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Um balanço semi-sério de onze dias no festival mais antigo do mundo, provavelmente o mais bonito e seguramente candidato a mais caro para quem tem de trabalhar nele. No Festival de Veneza 2026 houve grande cinema, estrelas simpáticas, influenciadores sem filme, jornalistas tratados como clandestinos no Excelsior, telemóveis reduzidos a pisa-papéis, refeições em tupperware e quartos a preços que começam a justificar uma chamada ao banco. Veneza continua magnífica. Só falta decidir se ainda quer jornalistas ou apenas milionários com acreditação.

Onze dias depois, sobrevivemos. O que, tratando-se do Festival de Veneza, começa a poder ser acrescentado ao currículo profissional entre “cobertura jornalística internacional” e “resistência física em ambiente economicamente hostil”. Vimos filmes, escrevemos crónicas, atravessamos o Lido de um lado para o outro de bicicleta, apanhamos barcos, filas, calor, chuva, multidões, conferências de imprensa, sessões às oito e meia da manhã, jantares que não aconteceram, almoços que consistiram num café e qualquer coisa encontrada no fundo da mochila; e assistimos à extraordinária transformação do jornalista de cinema numa mistura de crítico, atleta de fundo, contabilista, estafeta e refugiado gastronómico. O Festival de Veneza continua a ser um dos grandes acontecimentos cinematográficos do mundo. Talvez até seja o mais bonito. O problema é que também começa a ser necessário ganhar como George Clooney para o cobrir com algum conforto.

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Não vale a pena voltar aos prémios, ao Leão de Ouro, aos vencedores e vencidos. Isso ficou resolvido na noite final e haverá sempre quem considere o júri genial, incompetente ou vítima temporária de insolação. Este balanço é outro. É sobre aquilo que acontece enquanto tentamos chegar aos filmes. Porque os festivais são feitos de cinema, claro, mas também de camas, cafés, Wi-Fi, filas, sanduíches, acreditações, tomadas elétricas, casas de banho e daquela importante instituição cultural denominada “onde raio é que consigo comer alguma coisa nos próximos sete minutos?”.

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Primeiro é preciso conseguir dormir

Veneza 83
O Leão de Ouro de Veneza, o prémio mais importante. ©Biennale di Venezia

Comecemos pela principal obra de terror apresentada este ano em Veneza: os preços dos alojamentos. O género é conhecido, mas a realização melhora todos os anos. Procurar quarto no Lido durante a Mostra já não é turismo, é especulação financeira. Há apartamentos cujo preço diário começa a sugerir que deveríamos receber não uma chave, mas uma participação no imóvel. Uma cama razoável aproxima-se perigosamente do orçamento de produção de uma curta-metragem portuguesa e a modesta poltrona-cama, outrora solução desesperada do jornalista freelance, começa a adquirir estatuto de suíte presidencial.

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O próprio director Alberto Barbera reconheceu no final aquilo que quem trabalha na Mostra já sabe há bastante tempo: Veneza tornou-se mais cara do que Cannes e há profissionais que começaram simplesmente a desistir de vir. É particularmente extraordinário conseguir tornar Veneza mais cara do que Cannes, cidade onde durante duas semanas de Maio um proprietário consegue olhar para um T1 sem elevador a vinte minutos da Croisette e imaginar-se imediatamente dono do Hôtel du Cap.

Barbera utilizou uma metáfora bastante feliz: não se pode continuar a tratar a Mostra como uma vaca para ordenhar porque, se a ordenharmos demasiado, a vaca acaba por morrer. Correctíssimo. Embora, conhecendo os preços do Lido, receie que antes disso alguém transforme a vaca num alojamento turístico e tente alugá-la por 380 euros por noite, pequeno-almoço não incluído ou seja não dá direito a ordená-la e a beber o seu leite.

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A consequência é simples. Quem não viaja com cartão de crédito de produtor norte-americano aperfeiçoa técnicas de sobrevivência. O tupperware tornou-se assim num dos grandes protagonistas não creditados de Veneza 83. Havia cinema iraniano, coreano, francês, italiano, português e dinamarquês, mas a verdadeira co-produção internacional era massa fria transportada numa caixa de plástico. Entre uma sessão às 8h30, outra às 11h, uma conferência de imprensa, uma entrevista, um texto urgente e uma estreia às seis, almoçar deixa de ser uma refeição e passa a ser um conceito filosófico. Uma banana junto ao Palabiennale. Um pedaço de pizza ingerido durante uma caminhada. Um café tomado enquanto se escreve uma legenda. E aquela sensação magnífica de estar no festival mais glamoroso do mundo a comer arroz frio sentado num muro.

