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Em “De Gaulle: Resistência”, o realizador francês Antonin Baudry transforma os primeiros anos da França Livre numa superprodução histórica com guerra, política, diplomacia, humor e um Simon Abkarian colossal. O mais interessante é que filma De Gaulle antes de ele perceber inteiramente que já estava a tornar-se De Gaulle. Vamos ver só a primeira parte, vem aí daqui a dias a segunda: “De Gaulle: Liberdade”, chega às salas portuguesas a 29 de Outubro.

Junho de 1940. A França está a perder a guerra, Pétain prepara o armistício, os alemães avançam e o General de duas estrelas, Charles de Gaulle decide que não concorda com o diagnóstico. Não tem exército digno desse nome, quase não tem território, não tem mandato popular, não controla Paris e nem sequer fala inglês convenientemente. Tem, no entanto, uma ideia fixa: a França não acabou. É desse desequilíbrio entre a realidade e a convicção que Antonin Baudry constrói De Gaulle: Resistência. Não tenta começar pelo monumento, nem pelo Presidente da República, nem pelo fundador da Quinta República. Vai buscar o homem numa altura em que ainda parecia perfeitamente possível que tudo aquilo acabasse mal e que o nome De Gaulle ficasse apenas como nota de rodapé num capítulo sobre a derrota francesa. Foi uma boa escolha. Baudry percebe que o interesse não está em confirmar o mito, mas em observar a sua fabricação. O seu De Gaulle é arrogante, lúcido, irritante, teatral, obstinado e suficientemente convencido da própria razão para continuar mesmo quando quase ninguém lhe dá razão. O actor Simon Abkarian apanha precisamente isso.

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Um actor que não faz de estátua

Abkarian não se limita à voz, à postura ou à silhueta. Essas coisas estão lá, claro, mas são apenas a superfície. O essencial está na maneira como ocupa cada cena, como transforma o desconforto em autoridade e como faz daquele homem enorme uma presença que às vezes parece desajustada ao espaço onde entrou. Quando diz «nós», mesmo quando praticamente só existe ele, percebe-se imediatamente o mecanismo mental da personagem. De Gaulle não está a fingir representar a França. Está convencido de que a representa. Essa convicção poderia facilmente tornar-se cómica. E o filme sabe disso. A relação com Churchill, interpretado por Simon Russell Beale, é um dos melhores exemplos. Os dois homens discutem, desconfiam um do outro, precisam um do outro e comportam-se por vezes como um casal condenado a ficar junto porque divorciar-se durante uma guerra mundial dá demasiado trabalho. O humor não diminui a História. Dá-lhe vida. Benoît Magimel, Niels Schneider, Mathieu Kassovitz, Karim Leklou e Anamaria Vartolomei completam um elenco que evita o pior vício deste tipo de cinema: actores a representar figuras históricas com o peso de quem sabe que já nasceu em bronze.

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Baudry sabe filmar homens a decidir

De Gaulle: Resistência
© Malgosia Abramowska

O percurso do realizador ajuda a perceber o resultado. Antes do cinema, Antonin Baudry passou pela diplomacia. Sob o pseudónimo Abel Lanzac escreveu com Christophe Blain  a novela gráfica, Quai d’Orsay, mais tarde adaptado por Bertrand Tavernier, e em Ameaça em Alto Mar já tinha demonstrado que consegue transformar decisões militares e estratégicas em suspense. Aqui tem material à medida. Reuniões, mapas, ordens, hesitações, alianças, traições, operações militares e discursos são filmados como elementos dramáticos e não como obrigação pedagógica. De Gaulle: Resistência passa de Londres para África, de Dakar para Bir Hakeim, da resistência estudantil às manobras diplomáticas, sem parecer uma sucessão de episódios ilustrativos. E há escala. Aviões, navios, tropas, cidades ocupadas, deserto, uniformes, multidões, explosões. Baudry não disfarça a ambição nem pede desculpa por ela. O cinema europeu passou tantos anos a aprender a fazer grande cinema em pequeno que quase nos esquecemos de que também podia fazer grande cinema em grande. Aqui faz.

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A guerra antes de se transformar em memória

Uma das melhores decisões do filme é não tratar os acontecimentos como inevitáveis. Dakar falha. Os aliados hesitam. Roosevelt desconfia. Churchill apoia e trava ao mesmo tempo. As forças da França Livre são inicialmente modestas. O próprio De Gaulle é visto por muitos como um homem excessivo, estranho e difícil. É precisamente isso que dá tensão ao filme. Nós sabemos onde tudo vai acabar. As personagens, não. A batalha de Bir Hakeim ganha por isso outro peso. Não surge como etapa previsível de uma cronologia gloriosa, mas como momento em que uma ideia política começa finalmente a ganhar consistência militar. A França Livre deixa de parecer apenas um discurso pronunciado por um homem alto junto a um microfone. Passa a existir. Baudry também não limpa demasiado De Gaulle. O seu general manipula, exagera, força situações, irrita aliados e comporta-se frequentemente como se o mundo estivesse atrasado em relação às conclusões a que ele já chegou. Mas é justamente essa mistura de lucidez, vaidade e obstinação que torna a personagem cinematográfica.

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JVM 7/10

De Gaulle: Resistência

Conclusão

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De Gaulle: Resistência funciona porque não confunde respeito com reverência. Antonin Baudry não filma um santo republicano nem um busto de praça pública. Filma um homem em construção, ainda sujeito ao fracasso, ao ridículo e à dúvida dos outros. Simon Abkarian faz o resto. O resultado é um filme histórico musculado, elegante, divertido e muito mais vivo do que o tema fazia temer. E quando termina, ao fim de 159 minutos, não sentimos que estivemos demasiado tempo dentro daquela história. Sentimos que nos mandaram sair cedo demais. De Gaulle: Liberdade chega às salas portuguesas a 29 de Outubro. Desta vez, o intervalo é mesmo irritante.

Overall
7/10
7/10
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Pros

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O melhor: Simon Abkarian, a relação com Churchill, a dimensão da produção e a capacidade de Baudry para transformar estratégia e diplomacia em cinema.

Cons

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O pior: algumas passagens inevitavelmente expositivas e, sobretudo, o facto de a história parar precisamente quando já não queremos que pare.


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