“Jim Queen” foi exibido no Queer Lisboa 30, perante uma Sala Manoel de Oliveira ao rubro – ruidosa e divertida, rindo a bandeiras despregadas ao longo dos maravilhosos 85 minutos desta longa-metragem animada. A obra teve estreia mundial em Cannes, no arranque do ano, e por lá recebeu a nomeação à Palma Queer.
Jim Queen: animação adulta sem amarras
Na boa tradição da animação adulta, a duas dimensões e com muitas cores à mistura, “Jim Queen” segue as fórmulas conhecidas a este género. Encontra-se repleto de humor, mais e menos subtil, acentua o pendor da palavra “adulto”, com muitas piadas sexualmente explícitas e, neste caso, próprias do reino queer e acaba por representar esta comunidade de uma forma mais ou menos estereotipada.
Ou seja, ressalvas deixadas desde logo, “Jim Queen” não deve ser tido como uma produção para levar demasiado a sério. Temos humor explosivo, muitos clichés divertidos acerca de straight culture em oposição a gay culture e uma celebração galopante da segunda.
Quanto ao enredo, lança-nos desde logo no reino delicioso do absurdo. Uma doença chamada “Heterosis” está misteriosamente a atingir a comunidade queer. Mais precisamente, este flagelo é reservado a homens gays que, subitamente, sentem um desejo inexplicável de constituir família, ver futebol e copular com mulheres (claro está).

Os heróis da narrativa são dois opostos flagrantes dentro das classificações do mundo gay: por um lado temos Jim Perfect, um gay de ginásio e um armário ambulante, famoso influencer, que fará de tudo para reverter os efeitos da Heterosis no seu corpo e mente. Do lado oposto temos Lucien, um pequeno twink inexperiente, fã número um de Jim e filho de uma mãe incrivelmente homofóbica.
De forma inesperada, Lucien é a chave para resolver este problema gigante dentro da comunidade gay. Com Jim ao seu lado, de forma relutante, Lucien lança-se na Odisseia de uma vida, em busca da cura tão necessária.
Romance, muitos trocadilhos e humor no Queer Lisboa
Para além de ser uma comédia absolutamente hilariante, em particular para quem conheça as particularidades da cultura gay, “Jim Queen” é também um romance que se suporta numa das tropes (categorias) mais populares do género: é um clássico “opostos atraem-se”, capaz de nos enternecer subitamente, mesmo no meio de todas as piadas.
E se há piadas. Esta obra, exibida em Portugal pela primeira vez no Queer Lisboa (e possivelmente sem exibição comercial planeada, de acordo com a organização do festival), bombardeia-nos com piada atrás de piada, num ritmo alucinante.
Nenhum instante é deixado em branco, não havendo tempo para a reflexão – mas antes para a explosão grandiosa de cores e movimentos. Os trocadilhos são constantes e memoráveis – da organização criminal “Gaystapo”, à apresentação da drag queen “Glamídia”, passando por um dos maravilhosos efeitos secundários da Heterosis – o casamento entre Ricky Martin e Kristen Stewart anunciado em pleno noticiário.
“Jim Queen” é pura queer joy em esteróides e muito possivelmente a obra mais divertida que tivemos a oportunidade de ver, não só no Queer Lisboa, como em geral neste ano.
Pela aventura fora, Jim torna-se melhor pessoa e Lucien aprende a confiar mais em si mesmo e sai do armário. Feitas as contas, muitas aprendizagens depois, os nossos dois heróis passam por muitas tribulações e saem do outro lado mais fortes. E, muito mais importante, mais gay!
O Queer Lisboa despediu-se da sua 30ª edição, mas em 2026 passa ainda pelo Porto para mais cinema LGBTQIA+ entre os dias 3 e 7 de novembro.
Jim Queen, a Crítica
Conclusão
“Jim Queen” é uma deliciosa comédia animada. Hilariante, funciona como a apologia máxima da cultura gay. Exibiu no 30º Queer Lisboa. Não peca pela subtileza mas, e daí, esse nunca foi um dos seus objectivos.


