Lucy, interpretada por Léa Seydoux, é uma prestigiada pianista de concertos. ©Frédéric Batier/Film AG

Marie Kreutzer regressa depois de “Corsage” com este “Gentle Monster”, um filme duro, elegante e moralmente desconfortável sobre confiança, negação e o momento exacto em que a pessoa que amamos pode transformar-se num monstro e no nosso pior pesadelo.

“Gentle Monster”, da austríaca Marie Kreutzer, não é um filme que se veja com prazer. Também não é exactamente um filme que se admire à distância, com aquele espírito elegante de quem aprecia a mise-en-scène enquanto decide onde vai jantar. É um filme que se instala no estômago, fica ali, e depois começa a trabalhar. Mal-educado, silencioso, persistente.

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O monstro não vem sempre de gabardina

Depois de “Corsage”, esse belíssimo golpe feminista no retrato de época, onde a imperatriz Sissi deixava de ser bibelô austríaco para se tornar corpo inquieto, mulher sufocada e imagem em guerra consigo própria, Marie Kreutzer podia ter escolhido o caminho mais sereno: outro filme de prestígio, outro retrato histórico, outra heroína aprisionada em vestidos impossíveis. Em vez disso, escolheu o presente. E, pior ainda, escolheu um presente que ninguém quer olhar de frente: a possibilidade de o horror não estar num beco escuro, num estranho suspeito, num monstro reconhecível à primeira vista, mas sentado à mesa da nossa cozinha, a passar manteiga no pão, a dizer que está cansado, que precisa de recomeçar, que tudo tem uma explicação.

Léa Seydoux diante do impensável

Lucy, interpretada por Léa Seydoux, é uma prestigiada pianista de concertos. Tem carreira, talento, disciplina, mundo interior e aquele ar de quem aprendeu a transformar a vida em música porque a vida, sem música, talvez fosse demasiado brutal. O marido, Philip (Laurence Rupp), está esgotado. A solução, como tantas soluções masculinas vendidas como terapêuticas, passa por mudar tudo: deixar a cidade, ir para o campo, comprar uma casa, recomeçar. Claro que quem paga a factura simbólica do recomeço é ela. A carreira abranda, a família reorganiza-se, o filho pequeno precisa de estabilidade, e Lucy aceita esse pacto doméstico em nome do amor, da família e dessa palavra perigosa que tantas vezes serve para anestesiar mulheres inteligentes: equilíbrio.

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Gentle Monster
Lucy recuperar a posse do seu próprio corpo, da sua própria voz, da sua própria escuta. ©Frédéric Batier/Film AG

Depois, numa manhã, chegam os agentes da polícia. Levam equipamentos electrónicos. Fazem perguntas. Abrem uma fenda. Philip é investigado por suspeitas ligadas a material de abuso sexual de menores. E aqui o filme podia cair no sensacionalismo, no tribunal televisivo, no miserabilismo de choque ou no thriller moral com música a anunciar revelações. Kreutzer faz o contrário. Filma a implosão. Filma a espera. Filma o rosto de Lucy quando a realidade ainda não encontrou linguagem. Porque há acusações que não entram numa casa: contaminam-na. Cada divisão passa a parecer cúmplice. Cada silêncio passa a parecer prova. Cada memória conjugal é reescrita à força, como se alguém tivesse entrado no álbum de família com luvas de laboratório.

Léa Seydoux, aqui, é extraordinária precisamente porque não transforma Lucy numa santa, numa vítima exemplar ou numa heroína de cartaz. Ela oscila. Duvida. Recua. Quer proteger o filho, mas também quer acreditar no homem que ama. E esse é o ponto mais perturbador do filme: não a monstruosidade abstracta, mas a resistência íntima à verdade. A nossa tendência quase infantil para dizer: não pode ser. Ele não. Não aquele que dorme ao nosso lado. Não aquele que conhece a canção preferida do miúdo. Não aquele que também sabe ser terno.

