Spinoza (The Basics of Philosophy), Psiquiatria (15/18) e Vietname (Mr. Nelson, Did You Kill People?): Veneza Meteu a Consciência no Banco dos Réus | Festival de Veneza 2026 — Dia 3

© Courtesy of TIFF

Paul Schrader voltou à sua velha doença chamada culpa (“The Basics of Philosophy”) e levou Spinoza para a universidade; Cédric Kahn entrou numa ala de psiquiatria adolescente (“15/18”) sem transformar os doentes em casos clínicos; e Shinya Tsukamoto regressou ao Vietname (“Mr. Nelson, Did You Kil People?”), para perguntar o que acontece quando um rapaz aprende que matar é uma profissão. Terceiro dia no Lido: três filmes, três feridas e nem um comprimido suficientemente forte para adormecer a consciência.

Ao terceiro dia, Veneza decidiu acabar com as histórias dos jornalistas, não das que contamos todos os dias mas as dos filmes apresentados que vão enchendo os nossos dias. Depois dos jornalistas sem escrúpulos de Danny Boyle, dos agentes da CIA de Martin McDonagh e das outras criaturas que já atravessaram estes primeiros dias do Lido, chegou a vez da consciência. E a consciência, como se sabe, é uma péssima companhia para levar de férias e sobretudo trazê-la para Veneza. Paul Schrader trouxe a culpa. Cédric Kahn trouxe adolescentes internados numa unidade de psiquiatria. Shinya Tsukamoto trouxe um veterano do Vietname incapaz de esquecer as pessoas que matou. Um dia perfeito, portanto, para quem tinha pensado começar o dia com um cappuccino e uma brioche. Mas há uma coincidência interessante nestes três filmes, para além de nenhum deles recomendar propriamente uma visita ao Lido em busca de alegria mediterrânica. Os três falam de pessoas aprisionadas por sistemas que supostamente deveriam ajudá-las a viver: a filosofia, a medicina e o exército. Um homem tenta racionalizar o imperdoável. Um grupo de adolescentes tenta sobreviver ao próprio sofrimento. E um jovem americano descobre que o Estado que lhe prometera uma oportunidade lhe ensinou, afinal, a matar.

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Paul Schrader ainda tem contas a ajustar com Deus

Aos 80 anos, Paul Schrader continua a fazer essencialmente o mesmo filme. E neste caso, ainda bem. The Basics of Philosophy, apresentado fora de competição, é mais um capítulo dessa interminável autobiografia moral que começou muito antes de Taxi Driver de que foi argumentista e em que o protagonista muda de profissão, de casa, de roupa e de mulher, mas continua a acordar todas as manhãs dentro da mesma cela. Desta vez chama-se John Jorissen, é interpretado com uma contenção muito eficaz por Jack Huston, ensina Filosofia numa pequena universidade do Midwest e escreve um livro sobre o filósofo Espinosa, que começa ser uma das suas obsessões. Parece o emprego ideal para alguém que precisa desesperadamente de encontrar uma explicação racional para aquilo que fez. Não encontra. Por trás da vida organizada, da companheira Becca (Sofia Boutella), das aulas e dos livros está um episódio do passado que regressa para cobrar juros. A morte do pai e o reaparecimento de Miguel (Daniel Zovatto) obrigam John a enfrentar aquilo que passou anos a converter em teoria. O problema é que há coisas que nem Espinosa consegue arrumar na cabeça do protagonista. Schrader sabe isso melhor do que ninguém. Desde Travis Bickle, de Taxi Driver, passando pelo padre Ernst Toller de First Reformed, pelo jogador de The Card Counter ou pelo jardineiro de Master Gardener, o seu cinema está cheio de homens que tentam transformar o remorso numa disciplina. Escrevem diários, contam cartas, tratam jardins, estudam Deus, inventam rotinas. Tudo para evitar uma coisa muito simples: olharem para si próprios. John escolheu a filosofia. Má escolha. Pois quanto mais pensa, pior fica.

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Schrader afirmou que este filme prolonga precisamente a personagem que escreve desde Taxi Driver: o homem solitário que usa a profissão como máscara enquanto tenta negociar com a própria consciência. É uma espécie de “Schrader Greatest Hits”, mas não no sentido depreciativo. Aos 80 anos, já não precisa de inventar novos pecados. Basta-lhe continuar a escavar os antigos. The Basics of Philosophy não será talvez o seu filme mais surpreendente, mas é um dos mais cristalinos na forma como concentra as obsessões de toda uma carreira: culpa, desejo, transcendência, sexo, religião, redenção e a terrível possibilidade de algumas coisas simplesmente não terem redenção. E Jack Huston percebe perfeitamente que num filme de Schrader um homem não precisa de gritar para estar a arder por dentro.

