“NAZA”, documentário realizado por Yuval Abraham e Rachel Szor, é, muito provavelmente, o filme mais importante de 2026 e aquele que será usado como referência futura num olhar retrospectivo sobre os nossos dias refletidos no grande ecrã. Todos deviam ver o que metade da equipa, Oscarizada por “No Other Land”, esteve a apresentar no Festival de Veneza deste ano, onde Maggie Gyllenhaal e os seus jurados lhe concederam um prémio especial do Júri. De facto, tão essencial é o seu visionamento que, após a passagem pelas salas de cinema durante o mês de outubro, a fita será disponibilizada gratuitamente no site do The Guardian, que também produziu a obra.
Mesmo assim, apelo a todo o leitor para aproveitar o lançamento da Nitrato Filmes e ver o filme em sala de cinema. É importante! Não que eu seja um crítico que aprecie a redução de um filme à sua dita importância. Mas “NAZA” propõe grandes problemas nesse sentido, pois, afinal, como se escreve sobre uma obra como esta? Devemos reduzir tudo a uma questão audiovisual e raciocinar a experiência cinematográfica pelos seus elementos mais puramente formalistas? Será que é mais útil pensar no filme enquanto jornalismo ao invés de mero cinema, um gesto informativo mais do que um trabalho de criação artística?
E, além de tudo isso, não deveria, porventura, dar-se prioridade a questões de utilidade política, ao seu uso enquanto ferramenta de sensibilização? Estamos perante um filme ou um panfleto? Os dois? Como escrever sobre tudo isto? Como testemunhar e relatar e pôr ordem ao pensamento? Quando nos defrontamos com um trabalho que nos faz pensar assim, devemos expressar gratidão a quem nos faz refletir. É necessária reflexão. A passividade do espetador é um erro, especialmente quando se testemunha uma crónica carnificina industrializada, que faz para o genocídio perpetrado por Israel contra o povo palestiniano o que os últimos capítulos de “Shoah” fizeram para o Holocausto dos nazis contra o povo judeu, entre seus outros alvos a abater.
Num gesto que reforça o quanto Abraham e Szor estão dispostos a apontar a hipocrisia da sua nação, a certa altura, “NAZA” mostra imagens da Cinemateca de Tel Aviv em plena retrospectiva de Claude Lanzmann, com “Shoah” em destaque. Aí, talvez seja melhor estabelecer concretamente do que trata “NAZA” antes de continuar esta indagação meio solipsista perante um objeto sobre o qual é difícil articular uma análise crítica. Talvez até devamos fazer como os cineastas, que também fazem papel de editores, e rapidamente incluem uma conversa que nos introduz ao termo que dá título à fita. Acontece que, nos serviços de inteligência israelitas, o protocolo imposto segue a regra da desumanização linguística.
“NAZA” são as vidas humanas perdidas enquanto danos colaterais de um ataque, todos aqueles que morrem sem ser, oficialmente, alvos. Não são mulheres, crianças, bebés ou até humanos. São simplesmente “NAZA.” Não é Abraham quem nos diz isso, mas um dos 24 agentes e trabalhadores desses mesmos serviços de inteligência, os arquitetos e executores do genocídio na Faixa de Gaza, que explicam isso mesmo, em suas próprias palavras. Todos foram anonimizados como exigem as convenções jornalísticas. E, há que dizer, nada do que eles partilham é grande novidade para quem segue as notícias a sério e não se deixa ficar pela superficialidade meio propagandista que, infelizmente, domina o mainstream.
Abraham, além de cineasta, é jornalista e, ao longo dos últimos três anos, tem publicado vários artigos que expõem as realidades denunciadas neste filme. Podem encontrá-los no Guardian, na +972 Magazine, no Local Call hebraico. Só que é mais fácil mostrar a alguém um filme de 80 minutos do que exigir curiosidade e diligência durante anos na procura de informação legítima e detalhada sobre o maior crime de guerra – crime contra a Humanidade – a ocorrer nos dias de hoje. Um crime, uma atrocidade que não se iniciou apenas como resposta ao 7 de Outubro de 2023, e que o uso de material de arquivo em “NAZA” torna bem evidente.