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O Excelsior inventou a fronteira Schengen para jornalistas

Depois tivemos o Hotel Excelsior, uma das instituições históricas da Mostra e cenário durante décadas de encontros entre realizadores, actores, jornalistas, produtores e toda aquela fauna maravilhosa que transforma um festival num festival. Este ano começou a parecer uma zona diplomática em estado de emergência. Barreiras. Seguranças. Cordões. Entradas reservadas. Espaços reservadíssimos. Pessoas com auriculares que olham para a nossa acreditação como se estivéssemos a tentar entrar numa reunião secreta da NATO.

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Os jornalistas foram em vários momentos desviados para acessos laterais, uma espécie de corredor humanitário da crítica cinematográfica. Não chega a ser ofensivo. É quase divertido. Estamos ali onze dias a escrever sobre os filmes, entrevistar os convidados e divulgar o festival, mas aparentemente constituímos um risco para a decoração do lobby.

O Excelsior parece ter decidido que a melhor maneira de homenagear a história do cinema é impedir que parte daqueles que trabalham no cinema circulem livremente pelo hotel. E depois há consumos mínimos (50€) e preços suficientemente elevados para transformar uma água com gás numa decisão que convém discutir previamente com o nosso contabilista.

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Falta, aliás, cada vez mais um lugar verdadeiramente informal onde críticos, produtores, realizadores e profissionais possam simplesmente encontrar-se. Os grandes festivais vivem também dessas conversas inesperadas. Em Veneza, encontrarmo-nos começa a exigir marcação, autorização e talvez impressão digital. Esperemos pelo renascimento do Des Bains, previsto para 2030. Até lá talvez seja mais fácil combinar uma reunião em Pádua.

A inteligência artificial chegou; o 4G ficou em Mestre

Oasis - Don't Look Back in Anger - Festival de Veneza
© Simon Emmett

Depois aconteceu aquele glorioso dia em que se juntaram os Oasis, Nanni Moretti e Robert Pattinson. Mais de vinte e cinco mil pessoas invadiram o Lido e as telecomunicações responderam com a dignidade habitual das infraestruturas perante uma crise: deixaram de funcionar.

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Foi bonito. Estamos em 2026. Falamos de inteligência artificial, carros autónomos, viagens a Marte, algoritmos capazes de escrever sonetos e frigoríficos que avisam quando falta leite. Mas bastaram vinte e cinco mil seres humanos num pedaço de Veneza para regressarmos quase ao pombo-correio.

Enviar um texto e sobretudo uma fotografia tornou-se uma experiência metafísica. O WhatsApp passou a instalação de arte conceptual. Uma mensagem com “estou a chegar” podia demorar tanto tempo que, quando chegávamos, já tínhamos regressado ao hotel.

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Num dos principais acontecimentos mediáticos do planeta, jornalistas começaram a deslocar-se à procura de uma barra de rede como antigos prospectores procuravam ouro. Havia pessoas paradas em posições estranhas junto a paredes porque alguém tinha descoberto que, levantando o braço esquerdo em direção ao Adriático, apareciam momentaneamente duas barras de 5G. Fellini não inventaria melhor.

Influenciadores: o filme é apenas um pormenor

Acontecerá Esta Noite Festival de Veneza
© Alberto Novelli per Sacher Film/Fandango Fotografie per utilizzo di presentazione alle Giornate Cinema di Riccione

Entretanto, continuou em crescimento uma população muito específica da Mostra: pessoas que percorrem a passadeira vermelha sem qualquer relação perceptível com o filme apresentado. Influenciadores, modelos, celebridades digitais e outros seres humanos cuja profissão principal parece consistir em serem fotografados enquanto chegam a sítios.

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Nada contra. Cada um ganha a vida como pode. O problema começa quando a passadeira vermelha parece por vezes mais interessada numa pessoa com quatro milhões de seguidores que nunca viu um filme do realizador do que na equipa que passou três anos a fazê-lo.

