"O Sabor da Vida" | © Cinemundo

O Sabor da Vida, a Crítica | O amor é a melhor iguaria neste filme com Juliette Binoche

Benoît Magimel e Juliette Binoche protagonizam uma história de amor, onde a paixão se faz sentir em termos gastronómicos. “O Sabor da Vida” é um dos melhores e mais deliciosos filmes do ano.

A mais recente obra-prima do cineasta francês de origem vietnamita, Trần Anh Hùng, é conhecida por muitos nomes. Para o mercado português, escolheu-se o título “O Sabor da Vida,” mas não foi assim que o filme primeiro surgiu no Festival de Cannes de 2023. Aí, foi “La Passion de Dodin Bouffant,” demarcando sua ténue ligação a “La vie et la passion de Dodin-Bouffant, gourmet,” que Marcel Rouff escreveu em 1924. Mas, talvez para evitar a confusão do filme não ser realmente uma adaptação literária, escolheu-se “Pot-au-Feu” para o mercado internacional. Só que essa proposta acabou meio rejeitada, com os distribuidores anglófonos a rebatizarem o filme como “The Taste of Things,” que é donde surge a versão portuguesa.

Para dizer a verdade, “Pot-au-Feu” teria sido o nome mais apropriado, pois recorda uma das sequências mais belas da fita sem cair nas poéticas fáceis dos outros títulos. Contudo, esta dificuldade em nomear a produção evidencia algo muito interessante sobre a mesma, uma qualquer qualidade escorregadia. É difícil reduzir o filme de Trần Anh Hùng a uma só ideia, até para fins comerciais, sendo que, em certa medida, parece que toda a glória da sensibilidade humana cabe lá dentro, contido numa narrativa incrivelmente simples e estratégia visual com semelhante graça. Afinal, em modos pragmáticos, pouco acontece que não seja cozinhar.

o sabor da vida critica
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A ação decorre em 1889, na casa de campo de um gourmet aristocrático, Dodin Bouffant, que tem em ao seu dispor os talentos de Eugénie, sua cozinheira. Descobrimo-los num dia atarefado, horas passadas na cozinha a preparar uma refeição a ser apreciada pelo senhor e seus amigos, uma confraria de homens unidos pelas paixões gastronómicas. Longe de evidenciarem a hierarquia social de uma serva e seu patrão, Eugénie e Dodin trabalham como iguais, cada gesto uma denúncia da intimidade que há décadas floresce entre os dois. Em jeito muito rude, poderíamos até dizer que a câmara perceciona o seu lavoro culinário como se de uma cena de amor se tratasse, a cozinha em metáfora do sexo.

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Entre os dois amantes mestres gastronómicos, suas aprendizas e o olhar de Trần Anh Hùng, esta sequência é ambrósia cinematográfica. Não há música para distrair o espetador, sendo os sons do trabalho o único acompanhamento sónico. Mas há uma natureza quase melódica neles, no modo como óleo ferve e vapor se libera de panelas quentes, o impacto da faca na madeira, o crepitar do fogo em harmonia com a respiração de quem cozinha. Visualmente, privilegiam-se takes longos, muitas vezes moldados por jump cuts que, apesar do sobressalto, nunca quebram a elegância do gesto. Por um lado, denota-se o gosto pela tradição no cenário de época e romantismo. Por outro, há algo radical na abordagem do realizador.

É como se ele estivesse a depurar os elementos textuais, fervendo-os num caldo formalista até daí surgir um cinema sensual com o poder de inebriar o espetador. “O Sabor da Vida” é um orgasmo de duas horas onde os prazeres epicúrios são indissociáveis da narrativa humana. Olha-se o passado, o classicismo do cinema francês e suas muitas tradições, para iluminar um futuro onde o despertar dos sentidos se torna no propósito maior da sétima arte. Além de tudo mais, o que se vê é belo até mais não, com a fotografia de Jonathan Ricquebourg sempre pronta a tornar o naturalismo da cena numa pintura viva.




Brilha o cobre da cozinha e o fogo crispante cujo beijo transforma os ingredientes. Vem o sol da manhã que, à medida que se prepara a refeição, se converte na luz doirada do entardecer. As nuvens emanantes da água em ebulição traçam rasgos de teatralidade no palco culinário, como molduras diáfanas em torno de corpos cansados e faces perspiradas. Quase sentimos o calor na pele, e cheiramos os aromas apetitosos sempre a sair daquele templo da comida e seus prazeres. Atente-se que todo este palavreado só descreve a primeira sequência do filme. “O Sabor da Vida” é uma refeição completa e há muito mais para apreciar depois do aperitivo.