De espólios, como o arquivo de Steven Spielberg na Fundação Shoah, surgem-nos documentários ficcionados sobre a fundação do Estado de Israel e a construção de Tel Aviv. Nessas propagandas, tudo era deserto vazio, terra virgem à espera daqueles a quem Deus a havia prometido. Pois, apesar dos esforços para apagar o registo histórico, ainda existem indícios das muitas vilas palestinas que outrora ocupavam o território da atual capital israelita. Em termos de edifício, só sobra um, preservado como uma espécie de ornamento ancestral, um adorno para um dos parques públicos desta bela cidade, cuja história de origem é tão fidedigna e próxima da realidade quanto a mitologia associada à fundação de Roma.
Uma sinfonia da cidade para Tel Aviv e um pedido de perdão a Gaza.

Falo muito de Tel Aviv porque o filme, na sua construção, assim o exige, qual sinfonia da cidade subvertida. As entrevistas foram encenadas diretamente ou, mais tarde, reencenadas nos terraços de prédios, com Abraham de rosto iluminado e seus companheiros de conversa escondidos na sombra. Atrás deles, Tel Aviv sempre reluz como diamante negro, quiçá de sangue. Voltarei a esse assunto das abordagens estéticas perante a paisagem urbana, mas, primeiro, há que revelar parte do conteúdo das entrevistas. É que vai muito além da simples desumanização idiomática do termo titular. Filmado ao longo de anos, “NAZA” expõe a evolução de um esforço de extermínio que se dá há décadas.
Começou, neste caso específico, com a instrumentalização tecnológica que transformou os telemóveis de civis em Gaza em efetivas escutas e em fontes de informação contínua para as forças israelenses. A certa altura, um entrevistado descreve esta vigilância absoluta como um dado adquirido, e que quem nasce e vive em Gaza deve assumir estar a ser espiado, ouvido e observado pelos poderes de Israel, como se de Deus se tratassem. Eles lá são omnipresentes, é certo. Essas infraestruturas de vigilância serviram de fonte de informação para os programas de inteligência artificial que, nos primeiros meses da investida israelita, em finais de 2023, definiram os alvos do bombardeamento.
Depois, bastava aos operadores dos drones fazerem o seu trabalho pela interface à la videojogo, um mapa interativo de todo o território da faixa de Gaza de onde se podia selecionar até o andar do prédio a bombardear. Para cada ataque, havia números de NAZA aceitáveis. Aliás, sempre havia esse dano colateral humano, visto que a estratégia privilegiava o ataque durante a noite, quando as famílias estariam reunidas em suas casas. Tanto assim é que, a certa altura, o algoritmo começou a catalogar vozes de crianças a falar do pai como uma espécie de alerta, um gatilho digital que assinalava mais um alvo adquirido.
Ouvimos falar desses primeiros meses, e de ataques com 15 ou 20 NAZAs aceitáveis como dano colateral. Passado um ano, já se fala na demolição de quarteirões inteiros e na certeza de que centenas de NAZAs foram abatidos. Histórias sobre escudos humanos usados pelo Hamas são até troçadas pelos próprios agentes. Porque, para eles, nenhuma vida humana alguma vez valeu o suficiente para ser considerada escudo. O mesmo talvez não se aplique a quem construiu a base das forças de defesa israelitas, situada no meio de uma zona residencial, para fazer com que qualquer ataque contra esse alvo militar implique ataques contra civis.
O próprio planeamento urbano é político e, acima de tudo, motivado pela agressão bélica enquanto força motriz de um estado expansionista. Mais caricato e também mais obsceno, é a clara desvalorização destes assuntos por parte dos entrevistados. Ou isso ou uma racionalização extrema que passa sempre pela inoculação do próprio em relação aos crimes de guerra cometidos por Israel. Por exemplo, um dos programadores daquele algoritmo assassino explica, em pormenor, a sua falibilidade, como tanto pode marcar um padeiro que tenha servido um membro do Hamas como um membro ativo dessa organização.
