Éric Cantona nunca foi apenas futebolista.

Nas Sessões Especiais de Cannes 2026, David Tryhorn e Ben Nicholas apresentaram “Cantona” como ele sempre foi: jogador, actor, rebelde, provocador profissional e uma das últimas criaturas verdadeiramente indomáveis do futebol moderno.

Nas Sessões Especiais de Cannes 2026, “Cantona”, de David Tryhorn e Ben Nicholas, chega como aquilo que só podia ser: menos um documentário desportivo tradicional do que um ajuste de contas com uma lenda que sempre recusou caber na caderneta dos cromos. Éric Cantona nunca foi apenas futebolista. Foi avançado, incendiário, actor, poeta de conferência de imprensa, filósofo de balneário, aristocrata de gola levantada e, sobretudo, uma daquelas figuras que parecem inventadas pela realidade quando a ficção se começa a repetir demasiado. O filme podia chamar-se “A Flor do Mal”. Ou, ainda melhor, recuperar a célebre frase de “À Procura de Eric”, de Ken Loach: “Eu não sou um homem. Sou Cantona.” Porque é exactamente disso que se trata. Não de um percurso linear, com infância, glória, queda e redenção, mas da tentativa de filmar uma criatura que passou a vida a transformar o futebol num palco, o escândalo numa forma de estilo e a indisciplina numa espécie de assinatura artística.

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Um vulcão à procura de treinador

Dividido em cinco capítulos, quase como temporadas de uma série sobre um anti-herói demasiado improvável para ser inventado, Cantona percebe que a sua personagem principal não é apenas um rebelde. Rebeldes há muitos, sobretudo quando há câmeras por perto. Cantona era outra coisa: um jogador de génio com tendência para a combustão espontânea. Em França, antes de se tornar rei em Inglaterra, já tinha feito quase tudo o que um futebolista pode fazer para ser expulso da respeitabilidade: discutiu, insultou, provocou, irritou treinadores, desafiou hierarquias e pareceu sempre à beira de mandar o mundo inteiro dar uma volta. Aos 25 anos, muitos já o davam como perdido. Um desperdício glorioso. Um talento impossível. Um problema com chuteiras.

A grande viragem chama-se Sir Alex Ferguson. O documentário é particularmente feliz quando mostra essa relação como algo mais profundo do que uma simples ligação entre treinador e jogador. Ferguson não tentou domesticar Cantona como quem apaga um incêndio. Percebeu que aquele fogo precisava de direcção. E talvez tenha sido isso que salvou o jogador de se tornar apenas uma figura brilhante e insuportável.

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VÊ CANTONA NO PHOTOCALL DE CANNES 2026

No Manchester United, Cantona encontrou o palco certo, o público certo e o pai futebolístico certo. Marcou golos, ganhou títulos, levantou a gola e ajudou a transformar Old Trafford num teatro de intimidação, orgulho e mitologia. Não era só um avançado. Era um manifesto de vermelho.

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A voadora, as gaivotas e o absurdo

Claro que não há Cantona sem o pontapé para a bancada. Seria como falar de Fellini sem circo ou de Buñuel sem blasfémia. O pontapé de karaté a um adepto do Crystal Palace, em 1995, tornou-se um daqueles momentos em que o futebol deixou de ser futebol e passou a ser escândalo nacional, instalação artística, processo disciplinar e sketch involuntário sobre a fragilidade da civilização.

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O mundo esperava arrependimento, lágrimas, uma confissão bem comportada. Cantona deu-lhe gaivotas e sardinhas. A conferência de imprensa em que falou das gaivotas que seguem o arrastão continua a ser uma das maiores performances dadaístas alguma vez produzidas por um futebolista castigado. Ninguém soube exactamente se aquilo queria dizer, se era uma desculpa, um poema, uma provocação ou apenas Cantona a divertir-se com a solenidade dos jornalistas.

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Cantona
“Cantona” não é apenas um documentário sobre futebol. ©Cantona

E é aí que o documentário acerta: não tenta limpar demasiado a personagem. Não o transforma num santo incompreendido, nem num simples arruaceiro. Cantona podia ser insuportável, sim. Mas também era magnético, brilhante, teatral, perigoso e absolutamente vivo. Numa época em que tantos jogadores comunicavam mal, ele continua a parecer uma anomalia quase luxuosa.

O futebolista que já era actor

Quando abandonou o futebol aos 30 anos, Cantona não desapareceu. Apenas mudou de relvado. O cinema percebeu rapidamente aquilo que o futebol já desconfiava: havia ali uma presença. Um corpo. Um rosto. Um silêncio. Uma mistura rara de ameaça e melancolia, como se pudesse, a qualquer momento, citar Baudelaire ou partir uma cadeira. A sua passagem pelo cinema nunca foi uma simples nota exótica de ex-futebolista famoso a brincar aos actores. Em “Elizabeth”, de Shekhar Kapur, apareceu ao lado de Cate Blanchett. Depois vieram comédias, dramas, séries, experiências várias e, sobretudo, “À Procura de Eric”, de Ken Loach, onde interpretava uma versão fantasmática de si próprio: conselheiro imaginário, santo padroeiro dos adeptos deprimidos e prova viva de que alguns mitos funcionam melhor quando não tentam explicar-se. Tryhorn e Nicholas, que já tinham filmado figuras como Pelé e Luís Figo, sabem que aqui o material é diferente. Pelé era o rei solar. Figo, o profissional absoluto atravessado pela transferência impossível. Cantona pertence a outra família: a dos profetas de gola levantada, dos homens que chegam ao campo com ar de quem vem resolver uma guerra interior.

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Uma flor do mal no relvado inglês

O que Cantona recorda, com energia e inteligência, é que houve um tempo em que os jogadores podiam ser inconvenientes sem antes consultar uma equipa de imagem. Hoje, uma frase ambígua no Instagram gera comunicado, esclarecimento, pedido de desculpa, vídeo emotivo e hashtag de superação. Cantona não. Cantona dizia uma barbaridade poética e seguia caminho, deixando uma sala cheia de adultos pagos para explicar o inexplicável. Talvez por isso continue a fascinar. Não porque fosse exemplar. Longe disso. Cantona nunca foi material para manuais de boa conduta desportiva. Mas era inteiro. Contraditório, irritante, genial, leal, arrogante, sensível, teatral. Um verdadeiro cromo da bola, no melhor sentido: daqueles que não se repetem, não se colam facilmente na caderneta e obrigam toda a gente a reorganizar a colecção.

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No fundo, “Cantona” não é apenas um documentário sobre futebol. É um filme sobre a dificuldade de domesticar certas figuras. Sobre um homem que precisou de encontrar o treinador certo para não ser destruído pelo seu próprio incêndio. Sobre um atleta que percebeu que a fama era pequena demais para a sua mitologia. Sobre um actor que já representava antes de entrar no cinema. Éric Cantona nunca foi apenas um jogador. Foi uma interrupção. Um distúrbio. Uma frase sem pontuação. Uma flor do mal plantada no relvado inglês. E Cannes, que adora estrelas, mitos e criaturas difíceis de arrumar, encontrou nele uma evidência: há homens que não precisam de Palma de Ouro, Bola de Ouro ou estátua em bronze. Basta-lhes entrar em cena, levantar a gola invisível e lembrar ao mundo que ainda há qualquer coisa de magnífico em não ser normal.

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