“Tangles” é um belíssimo e aclamado filme de animação tradicional, a preto e branco, realizado por Leah Nelson. As lágrimas caíram copiosamente nesta Noite de Encerramento do Queer Lisboa 30, perante a exibição desta narrativa tão ternurenta, onde o humor e o drama se aliam para revelar o melhor no âmago de uma situação terrível e revoltante.
Tangles: uma narrativa animada irrefutável
De San Sebástian a Cannes, passando pelo muito bem reputado festival de Annecy, especialmente dedicado à animação, “Tangles” tem vindo a encantar meio mundo com a sua história biográfica tocante. A partir da novela gráfica de Sarah Leavit, “Tangles: A Story About Alzheimer’s, My Mother and Me” (2010), e também com co-argumento da própria, a história reflete acerca de uma batalha familiar contra o Alzheimer – utilizando a animação como o mais livre dos veículos para manifestar o pesar, mas também as pequenas alegrias diárias que vão para lá desta temível luta.
É certo que “Tangles” tem o poder de emocionar qualquer um, mas terá particular efeito naqueles que se debatem, nas suas próprias vidas, com as consequências devastadoras do Alzheimer. Em Hollywood não faltam filmes sobre a temática, mas onde alguns títulos, como por exemplo “Still Alice“, escolhem uma veia algo teatral, “Tangles” é um filme bem ancorado no real, não fosse baseado numa história verídica.
Aqui, é-nos apresentada uma narrativa de extrema fácil identificação: altos e baixos, reconciliações e desavenças e toda a luta de uma família mas também, em particular, de uma filha – Sarah. A sua mãe era a sua âncora, uma figura que a protegia desde pequena contra os potenciais males do mundo. Quando esta figura é diagnosticada com uma doença tão destruidora quanto Alzheimer , Sarah perde as suas amarras e vê a sua vida virada do avesso.
Acompanhamo-la de forma plena, da sua identidade como pessoa queer que vive uma vida plena em São Francisco, à sua relutância em voltar para a pequena terra onde cresceu no Maine para estar com a sua família, passando por todas as dificuldades que o vaivém constante acrescenta à relação com a sua namorada.

Sim, “Tangles” é extremamente real, pessoal, e é assim mesmo que se faz sentir. A animação tradicional aqui escolhida é um veículo perfeito, uma forma de inequivocamente expressar a interioridade da protagonista e o seu desespero perante a alarmante situação que se desenrola no seio da sua família.
A união familiar na bela história de Sarah Leavit
Mas este é também um filme com um cunho positivo, onde a união e perseverança de uma família não são capazes de reverter um diagnóstico fatal, mas são capazes de ainda assim criar boas memórias perto do fim. Como por exemplo o tão emocionante momento do casamento, com particular destaque para a sequência em que o noivo da irmã de Sarah, Hannah, dedica uma canção à sua mãe doente.
Midge, a mãe, não se lembra deste momento, foi imediatamente perdido para a sua demência, mas todos os outros membros da família não se esquecerão tão depressa, recordando com carinho estes últimos instantes valorosos antes do fim.
Astros alinham-se para dar voz neste Queer Lisboa
Além da excelente animação, simples mas bela, “Tangles” mune-se de outro trunfo: um excelente elenco vocal repleto de estrelas da comédia norte-americana e mais além. Temos Seth Rogen (“The Studio”) e Julia Louis-Dreyfus (“Veep”), que servem também de produtores ao filme, e ainda nomes como Bryan Cranston (“Breaking Bad”) ou Samira Wiley (“Orange is the New Black“).
Atualmente, a longa-metragem “Tangles”, que em Portugal estreou no 30º Queer Lisboa, é um dos favoritos para a nomeação ao Óscar no próximo ano. Esperemos que lá chegue e que seja visto pelo máximo de pessoas possíveis. E, quiçá, que possa ajudar alguém a curar o seu trauma.
Tangles, a Crítica
Conclusão
“Tangles” é uma belíssima história biográfica animada e uma pequena relíquia – um filme feito com cuidado, inteiramente desenhado à mão e com uma narrativa sempre verdadeira, honesta e capaz de equilibrar humor e drama perante o abismo que se abate sobre os protagonistas.