Aliás, mesmo que o sistema seja imperfeito e que a maioria de suas vítimas não tenha nada a ver com ataques a Israel, isso não importa. Se não fosse ele a programar, teria sido outro. Os resultados seriam iguais. Há aqui uma constante fuga à responsabilidade pelos atos, pelas escolhas, pelo homicídio em massa de um povo. Chegamos ao ponto em que, depois de se admitir a instrumentalização da fome como arma de guerra, se faz um desenho do sistema de distribuição de alimentos. Estes eram colocados em locais de difícil acesso e eram definidas duas áreas de movimento. Havia um caminho aprovado e outro proibido, não que a população faminta soubesse disso.
Como aprendiam? Com a morte de uns quantos que escolhiam o caminho errado, sempre o mais direto e instintivo. Depois, nem se permitiam que os corpos fossem enterrados ou salvaguardados por familiares. A melhor opção era deixá-los ser comidos pelos cães de Gaza como espetáculo lúgubre e outra arma bem estudada para desmoralizar o “inimigo.” Estas são só algumas das muitas estratégias definidas em “NAZA,” filme que dura 80 minutos, mas também parece estender-se por uma vida inteira. A frieza de muitos entrevistados é difícil de engolir, como a de quem diz perceber como os nazis conseguiram fazer o que fizeram na Polónia, identificando-se com eles a certo ponto.
Ou quem descreve ouvir os últimos momentos de vida de um bebé, prestes a ser morto, juntamente com o resto da família, e simplesmente continuar o seu dia de trabalho, passar à frente para o próximo alvo. Quem designe Haia como um inimigo do Estado de Israel, ou quem diga que simplesmente cumpriu ordens, como que num eco grotesco das defesas dos réus em Nuremberga. No fim, duas passagens ficaram-me na cabeça e parecem emblemáticas das estratégias adotadas por “NAZA” fora deste foro puramente jornalístico entre Abraham e seus 24 informadores. A primeira refere-se a alguém que realmente sentiu remorso e abandonou o trabalho depois de suas ações terem levado ao testemunho auditivo de uma mãe chorando, enquanto as filhas de três e seis anos ardiam à sua frente.
Como se faz justiça no cinema? É possível? E no jornalismo?

O agente havia arquitetado o ataque com base numa selfie que o pai tinha tirado com elas na varanda e, por milagre, sentiu alguma ponta de culpa. O outro destaca-se pela admissão de que matar e cumprir os objetivos decididos pelo governo eram estranhamente divertidos e, como ele mesmo se considera um esquerdista liberal de classe média, tal como os pais. Ele confia no sistema, e o sistema confia nele, para continuar a cumprir este dever no projeto sionista. Reparem em como, no uso de arquivos históricos, em palavras como as desse assassino, nas imagens constantes de discursos políticos na TV, da Cinemateca e outras instituições culturais, “NAZA” desmente a noção de que o genocídio é o produto exclusivo de extremistas.
Pelo contrário, é o sintoma de uma sociedade que nasceu com o roubo de terras, com a chacina de quem lá vivia, com a perpetuação de um projeto colonialista europeu na Nakba de 1948. Estas noções não nos chegam articuladas em jeito didático e diretamente verbalizadas, mas sim pelos significados que se comunicam através da colisão de imagens, pelo engenho do cinema na sua forma mais pura. Outra estratégia visual passa pela viragem do feitiço contra o feiticeiro. Muito ouvimos sobre como estes agentes bombardeiam Gaza à distância, usando programas que mapeiam tridimensionalmente os edifícios da Faixa, e sobre como os telemóveis e outros aparelhos eletrónicos feitos para escutar lhes dão acesso aos interiores domésticos.
Então, Szor, que tem crédito como diretora de fotografia a solo, filma Tel Aviv do mesmo jeito. Sua câmara considera a cidade tal como os aniquiladores de Gaza consideram o seu alvo. A linguagem de vigilância é invertida num gesto claro e cristalino, quase clínico e tão frio como as palavras que saem da boca destas duas dúzias de informadores anonimizados. E por aqui chegamos à reta final desta análise com essa mesma questão – o anonimato. Apesar de ser uma convenção jornalística, é correto conceder esse privilégio a criminosos de guerra que deveriam ser julgados por tribunais internacionais?