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Cédric Kahn e a adolescência difícil

15/18 - Festival de Veneza
© Ad Vitam

Depois de Schrader, 15/18 (A Place to Heal) poderia parecer quase um intervalo terapêutico. Não é. Cédric Kahn entra numa unidade de psiquiatria para adolescentes de um hospital público francês e faz uma coisa que parece simples, mas que grande parte do cinema sobre saúde mental continua incapaz de fazer: olha para os doentes como pessoas antes de olhar para eles como doenças.

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Lucia tem 17 anos e regressa ao serviço acompanhada pela polícia. Conhece o lugar, conhece algumas das rotinas, reencontra Eloïse e entra novamente naquele pequeno universo onde médicos, enfermeiros, pais e adolescentes tentam diariamente impedir que alguém “se vá abaixo”, mais um pouco. Depois aparece Enzo e o equilíbrio, já precário, ameaça desfazer-se. Kahn e a argumentista Kahina Le Querrec prepararam o filme acompanhando unidades psiquiátricas, sessões, oficinas e quotidianos hospitalares; queriam, acima de tudo, ouvir os adolescentes em vez de falar por eles. E isso sente-se.

O filme foge razoavelmente bem ao desfilar de desgraças e, sobretudo, ao sentimentalismo higiénico da televisão que transforma qualquer problema psicológico numa lágrima, uma música de piano e três minutos de publicidade. Aqui há humor, irritação, violência, ternura, insolência e aquela extraordinária vitalidade adolescente que consegue coexistir, no mesmo corpo, com uma vontade de desaparecer.

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Kahn, que também interpreta o médico Étienne, filma o hospital como uma espécie de pequeno laboratório da sociedade francesa. Ali chegam o bullying, a violência familiar, as drogas, o racismo, as desigualdades, a ansiedade climática, a guerra vista através dos telemóveis e pais que já não sabem se devem abraçar, castigar ou pedir desculpa. Tudo aquilo que os adultos estragaram acaba, mais cedo ou mais tarde, num corredor com adolescentes. O filme tem momentos em que o humanismo talvez fique ligeiramente bem-comportado demais, como se Kahn tivesse medo de abandonar completamente o espectador ao caos que observa. Mas é um defeito menor num trabalho generoso, delicado e sobretudo muito atento àquilo que normalmente não se ouve.

No fundo, 15/18 não é sobre doença mental. É sobre uma geração a pedir socorro numa sociedade demasiado ocupada para perceber que o pedido já começou há bastante tempo.

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Tsukamoto: matar também deixa sobreviventes

E depois chegou Shinya Tsukamoto e acabou-se definitivamente qualquer hipótese de sobremesa. Mr. Nelson, Did You Kill People? parte da história real de Allen Nelson (Mark Merphy), jovem afro-americano de Nova Iorque que, tentando escapar à pobreza e à discriminação, se alistou nos Marines aos 18 anos. Em 1966 foi enviado para o Vietname convencido, como tantos outros rapazes alimentados pelo cinema americano, de que a guerra era o lugar onde os homens provavam a coragem. Descobriu que era sobretudo o lugar onde aprendiam a matar. Regressou aos EUA aos 23 anos com o corpo vivo e a vida destruída: insónias, medo, relações familiares desfeitas, falta de casa e memórias que se recusavam terminantemente a ficar no Vietname. Rodney Hicks interpreta Nelson já homem maduro; Geoffrey Rush é o psiquiatra que funciona como um dos poucos fios que ainda o ligam ao mundo.

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Tsukamoto encontrou a história de Nelson quando preparava Fires on the Plain e ficou preso a uma ideia terrível: numa guerra não devemos ter medo apenas de nos tornarmos vítimas. Devemos ter medo de nos tornarmos carrascos. É uma ideia extraordinariamente simples e politicamente devastadora. Depois de Fires on the Plain, Killing e Shadow of Fire, Tsukamoto fecha aqui uma espécie de trilogia alargada sobre a guerra e continua a fazer aquilo que sempre fez, desde Tetsuo: transformar o corpo humano num campo de conflitos e contradições. A diferença é que agora o metal foi substituído pela memória. A câmara permanece agarrada a Nelson, quase sem lhe permitir escapar da própria experiência. Tsukamoto explicou que filmou pessoalmente, à mão, e construiu o filme sem pontos de vista verdadeiramente exteriores ao protagonista. É a escolha certa: a guerra não acaba quando alguém assina um armistício, acaba — quando acaba — dentro de cada pessoa que regressa dela. E a pergunta do título é brutal precisamente porque parece infantil: “Sr. Nelson, matou pessoas?” Sim. E depois? É nesse “e depois?” que está o filme inteiro.

JVM

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