© Simon Emmett

Nanni Moretti (“Succederà Questa Notte”) regressou ao Lido para falar de sentimentos sem os transformar em terapia de grupo; Liam e Noel Gallagher (“Oasis: Don’t Look Back in Anger”) começaram quase à distância regulamentar e acabaram aos abraços; e Robert Pattinson (“Primetime”) mostrou que, muito antes do TikTok, a televisão já tinha descoberto que a justiça sensassionalista, também podia dar audiências.

Em “Succederà Questa Notte”), Moretti falou de pessoas que não conseguem dizer o que sentem; os Gallagher no documentário “Oasis: Don’t Look Back in Anger” (fora da competição) que estreia em Portugal daqui a dias e depois vai para o Disney+, mostraram dois irmãos que passaram década e meia a falar demasiado, quase sempre aos gritos; e Lance Oppenheim em “Primetime” foi buscar Robert Pattinson e à televisão americana dos anos 2000 um homem que transformou câmaras escondidas e indignação moral num formato de horário nobre. Família, amor, ódio, culpa, fama, espectáculo. Este foi um sábado quase normal, desde que se passe no Lido.

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“Succederà Questa Notte”: Moretti Ainda Sabe Onde Dói

Acontecerá Esta Noite Festival de Veneza
© Alberto Novelli per Sacher Film/Fandango Fotografie per utilizzo di presentazione alle Giornate Cinema di Riccione

Succederà questa notte é Nanni Moretti em estado de graça melancólica. Depois de Três Andares, volta à escrita do israelita Eshkol Nevo e constrói, a partir de vários contos de Legami, um mosaico de casais, pais, filhos, amizades, abandonos e segundas oportunidades. Nada de muito novo no universo de Moretti, o que aqui é um elogio. Aos 73 anos, já não precisa de fingir que descobriu a pólvora emocional. Interessa-lhe o embaraço de amar, a dificuldade de dizer “gosto de ti”, o ressentimento que se instala em casa como um móvel feio que ninguém tem coragem de deitar fora. E depois há Louis Garrel. Não podendo Moretti ser já o protagonista morettiano de outros tempos, arranjou alguém que o interpreta sem propriamente o imitar. Garrel apanha-lhe o tom, os silêncios, a irritação, a fisicalidade, aquela maneira de parecer simultaneamente ofendido com o mundo e surpreendido por ainda gostar dele. É Moretti sem caricatura, sem a imitação fácil do gesto ou da voz. Garrel percebeu que a personagem se constrói por dentro. Jasmine Trinca acompanha-o com inteligência e delicadeza, sem nunca desaparecer atrás desse extraordinário jogo de espelhos.

O filme é íntimo, mas nunca pequeno. Moretti continua a acreditar que a maneira como tratamos quem amamos é também uma questão moral. Succederà questa notte é uma pérola discreta que não precisa de levantar a voz para ficar connosco no coração. Um grande Moretti? Sim. E, sobretudo, um Moretti que já não tem de provar que é Moretti.

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“Oasis: Don’t Look Back in Anger”: Primeiro a Distância e Depois o Abraço

A seguir, o Lido trocou a melancolia italiana por guitarras, parkas e uma sala pronta a cantar Wonderwall como se ainda fosse 1995. Oasis: Don’t Look Back in Anger, de Dylan Southern e Will Lovelace, faz uma coisa inteligente: não começa pela reconciliação consumada. Começa pelos ensaios, pelos corredores, pela preparação e por dois irmãos que parecem ter assinado uma trégua antes de terem recuperado a intimidade.

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Quando caminham para o palco, aproximam-se verdadeiramente quase no último instante. O primeiro gesto é mais “temos um concerto para dar” do que “voltámos a ser irmãos”. E isso torna o filme melhor. Porque, concerto após concerto, a temperatura muda. Os abraços tornam-se menos protocolares, os beijos mais quentes, a proximidade mais natural. A digressão deixa de ser apenas uma operação musical gigantesca e passa a funcionar como uma espécie de terapia familiar com dezenas de milhares de pessoas a assistir e a pagar bilhete.

Há música, público, memória, estádio, suor, afecto e uma banda que percebe que aquelas canções já não lhe pertencem. Pertencem às pessoas que envelheceram com elas, que se apaixonaram, separaram, tiveram filhos, ganharam barriga e continuam a berrar Don’t Look Back in Anger como se a juventude pudesse regressar durante cinco minutos por cortesia de uma guitarra eléctrica. No fim, quando Noel e Liam aparecem finalmente a falar juntos, percebe-se que a grande reunião talvez nem seja a dos Oasis. É a de dois irmãos com a possibilidade, sempre precária, de voltarem a reconhecer-se. Ver este filme no cinema faz todo o sentido: há documentários musicais que se vêem e outros que precisam de volume suficiente para obrigar a cadeira a vibrar.

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“Primetime”: Quando a Justiça Precisa de Audiências

Primetime, de Lance Oppenheim, é o filme mais venenoso do dia. Robert Pattinson interpreta o apresentador Chris Hansen, o rosto de To Catch a Predator, da NBC programa que atraía suspeitos de crimes sexuais para casas preparadas com câmaras escondidas, confrontava-os diante da televisão e só depois deixava entrar a polícia. Jornalismo? Serviço público? Justiça? Entretenimento? O filme responde da maneira certa: sim. Oppenheim vem do documentário e filma a máquina televisiva por dentro, mostrando como a indignação moral também pode ser formatada para dar audiência. E Pattinson é muito bom precisamente porque evita transformar Hansen num vilão de feira. Faz dele um homem progressivamente intoxicado pela sua própria imagem, convencido de que está a cumprir uma missão enquanto aprende, ao mesmo tempo, a representar diante das câmaras o papel do homem que cumpre uma missão. É essa ambiguidade que torna o filme inquietante. Porque o problema deixa rapidamente de ser apenas Hansen. É uma televisão que percebe que quanto mais grave for o assunto, maior pode ser o espectáculo; quanto maior a indignação, melhor a audiência; quanto mais monstruoso o suspeito, mais irresistível o episódio seguinte. E é aqui que Primetime deixa de ser um filme sobre 2006. A televisão perdeu o monopólio, mas a lógica venceu. Hoje cada pessoa tem uma câmara, um palco, um tribunal e, se tiver sorte, patrocinadores. A fronteira entre informação e espectáculo não desapareceu: foi simplesmente democratizada.

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