Podemos estar perante uma revolução histórica do consumo cinematográfico e simplesmente ainda não a percebemos. Talvez milhares de adolescentes vejam um vestido durante onze segundos no TikTok e corram imediatamente para comprar bilhete para um drama romeno de 147 minutos sobre a solidão pós-industrial. Se assim for, retiramos tudo o que dissemos antes.

Caso contrário, convém talvez recordar que aquilo é um festival de cinema e não a Semana da Moda com projetores.

George Clooney, pelo contrário, voltou a demonstrar porque certas estrelas continuam estrelas. Disponível, bem-disposto, paciente com fotógrafos e público, comportou-se como se ser mundialmente famoso não constituísse uma doença incapacitante. Ellen Burstyn, aos 93 anos, apareceu, falou, participou e lembrou a alguns colegas muito mais novos uma pequena tradição quase esquecida: quando se vai a um festival promover um filme, talvez seja simpático conversar sobre ele.

E Nanni Moretti deu-nos um dos grandes momentos pedagógicos da edição ao abandonar o seu lugar durante uma sessão para ir repreender um espectador que não largava o telemóvel. Gostaria de propor imediatamente a criação de uma brigada internacional Moretti. Um Moretti por sala. Ao primeiro ecrã luminoso, aproxima-se silenciosamente da cadeira e pergunta: “Desculpe, está à espera de um transplante ou consegue sobreviver duas horas sem Instagram?”

A medida reduziria drasticamente o uso de telemóveis nos cinemas europeus em menos de seis meses.

E, no entanto, aquele maldito cinema continua a funcionar

George Clooney
© Darren Decker / A.M.P.A.S.

A melhor coisa de Veneza é também aquilo que destrói todos estes argumentos. Depois de pagarmos demasiado pelo quarto, comermos demasiado depressa, discutirmos com uma ligação à Internet, atravessarmos três controlos de segurança, vermos quatro influencers fotografarem-se diante da palavra “cinema” sem aparentemente repararem nela e chegarmos à sala com três minutos de antecedência e uma garrafa de água que custou o equivalente a um almoço em Lisboa, acontece uma coisa profundamente irritante: apagam-se as luzes. E começa um bom filme. Nesse momento perdoamos quase tudo.

Veneza 83 foi, acima de tudo, uma edição onde o cinema conseguiu impor-se. Talvez precisamente porque houve um pouco menos daquela gigantesca máquina promocional hollywoodiana que em certas edições engole tudo à volta. Houve filmes pequenos a conseguir atenção, documentários a provocar discussões, autores desconhecidos a entrar no radar, cinema político capaz de ser cinema antes de ser manifesto e sessões onde ainda se sentia aquela coisa antiquada chamada descoberta. Houve filmes maus, evidentemente. Graças a Deus. Onze dias de obras-primas seriam insuportáveis e provavelmente provocariam uma epidemia de críticos sem assunto. Também houve público. Muito. Filas, estudantes, curiosos, cinéfilos, salas cheias e gente disponível para perder horas por causa de um filme. Esse talvez seja o dado verdadeiramente importante. Num momento em que passamos metade do ano a anunciar a morte das salas, vinte e cinco mil pessoas conseguem paralisar uma ilha para ver cinema, estrelas e até os Oasis. Alguma coisa ainda mexe.

Por isso, o balanço final é irritantemente positivo. O cinema ganhou. O público ganhou. A programação ganhou. Clooney ganhou. Moretti ganhou. O tupperware ganhou por resistência. As telecomunicações foram derrotadas sem apelo. O Excelsior perdeu algum do charme democrático que sempre fez parte da sua mitologia. Os influenciadores empataram porque continuam a existir. E o cartão de crédito ficou gravemente ferido, embora os médicos estejam moderadamente otimistas. Quero voltar em 2027? Evidentemente. É esse o problema de Veneza. Passamos onze dias a protestar contra os preços, as filas, o calor, as distâncias, a Internet, os horários e a nossa própria estupidez por termos decidido dedicar a vida a isto. Depois apanhamos o vaporetto de regresso, olhamos para o Lido a desaparecer e começamos imediatamente a ter saudades. Só deixo três pedidos para o próximo ano: uma antena nova, uma porta aberta no Excelsior, refeições e alojamentos cujo preço não obrigue um jornalista a escolher entre dormir em Veneza ou comprar um “braquetto” usado. O tupperware não é preciso. Esse já está preparado.


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