O espírito de Rupert Murdoch abre a festa do Festival de Veneza 2026, Clooney recebe um Leão, Elon Musk exige quase quatro horas de paciência, Gaza chega sem convite e os Óscares começam a aquecer motores. No Lido, durante onze dias, o cinema mundial volta a misturar arte, vaidade, política e aquele talento veneziano para transformar uma simples chegada de barco numa aparição divina.
Chegar ao Festival de Veneza 2026 continua a ser uma das poucas maneiras civilizadas de entrar numa guerra cinéfila. Apanha-se o vaporetto, atravessa-se a lagoa, desembarca-se no Lido e, de repente, começa tudo: filas, acreditações, bicicletas, táxis aquáticos, vestidos de alta-costura, produtores ao telefone, críticos a correr para sessões às nove da manhã e estrelas que parecem ter acabado de nascer no cais do Excelsior. Há quem tenha a sorte de encontrar alojamento no Lido de Veneza, porque já cá anda há muitos anos e conhece os circuitos de reserva, de uma no para o outro. De 2 a 12 de Setembro, esta estreita língua de areia volta a convencer o mundo de que o cinema ainda manda alguma coisa. O poder é sobretudo cenográfico. A encenação, essa, continua impecável. A 83.ª Mostra chega com Alberto Barbera no comando e a combinação que Veneza aperfeiçoou como ninguém: cinema de autor, Hollywood, controvérsia política, moda e negócios. Cannes continua a ser a catedral. Veneza é igreja, casino, passarela e antecâmara dos Óscares, tudo no mesmo quarteirão.
Às nove da manhã já estamos atrasados
A abertura de amanhã pertence a Danny Boyle, que traz Ink, adaptação da peça de James Graham sobre Rupert Murdoch e a compra do The Sun. Guy Pearce faz de Murdoch, Jack O’Connell de Larry Lamb e Claire Foy anda por ali no meio de jornalismo, poder, tablóides e manipulação da opinião pública. Para começar um festival em 2026, dificilmente se encontraria assunto mais vintage e, simultaneamente, mais actual. Mudaram as plataformas, ficaram os métodos. A primeira sessão para acreditados começa às nove da manhã. Isto é Veneza: a noite anterior ainda não acabou e o cinema do dia seguinte já começou. Às sete da tarde entra a gala, Laura Dern faz o elogio de George Clooney e Clooney recebe o Leão de Ouro de carreira. George Clooney em Veneza deixou de ser presença e passou a ser paisagem. Entre o Cipriani, o Excelsior, os barcos e a Sala Grande, pertence praticamente ao património imobiliário da lagoa.
Ellen Burstyn recebe igualmente um Leão de Ouro, aos 93 anos, mas com a deselegância de continuar a trabalhar quando a indústria talvez preferisse homenageá-la calmamente numa montagem de três minutos. Com mulheres envelhecidas, o cinema às vezes comporta-se como se tivesse descoberto uma espécie protegida.
Vinte e um filmes, uma mulher e muita testosterona cultural

A competição tem Martin McDonagh, Werner Herzog, Hirokazu Kore-eda, Lee Chang-dong, Nanni Moretti, Shinya Tsukamoto, Florian Zeller e uma pequena multidão de actores suficiente para montar outro festival. McDonagh chega com Wild Horse Nine, Sam Rockwell, John Malkovich, Steve Buscemi, Parker Posey e Tom Waits numa história de agentes da CIA no Chile antes do golpe de 1973. Robert Pattinson protagoniza Primetime, inspirado no universo televisivo de Chris Hansen. Penélope Cruz e Javier Bardem regressam juntos em Bunker, de Florian Zeller. Werner Herzog dirige Rooney e Kate Mara em Bucking Fastard. Kore-eda apresenta Look Back, Nanni Moretti Succederà questa notte, Tsukamoto Mr. Nelson, Did You Kill People? e Lee Chang-dong regressa oito anos depois com Possible Love.