O erotismo da cozinha marca presença noutras cenas, muito mais óbvias, mas não por isso menos apaixonantes. Pensemos na encenação de uma prova coletiva, com a mise-en-scène descaradamente sugerindo a masturbação dos gourmets. Ou a comparação implícita entre uma pera bêbeda e as costas desnudas de Eugénie. Tanto amor trespassa essa sensualidade, até que nos apercebemos que, casados ou não, os dois protagonistas há muito transcenderam a cumplicidade do matrimónio. Por isso, a possibilidade desse elo oficial parece quase desnecessário, uma formalidade que Eugénie e o espetador veem como ocas perante a ligação estabelecida entre os dois génios da cozinha.

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Só que não há como negar a convicção de Dodin, sua vontade de tomar a amante como esposa através de um jantar privado que ele mesmo prepara para ela. Não revelaremos mais, mas fica a ideia de que a história se envereda por estruturas trágicas, tão típicas dos estilos literários a que o cineasta foi buscar o nome do seu herói apaixonado. Mesmo nesse pranto, a leveza da obra mantém-se, a impermanência da vida como algo natural que só torna os prazeres do dia-a-dia mais preciosos. Assim surge o humanismo da história e do engenho cinematográfico, a sobremesa final que faz da última cena um murro no estômago, tão comovente quanto doce para o paladar.

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Já muito se disse aqui sobre o formalismo impecável da obra, mas esse não é único elemento merecedor de aplausos. Trần Anh Hùng ganhou o Prémio para Melhor Realizador em Cannes, uma honra merecida que, no entanto, podia ter sido facilmente trocada por algum troféu para seus atores. Magimel e Binoche, ex-namorados que não se falavam há décadas antes de fazerem este filme, dão tudo o que têm ao “Sabor da Vida,” rendendo-se à sua sinceridade narrativa, seu gosto pela carnalidade sublimada e a fragilidade do nosso ser. O seu trabalho é tão terno como o filme que o contém, tão belo e tão imersivo nas paixões suscitadas dentro do coração de cada espetador.

No fim de tudo, escusado será dizer que “O Sabor da Vida” é um milagre, uma verdadeira obra-prima. Infelizmente, também é vítima de grande injustiça e subsequente infâmia. Acontece que o comité de seleção dos Óscares em França se dividiu no voto. Alguns dos entendidos queriam candidatar “Anatomia de Uma Queda” como representante da nação, mas o filme de Trần Anh Hùng saiu vitorioso por um voto. Perante esta surpreendente seleção, Justine Triet, realizadora Oscarizada da outra fita, ficou no centro de uma polémica, com muitos a dizerem que ela havia sido prejudicada por pressões políticas depois de ter criticado o Governo de Macron no discurso da Palme d’Or.

Seguiu-se toda uma narrativa de manchetes chamativas e acusações de todos os lados. “O Sabor da Vida” tornou-se num bode expiatório, quase como um símbolo de repressão dentro da indústria cinematográfica francesa. Quando “Anatomia de uma Queda” foi nomeado para vários Óscares e França não figurou na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com o romance gastronómico, houve quase a sensação de que “O Sabor da Vida” estava a ser castigado. Isso repetiu-se em premiações nacionais como os Lumière e os César, onde Trần Anh Hùng viu a obra reduzida a honras técnicas, excluído dos prémios principais que tanto devia ganhar. Enfim, não deixem que esses dramas manchem a vossa perceção deste apaixonante projeto. Trata-se de um festim cinematográfico sem comparação.

O Sabor da Vida, a Crítica

Date published: 9 de May de 2024

Duration: 135 min.

Director(s): Trần Anh Hùng

Actor(s): Benoît Magimel, Juliette Binoche, Bonnie Chagneau-Ravoire, Galatéa Bellugi, Emmanuel Salinger, Patrick d'Assumção, Jan Hammenecker, Frédéric Fisbach, Jean-Marc Roulot, Yannik Landrein, Sarah Adler, Mhamed Arezki

Genre: Drama, História, Romance, 2023

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Em jeito de refeição gourmet, “O Sabor da Vida” oferece uma variedade de pratos onde o formalismo e a ternura se misturam para atiçar o paladar, o corpo, a alma do espetador. Magimel e Binoche, duas das maiores estrelas do cinema francês moderno, entregam-se aos papéis e fazem-nos sentir o seu amor, enquanto o realizador Trần Anh Hùng mostra ser um dos grandes artistas do momento.

O MELHOR: A realização sensualista, o trabalho de câmara e aquele amor que reluz no olhar intenso de Dodin Bouffant.

O PIOR: Nada a apontar.

CA

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