Entre a eclética programação do Queer Lisboa em 2026, encontrámos, mais precisamente na Competição de documentários, a longa “Two Mountains Weighing Down My Chest”. Viv Li, uma jovem chinesa radicada em Berlim, serve de protagonista ao filme que a própria realiza à medida que se move, com relativa naturalidade, entre mundos distante – física e espiritualmente.
Este seu filme de estreia passou primeiramente pela Berlinale, na secção Panorama, e marca a primeira longa-metragem assinada pela cineasta.
Two Mountains Weighing Down My Chest: a identidade entre dois mundos
“Two Mountains Weighing Down My Chest” é uma narrativa documental simples mas bem construída, que neste Queer Lisboa explorou a identidade de género do seu sujeito, mas acima de tudo a elasticidade cultural da sua protagonista. Viv, uma artista oriunda de Pequim, já viveu um pouco por toda a parte. Durante a Pandemia de COVID-19, ficou “presa” em Berlim e acabou por mergulhar a fundo na cultura alternativa da cidade.
E se esta a experiência a aproximou de novos pares, acabou por a alienar um pouco mais das suas raízes e da sua vida familiar. Um dos grandes trunfos de “Two Mountains Weighing Down My Chest” é a sinceridade do seu retrato, bem como a variedade de localizações visitadas por Viv ao longo do filme.
A nossa protagonista e cineasta mostra-nos o seu quotidiano em Berlim, nomeadamente as atividades em que se envolve e os grupos sociais que ditam a sua vida. Por outro lado, convida-nos a conhecer bem a sua família chinesa e transporta-nos até à Pequim contemporânea.
Com interessantes conversas estabelecidas à mesa do jantar, ficamos a saber as opiniões da sua família. Algumas delas consideradas algo retrógradas no Ocidente. De um discurso com pendor pró-Rússia à alegada culpabilidade dos EUA na crise pandémica, certos diálogos deixam quem vê pé atrás e incomodado – mas tal faz parte da experiência.
Viv Li entre Oriente e Ocidente
Mas louvamos o esforço de Viv Li, o de nunca se censurar, nem a si nem à sua família, expressando o que lhe vai na alma. No Ocidente, e na Alemanha, Viv dá corpo a uma nova versão de si mesma, uma versão que faz muitas cedências e que tem de se ocidentalizar para sentir a tão necessária sensação de pertença.
Além dos seus familiares, ao longo de “Two Mountains Weighing Down My Chest” , a protagonista discute temáticas e até ao sua própria sexualidade com conhecidos e amigos. Todos vindos de partes distintas, com ideologias opostas e afirmações que chocam entre si.
Viv é elástica, compreensiva e vive o mundo de forma muito clara. Sabe o quanto se transformou para se adaptar à realidade progressista de Berlim, sabe o que ficou para trás e tudo o que ganha e perde na troca.
Honestidade e compromissos no Queer Lisboa 2026
Ao longo da obra, testemunhamos as suas lágrimas, bem como as lágrimas da sua família, sendo convidados a explorar a sua intimidade, os seus receios, bem como as suas impressões acerca do preço de se tornar uma “cidadã do mundo”. As suas reflexões são incisivas, abertas e permitem compreender, ou pelo menos questionar, o estranho mundo em que vivemos. O mundo da imediatidade, mas também um feito de gritantes contrastes.
O Queer Lisboa chegou ao final da sua 30ª edição a 26 de setembro, mas o Queer Porto está já aí à porta para a sua 12ª edição entre os dias 3 e 7 de novembro.
Two Mountains Weighing Down My Chest, a crítica
Conclusão
“Two Mountains Weighing Down My Chest” é um documentário bastante simples do ponto de vista formal, mas um que privilegia uma interessante conversa entre culturas e mundos tão, tão distantes. Viv Li está no epicentro destas culturas díspares, tentando reclamar para si uma identidade coesa. Nem sempre é fácil, mas a transparência aqui representada é o primeiro passo.


