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The Card Counter – O Jogador, em análise

Oscar Isaac regressa ao grande ecrã com “The Card Counter – O Jogador”, uma obra do cineasta Paul Schrader. Será que é tão boa quanto se esperava?

NADA NA MANGA

Estreia agora em Portugal um dos filmes que já devia estar há uns meses na memória dos que gostam mesmo de cinema e dos que sabem distinguir na estrutura das obras cinematográficas os elementos que dão corpo e substância a uma arte e indústria mais do que centenária. Componentes que são igualmente a origem do objectivo e do subjectivo que alimenta a alma crítica e cinéfila. De facto, já devia, se não fosse a pandemia que forçou a interrupção da rodagem, uma das muitas que foram submetidas a reconversões mais ou menos complicadas, nomeadamente as motivadas pela alteração das regras de produção no seio da indústria cinematográfica americana e não só, uma situação que atingiu ainda de forma mais visível a globalidade das actividades produtivas da economia mundial.

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Felizmente, a vida continua e THE CARD COUNTER, que em Portugal o distribuidor associou a uma referência concreta, ou seja, O JOGADOR, aí está para provar que o cineasta Paul Schrader continua a ser uma das personalidades a seguir com renovada atenção no actual panorama da produção fílmica. Estamos a falar de um veterano com sobejas provas dadas ao longo da sua extensa carreira. Os filmes andam por aí, para quem os quiser descobrir. Filmografia onde surge não apenas como realizador, mas igualmente como argumentista. Lembram-se de TAXI DRIVER e de THE LAST TEMPTATION OF CHRIST (A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO), ambos de Martin Scorsese? E viram o AMERICAN GIGOLO, o LIGHT SLEEPER (PERIGO INCERTO), ou o mais recente FIRST REFORMED (NO CORAÇÃO DA ESCURIDÃO), por ele escritos e dirigidos? Se não os conhecem, nem sabem o que andam a perder.

The Card Counter
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Entremos agora em THE CARD COUNTER e iniciemos a nossa análise por essa palavra, O JOGADOR, como uma das que pode induzir em erro o espectador. Na verdade, o protagonista, interpretado por Oscar Isaac, não será propriamente o jogador absoluto, aquele que ganha a vida como profissional e para quem o jogo não passa de um meio para alcançar um fim, em geral fama e fortuna. Nem este é um filme de jogatanas atrás de jogatanas, com os habituais rodriguinhos dos campeões da arte de subtrair ao parceiro o dinheiro que os faz viver uma vida situada nessa linha muito frágil entre o sucesso, o luxo e o falhanço puro e duro. Não, neste caso o jogador, que dá pelo curioso nome de William Tell (como o Guilherme Tell da lenda), aliás, nome que só refere perante a insistência de outros e mesmo assim com variantes de alguma intencionalidade, interpreta a sua personagem numa espécie de piloto automático, no bom sentido da palavra, uma figura que se apresenta discreta, sem navegar nas águas geladas do cálculo egoísta. Não está ali para ficar milionário, sabe quando jogar e quando sair da mesa onde encontra adversários com mais ou menos competências na arte de baralhar para vencer. Uma atitude que lhe permite manter aquilo que designamos na gíria uma poker face, ou seja, o rosto impávido e sereno capaz de manter na sombra a carta ou a jogada que se guarda para o momento certo. Não fosse o jogo mais jogado o Blackjack. Mas para que possamos seguir as decisões daquele jogador na mesa de jogo, com a mais do que necessária cumplicidade, o espectador recebe uma autêntica lição, imagética e gráfica, sobre o método que está por detrás do milimétrico exercício mental subjacente ao contar de cartas de um card counter. Deste modo, o realizador introduz nos primeiros minutos desta obra algo que constitui uma peça essencial da futura engenharia narrativa e que sustenta de forma admirável o verdadeiro jogo racional de William Tell. Racionalidade que podemos adivinhar, não necessariamente perceber, por detrás do olhar de pedra do actor, porque a sua performance não se limita apenas ao desenho físico da manipulação das cartas, que poderia fazer resvalar o filme para um daqueles que mostram mais a habilidade manual do que a destreza intelectual de quem joga. Esta opção do argumento e da montagem não irá surpreender quem se recordar da filmografia de Paul Schrader e de muitos dos seus outros filmes onde podemos constatar uma polarização similar dos aspectos espirituais do comportamento humano, a redenção, o sacrifício, muito do que se encontra igualmente em cineastas maiores como Carl Dreyer, Ozu Yasujiro ou Robert Bresson. Não foi certamente por acaso que Paul Schrader lhes dedicou um magnífico ensaio intitulado Transcendental Style in Film: Dreyer, Ozu, Bresson. Neste filme, para quem conheça bem a obra do francês Robert Bresson, surge como evidente a sua influência. O jogador de THE CARD COUNTER faz lembrar a personagem do PICKPOCKET (O CARTEIRISTA), não pela sua actividade mas pelo modo como julga o mundo, assim como os homens e mulheres que o rodeiam. Há ecos igualmente do DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA, presentes no modo como Paul Schrader introduz na narrativa aquilo que o jogador escreve numa espécie de diário. Memória descritiva escrita pelo próprio durante a noite, reflexões do quotidiano que anota num caderno e no conforto possível de um vulgaríssimo quarto de motel, que o jogador prefere a um quarto de hotel porque, segundo diz, nestes últimos sente-se demasiado vigiado. E que dizer dos planos finais na prisão? Impossível não estabelecer uma relação da visita da mulher, por quem antes de ser preso se apaixonara, com o notável final do já citado filme de Robert Bresson, O CARTEIRISTA. Ela dá pelo nome de La Linda, personagem interpretada por Tyffany Haddish, uma negra um pouco balzaquiana que o protagonista vai encontrar num casino e que, a partir de certa altura o “agarra”, passando a ser aquela que o segue nos circuitos de póquer, como agente intermediária de grupos citados mas nunca mostrados, aparentemente de apoio financeiro a potenciais carreiras profissionais. Entretanto, o jogador irá encontrar outra companhia, um rapaz, interpretado por Tye Sheridan, que procura vingar a morte do pai, antigo militar. Este suicidou-se devido, segundo ele, a um mercenário, interpretado no filme por Willem Dafoe, contratado para formar soldados na prisão de Abu Ghraib, provavelmente a mais infame das prisões associadas a crimes de guerra cometidos pelos americanos no Médio-Oriente. Palco de factos que vieram a público em fotografias e vídeos que mostravam os horrores infligidos aos prisioneiros iraquianos e outros combatentes classificados como inimigos durante a Guerra do Golfo. Nesta altura, saberemos que a figura interpretada por Oscar Isaac, como dissemos, não joga só por dinheiro. Na verdade, o jogo faz parte da sua peregrinação exemplar, do seu percurso de redenção pessoal e, por isso mesmo, depois de revelar que foi um dos carrascos na citada prisão, procurará proteger o rapaz que irá gradualmente preparar para o regresso, sem rancor e ódios, ao seio familiar. Na verdade, o jogador procura, no papel de mentor do jovem adulto, fechar ele próprio um capítulo de mais de oito anos em que experimentou várias vezes a força da raiva que corrompe o espírito, dias e noites ao longo dos quais esteve numa prisão militar, condenado por participar na espiral de brutalidade da repressão que se abateu sobre as forças iraquianas capturadas. Não obstante, condenações que só aconteceram aos que não puderam ou conseguiram ocultar a identidade e as suas responsabilidades, directas ou indirectas, nos acontecimentos ocorridos e, sem qualquer sombra de dúvida, particularmente desumanos. Este rapaz, que ele quer salvar e encaminhar para um futuro melhor, promete ir ao encontro da sua mãe, de cujo convívio se afastara. Saberemos depois como pode ser ilusória a intensidade da luz que oculta o lado negro da normalidade que se julgava adquirida. E porque são vários e sinuosos os caminhos da verdade, no acertar das contas, não irá restar ao jogador outra cartada que não seja a da violenta catarse final que, neste artigo, não irei referir por razões óbvias.

