‘protagonizam’ algumas cenas.
  • Sente-se muito cuidado na reconstrução de época e a equipa de fotografia e de direção de arte fizeram um ótimo trabalho. Contudo, para espectadores menos conhecedores da História da Palestina, o filme pode ser um pouco confuso por não existir a explicação de um contexto histórico muito aprofundada.
Overall
7.5/10
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