Lanzmann recusou-se, de forma famosa, a anonimizar os nazis que entrevistou e chegou a filmar alguns deles à socapa. Seria violar a ética jornalística? Ou será a forma atual de “NAZA” uma violação de obrigações humanitárias por parte dos cineastas? Também há o dilema da centralização absoluta da perspetiva israelita, ao ponto de que Gaza se torna numa abstração até aos momentos finais cuja inclusão pode resvalar um pouco no mau gosto, forçando um murro no estômago ao fazer espetáculo de um pai à procura dos filhos no que resta de um quarteirão reduzido a escombros e terra queimada. É isto dar visibilidade ao povo de Gaza ou uma forma de puxar a lágrima e induzir uma qualquer catarse depois de só vermos Tel Aviv, Tel Aviv, Tel Aviv.
Argumenta-se que é através deste mesmo foco, deliberadamente míope, que Szor e Abraham exploram a hipocrisia latente no engenho bélico da sua nação e em toda a sua cultura nacionalista. Mas artistas da Palestina manifestam-se contra essas mesmas justificações, vendo nos aplausos em Veneza e tudo o mais, outra celebração do dissidente sionista acima da humanidade que vai sendo progressivamente apagada do povo palestiniano. O cineasta Kamal Aljafari, autor de “With Hasan in Gaza,” é um desses críticos ferozes e é difícil argumentar contra as acusações por ele feitas. Caro leitor, não tenho soluções nem respostas fechadas para estes conflitos.
“NAZA” tem o poder de nos deixar assim, inquietos, refletindo sobre a nossa cumplicidade, além de tudo o mais. Pois não será o silêncio uma forma de apoio ao genocídio? Não será a nossa perceção de impotência uma forma fácil de cair na inação? Enfim, por agora recomendo que vejam esta obra. Que a vejam como apreciação estética do aparelho documental, como procura de informação, ou até como uma posição cética contra as teses da fita — não interessa. O mínimo que podemos fazer é informarmo-nos. E, até nos seus potenciais fracassos enquanto ajuda o movimento pró-Palestina, “NAZA” tem muita informação para partilhar com quem quer que esteja disposto a ver, ouvir e prestar-lhe a devida atenção.
NAZA
Conclusão:
- Não há muitos filmes que sejam essenciais, mas “NAZA”, de Yuval Abraham e Rachel Szor – a quem agora se exige a revogação da cidadania por parte de políticos israelitas – é, porventura, um desses raros casos. Todos deviam testemunhar o que esta equipa, unindo a arte e o jornalismo, revela sobre a industrialização da morte em massa por parte de Israel contra o povo da Palestina. Se “No Other Land” retratava o pesadelo de um sistema sissífio na Cisjordânia, esta obra serve de testemunho ao que está a acontecer em Gaza.
- Contudo, raramente tira os olhos de Telavive, construindo-se como uma perversão da sinfonia da cidade enquanto modelo cinematográfico. Assim se enquadram as entrevistas a 24 delatores dos serviços de inteligência israelitas, todos filmados ou reencenados nas sombras face à metrópole da capital, tão reluzente na sua floresta de aço e vidro, modernidade que se faz passar de oásis ao invés daquilo que é – uma metrópole erguida à força sobre as valas comuns da Nakba de 1948.
- Enquanto objeto jornalístico e instrumento educativo em prol da causa palestiniana, há muitas questões propostas e dúvidas levantadas, inclusive por artistas de Gaza, que contestam o propósito da fita. Contudo, vale profundamente como uma exploração da linguagem visual da vigilância. E também será uma fonte de informação importante, talvez até uma chapada na cara ou um balde de água fria que faça acordar aqueles que se mantêm dormentes na sua ignorância sobre o que Israel está a perpetrar na Faixa de Gaza. E aqui está tudo dito pela própria boca de quem fez a chacina.