The Card Counter O Jogador
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Não obstante, posso chamar a atenção para a vibrante e grande sequência, imediatamente antes do genérico final. De facto, como classificar aquele derradeiro plano senão como uma ideia genial de um realizador, para quem citar significa antes de mais incorporar na estrutura narrativa as suas próprias obsessões e idiossincrasias culturais? Em Plano Próximo, quase Grande Plano, vemos a mão e o dedo indicador de La Linda e a mão e o mesmo dedo de William Tell, simetricamente juntos de um lado e do outro do painel de vidro, a divisória que estabelece a diferença entre a liberdade e o seu contrário. Como não pensar na ideia de renascimento do protagonista, aquele que prefere regressar ao mundo de confinamento de uma prisão, a partir da proposta de subversão da famosa pintura de Miguel Ângelo, conhecida por A CRIAÇÃO DE ADÃO. Não precisamos de partilhar a ideologia de Paul Schrader para valorizar o magnífico fulgor de momentos como este no cinema contemporâneo. Exposto aos olhos de quem quiser ver com olhos de ver, assim como cabeça para pensar, naquilo que são verdadeiras manifestações pagãs do “divino” na arte cinematográfica. Tudo abençoado por um dos principais produtores executivos de THE CARD COUNTER, o mestre Martin Scorsese.

Não posso deixar de referir ainda a excelente banda sonora, que combina sons e música numa sucessão de referentes, quase sempre de grande poder e impacto. Por exemplo, num determinado ponto vemos uma roleta a girar num casino, e o som que associamos ao rodar, rodar, prolonga-se para o espaço do quarto e para a cama onde o jogador está deitado, aparentemente a dormir um sono profundo. Esta sensação quase hipnótica, produzida pela mistura no espaço sonoro de um som aparentemente banal e repetitivo e de uma sonoridade musical baseada na repetição de estruturas rítmicas que nos sugere o bater de um coração, precede a visão do pesadelo das imagens da prisão de Bagdade e a reconstituição das atrocidades ali cometidas. Imagens pesadas, mas familiares a quem anda atento ao que se passa no mundo. Melhor maneira não podia haver para nos dar o pulsar do medo, o horror dos gritos, e a persistência dos fantasmas do passado, por outras palavras, a matéria que nos permite um juízo moral daquele homem numa sociedade onde a corrupção dos valores humanistas pode acontecer a qualquer momento.

João Garção Borges

The Card Counter - O Jogador, em análise

Movie title: The Card Counter - O Jogador

Date published: 17 de November de 2021

Director(s): Paul Schrader

Actor(s): Oscar Isaac, Tiffany Haddish, Tye Sheridan, Willem Dafoe

Genre: Acção/Aventura, Thriller, 2021, 109 min

  • João Garção Borges - 80
  • Manuel São Bento - 75
78

Conclusão:

PRÓS: Demonstração de como o realizador e argumentista não perdeu nenhuma das suas qualidades, antes pelo contrário, sabe muito bem reconhecer hoje como outrora a TRANSCENDÊNCIA a partir do retrato do homem comum em circunstâncias pouco comuns. Sobretudo, porque estamos num filme em que jogar faz parte da narrativa interior que molda as vidas e o destino de personagens fora do baralho.

CONTRAS: Nada que seja visível ou interfira no prazer de ver bom cinema.

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