Depois de ter passado pelo Queer Lisboa 30 para uma antevisão muito especial, numa sala Manoel de Oliveira esgotada em tempo quase recorde, eis que “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, um dos filmes de terror mais bem classificados do ano pela crítica, Palma Queer em Cannes em 2026, chega finalmente às salas comerciais portuguesas.
Assinado por Jane Schoenbrun, cineasta também responsável pelo transgressivo, surpreendente e melancólico “I Saw the TV Glow”, (que também estreou no Queer) chega-nos outra maravilhosa e inesperada apropriação queer de espaços que, tipicamente, foram vistos através de um olhar algo redutor e masculino. Aqui, o slasher é totalmente despido das suas características mais comuns e visto através de uma lente feminina. Aliás, será que Camp Miasma é mesmo um slasher, e não antes um comentário sobre o género e os seus limites? Lá chegaremos.
Os créditos iniciais formam uma narrativa perfeita e dizem-nos tudo o que precisamos de saber sobre o mundo de “Camp Miasma”. Este é um franchise fictício de terror que acompanha a própria história deste género há muitos anos. Mas, depois de anos e anos de sequelas sem fim, a saga começa a ser revista mediante a lente da contemporaneidade e começa a perder o seu poder e a sua reputação.
Teenage Sex and Death at Camp Miasma e a falta de criativade dentro do terror
Para revitalizar o filme, à semelhança do que acontece vezes e vezes sem conta na vida real, está na altura de criar um reboot com uma história de origem que seja capaz de propagar uma nova legião de fãs e novas dinâmicas em torno do franchise. Para isso, nas palavras da própria, o estúdio contrata uma jovem promessa na realização para dar à história um cunho mais queer friendly e moderno – a cineasta e argumentista Kris (Hanna Einbinder, “Hacks”).
Kris decide, desde logo, reunir-se com a atriz reclusa que interpretou a primeiríssima final girl da saga “Camp Miasma” – Billy (Gillian Anderson, “The X-Files”). É durante esta reunião que nasce uma nova ânsia – a de unir forças com esta atriz há muito removida das luzes dos holofotes para recuperar o seu olhar magnético no primeiro filme do franchise, para assim perceber o que a movia, então e também agora.

Com este ponto de partida, pensamos que “Teenage Sex and Death at Camp Miasma” será um filme sobre a realização de um filme, mas Schoenbrun troca-nos bem as voltas e nem chegamos ao processo de pré-produção. O filme, ao fim de contas, subordina-se a valores muito mais importantes: a exploração da individualidade, desejo e dinâmica entre estas duas mulheres.
Um slasher que não o chega a ser
Sem ser um slasher no seu âmago, o filme final que aqui vemos não deixa de ser uma excelente homenagem e simultânea subversão do género. E, apesar da distância, somos abençoados com duas excelentes sequências de matança por parte do assassino Little Death (Jack Haven – “I Saw the Tv Glow”, num excelente papel não verbal).
Little Death, agora uma criatura maldita que vive no fundo de um lago, foi em tempos uma pessoa não-binária marginalizada, que expressa agora o seu sofrimento na forma de matanças espaçadas mas periódicas. Ele estará sempre de volta, e consigo os mesmos demónios que hoje atormentam a protagonista Kris.
Também ela uma pessoa queer com inseguranças debilitantes, Kris é uma protagonista rica que, ao longo de “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, apreende a reivindicar o seu desejo, a sua sexualidade e a reclamar as suas fantasias mais obscuras.
Gillian Anderson é, possivelmente, a persona definidora deste Camp Miasma. Não só a chave de grande parte do mistério depende dela, como a sua interpretação como uma atriz reclusa sulista com uma ligação profunda ao filme que protagonizou é inegável. Anderson deixa-nos sempre desconfortáveis com as suas repetidas provocações, com o seu riso inquietante e o seu olhar poderoso. Que interpretação e, já agora, que dupla.

“Teenage Sex and Death at Camp Miasma” remove-nos do mundo e progride rumo a um afastamento cada vez mais notório da realidade palpável. Onírico e fantasioso, o filme vê a sua cineasta a manter o estilo característico que marcou “I Saw the TV Glow”, embora esta obra sucessora seja mais luminosa e divertida.
O pesadelo onírico irresistível de Jane Schoenbrun
Os cenários, pintados à mão, conjugados com as paisagens naturais avassaladoras da natureza circundante, colocam-nos ainda mais neste estado perpétuo de suspensão do real. Isto tudo à medida que o filme dentro do filme se vai tornando cada vez mais avassalador, até chegarmos a uma fusão perfeita de realidades – onde tudo o que nos resta é a pura libertação.
Com uma progressão inesperada e um galopante abandono da mundanidade, “Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma” recusa todas as fórmulas prévias do género a que presta homenagem e centra-se no desejo e na afirmação de identidades queer. Aqui, e no fundo do lago, Little Death é livre, não julgado e não precisa de roupas ou de outros artefactos – pode simplesmente ser.
Numa cultura em regressão como é a nossa, objectos artísticos como Camp Miasma são uma preciosidade rara mas muito necessária e bem-vinda. A reflexão é convidada, a subversão e a identidade própria das personagens centrais é honrada neste belo pesadelo que gostaríamos de habitar.
Teenage Sex and Death at Camp Miasma, a crítica
Conclusão
“Teenage Sex and Death at Camp Miasma” é um esforço criativo elevado e ambicioso. Uma rescrita do género slasher, mediante uma nova lente queer e feminina. Hannah Einbinder e Gillian Anderson são a parelha de sonho que esperávamos, numa narrativa onde o desejo espreita em todos os cantos – pronto para devorar o mundo.

