“Velocidade Furiosa” numa máquina imparável de bilheteira, brinquedos, videojogos, derivados e explosões em câmara lenta. ©Universal Pictures

“Velocidade Furiosa”, 25 anos depois, voltou pela porta grande — ou melhor, pela porta mais barulhenta — do Festival de Cannes 2026. O primeiro filme da saga, realizado por Rob Cohen e lançado em 2001, foi apresentado ontem à noite no Grand Théâtre Lumière, numa Sessão da Meia-Noite trocando, durante algumas horas, a gravidade cinéfila da Croisette por cheiro a pneu queimado, motores envenenados e aquela palavra que Vin Diesel diz como se estivesse a recitar Shakespeare num churrasco: Família.

A sessão assinala os 25 anos de “The Fast and the Furious”, entre nós “Velocidade Furiosa”, o filme que começou como um thriller musculado, nocturno e oleoso sobre corridas ilegais em Los Angeles e acabou transformado numa das maiores religiões populares do cinema contemporâneo. O que nasceu como uma história de polícias infiltrados, lealdades de bairro, carros modificados e masculinidade em excesso depressa se tornou uma franquia global com aviões, submarinos, satélites, amnésias, ressurreições, vilões recicláveis e uma noção de família tão elástica que, a este ritmo, já deve incluir metade da Humanidade. A celebração em Cannes contou com a presença de Vin Diesel, Jordana Brewster, Michelle Rodriguez, o produtor Neal H. Moritz e Meadow Walker, filha de Paul Walker, o rosto ausente que continua a assombrar emocionalmente a saga. Porque, por muito que a Universal tenha transformado “Velocidade Furiosa” numa máquina imparável de bilheteira, brinquedos, videojogos, derivados e explosões em câmara lenta, há uma sombra que nenhuma estratégia de marketing conseguiu domesticar: a de Paul Walker, morto em 2013, cuja ausência deu à série uma melancolia inesperada por baixo da gasolina, dos músculos e das perseguições impossíveis.

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Uma celebração da velocidade

Cannes gosta de se imaginar templo, mas nunca deixou de ser feira. E é precisamente isso que a torna fascinante. No mesmo festival onde se canonizam autores, se discutem crises políticas, se distribuem Palmes d’Or e se chora em filmes de quatro horas, também há espaço para Vin Diesel entrar em modo patriarca motorizado e lembrar que o cinema sempre viveu entre a capela e o circo. Entre Bresson e o escape livre. Entre a Palma de Ouro e o estacionamento impossível. O primeiro “Velocidade Furiosa” talvez não parecesse destinado a chegar ao altar de Cannes. Era um objecto de série B com ambições de série A: Paul Walker como Brian O’Conner, polícia infiltrado no mundo das corridas clandestinas; Vin Diesel a construir Dominic Toretto como uma espécie de chefe tribal de garagem; Jordana Brewster no papel de Mia; e Michelle Rodriguez a fazer de Letty Ortiz com bravura. O filme tinha carros como extensão do corpo, velocidade como linguagem amorosa, lealdade como moral de bairro e uma América multicultural que Hollywood ainda não sabia bem como vender, mas percebeu rapidamente que dava dinheiro. Muito dinheiro.

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Velocidade Furiosa
Vin Diesel diz como se estivesse a recitar Shakespeare num churrasco: família. ©Universal Pictures

A presença de Michelle Rodriguez dá à sessão um sabor particular. Vin Diesel é o rosto institucional da “família”; Paul Walker, a memória sentimental; Jordana Brewster, a ligação íntima ao início da saga. Mas Rodriguez é a avaria no sistema: a actriz que entrou numa franquia de testosterona carburada e recusou que Letty fosse apenas namorada, adereço, vítima ou poster de oficina. Letty podia ter sido decorativa. Rodriguez transformou-a numa ameaça. Em tempos, a actriz criticou a forma como as personagens femininas eram tratadas na saga e chegou a pôr em causa a sua continuidade se os filmes não passassem a dar mais espaço às mulheres. O seu regresso à Croisette, ao lado da Universal, tem por isso qualquer coisa de pequena trégua hollywoodiana: todos sorriem, todos sabem o que aconteceu, ninguém diz demasiado e o tapete vermelho resolve, durante dez minutos, aquilo que a indústria demorou anos a admitir.

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Um manifesto anti-progressista

“Velocidade Furiosa” nunca foi um manifesto progressista. É uma saga sobre carros impossíveis, códigos de honra discutíveis e homens que resolvem dilemas emocionais esmagando o acelerador. Coisa de “gajos” dir-se-ia. Mas foi também, desde cedo, uma das franquias mais diversas do cinema de estúdio americano, muito antes de Hollywood transformar a palavra “representação” em simples slide de um PowerPoint, sobre o Método. O seu elenco parecia menos desenhado por um comité de inclusão e mais saído de uma cidade real: latino, negro, branco, asiático, americano, estrangeiro, operário, suburbano, muscular, sentimental e completamente absurdo.

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O segredo da saga, afinal, nunca foram apenas os carros. Nem sequer as acrobacias, embora seja difícil ignorar uma série que passou de corridas ilegais a carros no espaço sem pedir desculpa à NASA. O segredo foi sempre a palavra Família, repetida até se tornar piada, meme, dogma e, contra todas as expectativas, uma espécie de verdade emocional. Morre-se pouco, ressuscita-se bastante, trai-se durante dois filmes e perdoa-se no terceiro, porque há sempre um churrasco final à espera e ninguém quer ficar de fora da fotografia. Visto hoje, o primeiro filme tem quase uma modéstia enternecedora. Ainda há ruas. Ainda há carros que parecem carros. Ainda há corridas nocturnas, assaltos a camiões, olhares de desconfiança, corpos suados e aquela estética de início dos anos 2000 em que tudo parecia iluminado por néon, testosterona e videoclipes da MTV. A saga ainda não sabia que um dia iria salvar o mundo de conspirações globais. Estava apenas a tentar perceber se Brian O’Conner era polícia, amigo, traidor ou irmão adoptivo.

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Abrir a garagem de Cannes

Talvez por isso este regresso a Cannes faça sentido. Porque “Velocidade Furiosa”, com todos os seus excessos, disparates e milagres mecânicos, pertence também à história recente do cinema popular. Não ao cinema respeitável que entra de luvas brancas na Cinemateca, mas ao cinema que se cola à pele, ao ouvido, ao meme, ao cartaz de quarto, ao canal de televisão de domingo à tarde e à memória colectiva de milhões de espectadores. Cannes pode fingir que vive apenas de cineastas-autores, mas sabe perfeitamente que o cinema também precisa de barulho, velocidade, estrelas, fantasmas e motores a fazer tremer a sala. No fundo, esta Sessão da Meia-Noite foi isso: Cannes a abrir a garagem, a deixar entrar o fumo e a admitir, ainda que por uma noite, que a cinefilia também pode cheirar a gasolina.

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