Almodóvar, claro, não entra só porque se chama Almodóvar. ©El Deseo/Pris Audiovisuais/Divulgação

Como é possível que “Amarga Navidad” — ou “Natal Amargo”, título português já confirmado pelo distribuidor —, de Pedro Almodóvar, possa competir pela Palma de Ouro no Festival de Cannes 2026 depois de já ter estreado comercialmente em Espanha a 20 de Março?

Não era o Festival de Cannes o templo sagrado da estreia mundial, essa alfândega cinematográfica onde os filmes chegam ainda intactos, embalados em mistério e prontos para serem ungidos por aplausos, vaias e análises francesas sobre a morte da Europa?

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Festival de Cannes 2026
“Natal Amargo” estreou em Espanha, mas não saiu de casa. ©El Deseo

As excepções também têm passadeira vermelha

Pois era. Ou melhor: continua a ser. Mas com excepções. E as excepções, como sabemos, são muitas vezes a parte mais interessante dos regulamentos. A pergunta faz sentido porque “Natal Amargo” já anda há mais de um mês nas salas espanholas. Já foi visto, criticado, discutido, amado, irritado e desmontado. Eu próprio já o vi em Madrid, em versão original. E, no entanto, lá estará na competição oficial de Cannes, ao lado de outros dois filmes espanhóis ainda inéditos: “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen, e “La Bola Negra”, de Los Javis, (Javier Calvo e Javier Ambrossi).

Quase virgem, mas só para Cannes

À primeira vista, parece batota. À segunda, percebe-se que é apenas Cannes a ser Cannes. O regulamento permite que um filme já tenha estreado comercialmente no seu país de origem, desde que não tenha circulado internacionalmente, não tenha passado por outros festivais e não tenha sido exibido fora das suas fronteiras. Ou seja: “Natal Amargo” estreou em Espanha, mas não saiu de casa. Para Cannes, continua suficientemente virgem. Ou quase. E, no cinema como na diplomacia, o “quase” serve muitas vezes para salvar a aparência da pureza.

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Há ainda outra condição essencial: os filmes em competição têm de garantir distribuição comercial em França. É aqui que nasce a velha guerra fria entre Cannes e a Netflix. Sem sala francesa, não há competição oficial. Pode parecer uma regra antiquada, mas é também uma das últimas muralhas simbólicas do festival contra a transformação definitiva do cinema em ficheiro, plataforma e algoritmo de sofá.

Um método chamado Almodóvar

Nada disto é ilegal. Também não é escandaloso. Mas é invulgar. Salvo erro, “Natal Amargo” será o único filme da competição deste ano já estreado em salas. E quando o invulgar envolve Pedro Almodóvar, raramente é apenas uma questão administrativa. O realizador já fez o mesmo com “Tudo Sobre a Minha Mãe”, “A Má Educação”, “Volver – Voltar”, “Julieta” e “Dor e Glória”. Portanto, não estamos perante um acidente. Estamos perante um método. A El Deseo, produtora dos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar, conhece Cannes. Cannes conhece a El Deseo. E ambos conhecem muito bem a coreografia: Almodóvar estreia primeiro em Espanha, fala ao seu público natural, testa a recepção, cria discussão interna e depois internacionaliza o acontecimento através da Croisette. É uma estratégia inteligente, legítima e convenientemente elegante.

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Natal Amargo
“Natal Amargo” revela, portanto, menos uma infracção do que uma hierarquia. © El Deseo

A pureza é mais flexível com os grandes nomes

Mas também é aqui que a inocência acaba. Se fosse um cineasta menos consagrado, menos útil à maquinaria simbólica de Cannes, menos capaz de garantir manchetes, passadeira vermelha e densidade autoral, a mesma excepção seria recebida com a mesma naturalidade? Formalmente, talvez. Na prática, sabemos como funcionam estas coisas: os regulamentos respiram melhor quando há nomes grandes à mesa.

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Natal Amargo
“Amarga Navidad” — ou “Natal Amargo”, título português já confirmado pelo distribuidor. ©El Deseo

Cannes gosta de se apresentar como guardião da pureza cinematográfica, mas também precisa de autores reconhecíveis. Precisa de filmes que sejam acontecimentos antes mesmo de serem vistos. E Almodóvar ainda é um dos poucos realizadores europeus capazes de transformar uma selecção oficial em notícia sem precisar de super-heróis, dinossauros ou extraterrestres com orçamento militar.

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O perfume legal da hipocrisia elegante

O caso de “Natal Amargo” revela, portanto, menos uma infracção do que uma hierarquia. Há filmes que têm de chegar imaculados. E há filmes que podem chegar já com alguma estrada, desde que essa estrada tenha sido nacional, discreta e regulamentar. Cannes não gosta de filmes usados. Mas aceita filmes usados em casa, sobretudo quando a casa é Espanha e o dono da chave se chama Pedro Almodóvar.

A ironia é deliciosa porque o próprio filme fala de ficção, apropriação, auto-imagem e legitimidade. Dentro de “Natal Amargo”, Almodóvar interroga os limites da auto-ficção: até onde pode um criador usar a vida dos outros para escrever? Fora do filme, Cannes interroga, talvez sem querer, os limites da estreia mundial: até onde pode um festival chamar inédito a um filme que já estreou? Em ambos os casos, tudo é legal. E talvez seja precisamente isso que torna a coisa mais interessante.

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A liturgia continua

Nada disto diminui necessariamente o filme. Também não transforma a selecção num escândalo. Mas ajuda a perceber melhor como funcionam os grandes festivais: esse território onde a pureza artística convive com diplomacia, prestígio, marketing, tradição e uma dose muito controlada de hipocrisia elegante. Cannes não é apenas um festival. É uma máquina de consagração. E uma máquina de consagração precisa de regras, claro, mas precisa ainda mais de saber quando deve dobrá-las sem as partir.

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“Natal Amargo” já anda há mais de um mês nas salas espanholas. ©El Deseo

No fundo, talvez seja tudo bastante simples. Almodóvar estreou primeiro em casa porque nunca deixou de pertencer à língua castelhana, a Madrid, às suas actrizes, às suas mães, às suas culpas e às suas feridas. Cannes aceita-o porque Almodóvar ainda lhe dá aquilo de que o festival mais precisa: aura. A Croisette chama-lhe Selecção Oficial. A indústria chama-lhe prestígio. O regulamento chama-lhe elegibilidade. E nós, que ainda gostamos de acreditar nestas liturgias todas, chamamos-lhe cinema.

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