Estreia na próxima quinta-feira 27 de agosto nas salas de cinema portuguesas o novo filme “A Amiga Silenciosa” (2025, Ildikó Enyedi).
A longa-metragem fez parte da seleção oficial do Festival de Cinema de Veneza em 2025. Nesse âmbito, venceu os prémios FIPRESCI e Marcello Mastroianni para Melhor Atriz Emergente (Luna Wedler). Mais tarde, fez parte da seleção oficial do LEFFEST – Lisboa Film Festival onde venceu uma Menção Honrosa.
Este é um drama contado em três tempos – 1908, 1972 e 2020 –, com um fator em comum nas três histórias: a conexão dos humanos com as plantas.
Qual a narrativa de A Amiga Silenciosa?
A saber: “A Amiga Silenciosa” é uma coprodução entre Alemanha, Hungria, França e China. No que diz respeito à ação da narrativa, a mesma decorre (quase) na íntegra na Alemanha.
A longa-metragem começa de uma forma surpreendente com a germinação ‘digital’ de uma planta. Desse modo, sem que o espectador o saiba, está estabelecido o ponto fulcral da narrativa. Depois, passamos à “ação” com um neurocientista a analisar os comportamentos de um bebé (que, por si só, também é uma criaturinha pequena na imensidão do mundo). Sobre a sequência inicial, referiu a realizadora à imprensa: “Trabalhámos durante dias no desenho sonoro desse momento preciso, porque era necessário deixar um aviso muito claro: atenção, este não é um filme sobre plantinhas simpáticas. São seres estranhos que vivem ao nosso lado, mas sobre os quais sabemos muito pouco. Têm poder.” Efetivamente, a pequenez e a grandiosidade cruzam-se em absoluto nesta sequência.
A história deste neurocientista decorre em 2020 e o mesmo será um professor convidado de uma universidade alemã. Mais tarde, estabelecem-se paralelos entre a história deste homem e a de três outras personagens. Assim, em 1908, esta universidade recebe a sua primeira estudante mulher. Por fim, em 1972, um jovem estudante da universidade fica encarregue de cuidar de uma planta de uma amiga sua. Em comum, as três histórias de “A Amiga Silenciosa” têm a ação na mesma universidade e uma análise sensorial do comportamento das plantas e a sua relação com os humanos.
Uma experiência visual e sensorial inabalável

“A Amiga Silenciosa” é, independentemente da sua duração, um filme denso. Com quase 2 horas e meia de duração, na verdade, não existe exatamente nada a mais neste filme. Todo o lado visual e sensorial (bem como sonoro) das três histórias necessita, efetivamente, de tempo para que o espectador estabeleça uma relação com esta narrativa.
Embora a história de 2020 seja a principal – e acaba por ser aquela que mais duração tem na montagem – , as outras duas histórias estabelecem uma ligação particularmente importante com o núcleo central da narrativa.
Sem qualquer dúvida, “A Amiga Silenciosa” vive também muito dos silêncios e das sensações (ou não fosse este um filme onde as plantas também são por si só uma personagem). Nesse ponto de vista, a história de 2020 acaba por ir mais além, já que grande parte desta narrativa decorre em plena época da pandemia COVID-19.
Deste modo, um neurocientista chinês chega à universidade, dá uma divertida palestra sobre o cérebro humano e, pouco depois, surge a pandemia. Sem puder regressar a casa, este investigador estabelece uma curiosa “amizade” com uma árvore centenária do jardim da universidade.
É nesse âmbito que as outras duas histórias se cruzam com esta. Desse modo, enquanto este investigador procura uma especialista em plantas (numa curta, mas relevante participação de Léa Seydoux), conhecemos a primeira aluna de botânica desta universidade que, no início do século XX, sofre da sua condição de mulher e conhecemos igualmente um estudante que, embora farto da natureza, acaba por estabelecer uma ligação íntima com uma planta de uma colega sua (que até lhe abre o portão “sozinha” através de sensações em elétrodos).
O que fica de A Amiga Silenciosa?

Ao longo do filme “A Amiga Silenciosa” refletimos sobre a natureza, a nossa condição de pequenez de ser humano, a condição feminina e de que forma as plantas acabam por se relacionar com os humanos.
“A Amiga Silenciosa” é, sem sombra de dúvida, um filme extremamente sensorial. As diferentes histórias são filmadas de forma diferente. Assim, a história de 2020 tem uma imagem bastante “limpa”, claramente ligado ao digital onde se incluem inclusive gráficos virtuais. Já a história de 1908 foi filmada a preto e branco. Por fim, a história de 1972, embora seja filmada a cores, tem um lado bastante mais quente e artesanal, ligado à película analógica.
Nesse aspeto, a realizadora pensou de forma aprofundada sobre cada uma destas histórias e a sua apresentação. Contudo, sentimos, por vezes, alguma fragilidade em certos momentos, nomeadamente, no demasiado longo plano final onde observamos uma árvore por cerca de 3 minutos. É verdade que esta árvore é, indiscutivelmente, uma protagonista do filme. No entanto, com a história já terminada, este plano poderia ter muito menos duração.
Adicionalmente, a ligação entre o professor Wong e as plantas sai (inicialmente) um pouco forçada e isso poderia, a meu ver, ser um pouco melhor trabalhado. No entanto, a cena final em que ele e o funcionário da universidade olham, à espera, perante a árvore resume em absoluto todo o estado de espírito do filme. É a espera pela simplicidade que contrasta com o nosso mundo contemporâneo veloz e que precisamos de aplicar no nosso dia-a-dia. Será que precisamos de uma nova COVID-19 para isso?
A Amiga Silenciosa
Conclusão
- “A Amiga Silenciosa” é um filme visualmente e sonoramente impactante que mostra a pequenez dos seres humanos perante as plantas.
- Que sensações podem transmitir estes seres da natureza? Como comunicam? É esta a reflexão central de uma longa-metragem com 3 histórias em 3 épocas diferentes.
- Trata-se de um filme denso, em geral, bem conseguido mas que, ainda assim, falha em alguns momentos da sua estrutura.