Depois conta-se quem realizou os 21 filmes e aparece aquele pequeno embaraço que nenhum smoking consegue esconder: uma mulher. Apenas May el-Toukhy, com Woman Unknown. Uma realizadora em 21 candidatos ao Leão de Ouro, em 2026. Veneza gosta de proclamar a descoberta do cinema de amanhã, mas esta estatística chegou num vaporetto vindo directamente do século passado.
Musk, Putin e os Gallagher: não faltam egos

Alex Gibney apresenta Musk, 225 minutos sobre Elon Musk. Quase quatro horas podem parecer excessivas até recordarmos que Musk consegue ocupar um ciclo noticioso inteiro sem sequer precisar de sair de casa. Julia Loktev vai mais longe: My Undesirable Friends: Part II – Exile dura quase seis horas e acompanha jornalistas russos independentes forçados ao exílio. Juntam-se a reunião dos Oasis e um filme autobiográfico musical de Russell Crowe. Entre Musk, Putin por interposta repressão, Liam e Noel Gallagher, ninguém poderá acusar a não-ficção de escolher personalidades demasiado equilibradas. O verdadeiro ruído da edição não virá apenas dos filmes. A Ucrânia já protestou contra a presença de DAU, de Ilya Khrzhanovsky. Gaza atravessa a programação com NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, e com novos apelos do colectivo Venice4Palestine. Depois de A Voz de Hind Rajab ter marcado violentamente a edição anterior, seria infantil imaginar um Lido politicamente esterilizado por cordões de segurança, fotógrafos e copos de prosecco. A política não precisa de acreditação. Entra sempre.
O Óscar começa aqui, mesmo quando ninguém admite
Veneza descobriu outro negócio particularmente rentável: inaugurar a época dos Óscares. Desde Gravidade, em 2013, que o festival se tornou uma das pistas de lançamento preferidas de Hollywood. Birdman, Spotlight, A Forma da Água e Nomadland passaram por aqui antes de ganharem Melhor Filme. No ano passado, Frankenstein e Bugonia começaram no Lido boa parte da conversa que os acompanharia durante meses. A partir desta semana regressam as frases inevitáveis: “forte candidato”, “Oscar buzz”, “Volpi certa”, “Leão quase garantido”. Algumas sobreviverão até Março. Outras não chegarão ao fim de Setembro. Em Janeiro haverá filmes que teremos de voltar a ver porque já ninguém se lembra por que razão os declarara obras-primas.
Maggie Gyllenhaal preside ao júri com Kaouther Ben Hania, Daniel Blumberg, Francesco Casetti, Xavier Giannoli, Shahrbanoo Sadat e Johnnie To. No dia 12 saberemos quem leva o Leão. Até lá, interessa-me mais descobrir o filme que não vinha acompanhado por cinquenta publicistas, três capas de revista e uma campanha para os Óscares já preparada em Los Angeles. Passei anos suficientes em festivais para desconfiar das grandes descobertas anunciadas antecipadamente como grandes descobertas. Normalmente aparecem numa sessão matinal, quando estamos cansados, o café foi péssimo, o filme anterior ainda nos irrita e começamos a negociar mentalmente a possibilidade de faltar ao seguinte. As luzes apagam-se e, durante duas horas, desaparecem Clooney, Musk, Murdoch, Gaza, os Óscares, as festas, os agentes e os táxis aquáticos. Fica o cinema. Depois acendem-se as luzes, consultamos o telemóvel e regressamos imediatamente à feira das vaidades. E esta talvez seja a especialidade mais extraordinária de Veneza. Transformar quinze minutos de táxi aquático numa entrada triunfal, uma conferência de imprensa numa pequena cimeira internacional, sete minutos de aplausos numa notícia mundial e uma língua de areia onde Visconti filmou Morte em Veneza no centro provisório do planeta. Amanhã começa tudo outra vez.
JVM