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O caso real que assombra o filme

A história de “Gentle Monster” foi inspirada por uma investigação jornalística lida por Kreutzer durante a pandemia, sobre redes de abuso e circulação de imagens criminosas envolvendo crianças. A própria realizadora contou que o artigo a deixou fisicamente enjoada e a levou a pesquisar o tema com polícia, juristas e psicólogos. Mais tarde, a realidade bateu-lhe à porta de outra forma: Florian Teichtmeister, actor de “Corsage”, foi acusado e condenado, com pena suspensa, num caso relacionado com pornografia infantil. Kreutzer já trabalhava no argumento antes do escândalo, mas percebeu que essa coincidência sinistra tornaria o filme impossível de separar da vida real. E talvez por isso mesmo, ainda mais necessário. O que interessa a Kreutzer não é explorar o choque como mercadoria. É perguntar por que motivo desviamos o olhar. Por vergonha, por medo, por amor, por conveniência, por cobardia, por instinto de sobrevivência. “Gentle Monster” é menos sobre um crime do que sobre o ecossistema emocional que permite que certas verdades sejam empurradas para debaixo do tapete até já não haver tapete, casa ou chão. O título é perfeito: o monstro gentil. Porque o mal raramente se apresenta com cartaz identificativo. Às vezes tem boas maneiras, pede desculpa, cozinha, chora, explica-se muito bem e até parece sinceramente ofendido por alguém duvidar dele.

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Mulheres a limpar os destroços dos homens

“Gentle Monster” acompanha também Elsa, investigadora interpretada por Jella Haase, uma mulher habituada a lidar profissionalmente com o horror, mas incapaz de enfrentar por completo a degradação moral que se infiltra na sua própria casa, através do pai doente e dependente. A personagem funciona como espelho de Lucy: uma mulher que sabe ver quando está de serviço, mas que também hesita quando o problema lhe toca a intimidade. Kreutzer não faz julgamentos fáceis. O filme é duro porque não distribui absolvições em saldo. Mostra que até quem sabe, até quem investiga, até quem trabalha com vítimas e criminosos pode ser apanhado na mesma armadilha humana: a de querer que a verdade seja outra.

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VÊ TRAILER DE “GENTLE MONSTER”

E depois há Catherine Deneuve, presença quase totémica, como mãe de Lucy. Não precisa de entrar muito para ocupar espaço. Deneuve traz consigo uma memória inteira do cinema europeu, esse misto de frieza, autoridade e ternura que transforma uma frase simples numa sentença de tribunal familiar. A sua personagem parece vir de outro tempo, talvez de uma geração que aprendeu a pagar caro pela independência e, por isso, reconhece imediatamente o perigo de uma filha que começa a desaparecer dentro da vida de um homem.

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A música dos homens, tocada por uma mulher em ruínas

Um dos achados mais fortes do filme está na música. Lucy interpreta canções pop escritas por homens, desmontando-as ao piano como quem desmonta uma casa depois de descobrir que as paredes escondiam humidade, insectos e segredos. A música deixa de ser adorno e torna-se comentário. Quantas histórias de amor cantadas por homens ensinaram mulheres a esperar, a perdoar, a compreender, a aguentar? Quantas melodias belas esconderam pequenas pedagogias da submissão? Em “Gentle Monster”, cada concerto parece uma tentativa de Lucy recuperar a posse do seu próprio corpo, da sua própria voz, da sua própria escuta.

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Marie Kreutzer filma tudo com uma precisão fria, mas não clínica. O filme não é histérico, não é panfletário, não é uma acusação lançada ao acaso contra todos os homens. É muito pior: é uma pergunta dirigida a todos nós. O que fazemos quando aquilo que sabemos entra em conflito com aquilo que queremos continuar a sentir? O que fazemos quando amar alguém passa a ser também uma forma de perigo? E até que ponto a família, essa instituição tão elogiada em discursos oficiais, pode transformar-se num pequeno bunker de negação?

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Cannes, desconfortavelmente acordado

Num festival onde tantas vezes se confunde coragem com pose, “Gentle Monster” tem a coragem de ser desagradável sem ser oportunista. Não procura aplauso fácil. Não oferece catarse limpa. Não transforma Lucy numa guerreira de trailer nem Philip num vilão de manual. Deixa-nos presos no intervalo horrível entre a suspeita e a confirmação, entre o amor e a repulsa, entre a vontade de acreditar e a obrigação de proteger.

É um dos filmes mais perturbadores da Competição porque percebe uma coisa simples e terrível: os grandes monstros contemporâneos já não precisam de castelos, florestas ou laboratórios. Precisam apenas de password, ligação à internet e uma rede de afectos suficientemente distraída para continuar a dizer: não pode ser. Em “Gentle Monster”, Marie Kreutzer obriga-nos a retirar os óculos escuros — ironia perfeita para um título nascido, segundo a realizadora, de uma marca coreana de óculos — e a olhar. Não é bonito. Não é confortável. Mas talvez seja exactamente para isto que o cinema ainda serve quando Cannes deixa por momentos de posar para fotografias e se lembra de acender a luz no sítio errado.

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