© Cinemundo

Veneza, Telluride, Toronto e San Sebastián fecharam a grande época dos festivais de Outono, Cannes e Berlim já tinham feito as primeiras voltas e a corrida aos Óscares começa finalmente a parecer uma corrida. Christopher Nolan parte da frente com A Odisseia, Julianne Moore, Andrew Scott e John Malkovich aquecem pneus nas interpretações, A Bola Negra ameaça furar o pelotão americano e, nas boxes, ainda se ouvem motores de filmes que ninguém viu.

A temporada dos prémios tem qualquer coisa de semelhante à Fórmula 1, só que com menos ultrapassagens e muito mais relações públicas. Primeiro vêm os testes privados, depois os festivais, os jornalistas decidem quem “ganhou” Veneza ou Toronto, os publicistas distribuem gasolina premium e, em Janeiro, meia Hollywood garante que sempre soube quem ia vencer. Neste princípio de Outubro, a realidade é menos elegante: a grelha está formada, mas ainda faltam carros ou melhor filmes para estrear. E o mais curioso é que o homem em pole position nem precisou de passar por um festival.

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Nolan já arrancou

A Odisseia
© Melinda Sue Gordon / © Universal Studios

A Odisseia, de Christopher Nolan, estreou em Julho, levou multidões às salas, nem sequer precisou de passar por nenhum festival e chega com o pacote completo: escala, prestígio, dinheiro, técnica e um realizador que a Academia finalmente aprendeu a amar. Depois de Oppenheimer, Nolan já não corre para provar que merece o Oscar; corre para saber se consegue repetir a façanha. Melhor Filme, Realização e uma longa fila de categorias técnicas parecem lugares naturais na grelha ou nas possíveis nomeações. Quando Homero se transforma num blockbuster mundial e conserva o selo de “cinema sério”, os adversários começam a olhar para o retrovisor.

Cannes deixou dois carros bem afinados. Fjord, de Cristian Mungiu, saiu com a Palma de Ouro e continua forte no Oscar internacional, embora a recepção posterior tenha revelado divisões capazes de travar as categorias principais. Mais perigosa parece ser A Bola Negra, da dupla espanhola Javier Ambrossi e Javier Calvo: ambiciosa, emocional, atravessando épocas e identidades, com Penélope Cruz e uma Netflix pronta para fazer campanha a sério. Em Portugal estreia a 5 de Novembro. Berlim, por seu lado, deixou Rose, de Markus Schleinzer, com Sandra Hüller a ganhar o Urso de Prata e a entrar discretamente na corrida de Melhor Actriz.

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Veneza meteu os actores a fundo

Woman Unknown - Vencedor Festival de Veneza
© Nordisk Film Production

Veneza não encontrou um novo Oppenheimer, mas produziu fortes candidatos. Woman Unknown, de May el-Toukhy, ganhou o Leão de Ouro e deu a Mathilde Arcel a Copa Volpi de Melhor Interpretação Feminina; Possible Love, de Lee Chang-dong, conquistou o Grande Prémio do Júri e é a escolha da Coreia do Sul para o Oscar internacional. Porém, o nome que saiu do Lido com o motor mais barulhento foi John Malkovich. A vitória por Cavalo Selvagem Nove, de Martin McDonagh, criou uma narrativa irresistível: grande actor, duas nomeações antigas, zero estatuetas, 72 anos e um papel suficientemente vistoso para a Academia corrigir quatro décadas de atraso em considerá-lo. O filme estreia em Portugal a 12 de Novembro.

Telluride e Toronto fizeram o resto. Andrew Scott apareceu em Elsinore como Ian Charleson, o actor de Momentos de Glória que enfrentou a sida enquanto preparava Hamlet, e saltou para a primeira fila de Melhor Actor. Jesse Eisenberg levou A Grande Estreia aos festivais e Julianne Moore transformou uma comédia de teatro amador numa campanha de Melhor Actriz quase instantânea; Paul Giamatti vem logo atrás nas nomeações para secundários. O filme estreia em Portugal a 21 de Janeiro.

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San Sebastián também quer lugar na grelha

Tender Loving Care - Festival de San Sebastián
© Courtesy of TIFF

San Sebastián lembrou que Mike Leigh continua muito longe de ser peça de museu. Tender Loving Care ganhou a Concha de Ouro, o prémio de argumento e a Concha de Prata para Kate O’Flynn, ex aequo. A Academia tem tratado Leigh com frieza nos últimos anos, mas uma possível despedida de carreira, somada a três prémios em Donostia, é precisamente o tipo de narrativa que começa como homenagem e pode acabar numa nomeação.

Depois surgem os carros que ninguém esperava ver tão perto da frente. Obsession — A Felicidade É Relativa transformou o terror de baixo orçamento num fenómeno comercial e lançou Inde Navarrette para a conversa de Melhor Actriz, com a Focus a montar uma campanha em todas as categorias. Já Digger, de Alejandro G. Iñárritu, mostrou como uma corrida muda numa semana: Tom Cruise entrou em pista como candidato fortíssimo, o filme dividiu a crítica e abriu mal nas bilheteiras. Cruise ainda pode sobreviver pela interpretação e John Goodman continua a parecer uma aposta séria para secundário, mas o carro perdeu aderência logo na primeira curva.

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Ainda falta sair muito carro das boxes

O Veredito Social Mikey Madison
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O erro seria declarar a corrida fechada. O terceiro Dune, O Veredicto Social, o novo filme de Aaron Sorkin que estreia já esta semana, Werwulf, de Robert Eggers, e outros títulos guardados para Novembro e Dezembro podem baralhar tudo. Alguns vão avariar antes do Natal; um ou dois podem chegar e passar pelo pelotão inteiro.

Para já, Nolan tem a pole, A Bola Negra e Fjord comandam a ofensiva internacional, Malkovich, Scott e Julianne Moore aceleram nas interpretações, Mike Leigh regressou sem cerimónia e o terror conseguiu meter um pneu na pista principal. Falta muito campeonato. E nos Óscares, como na Fórmula 1, o carro mais rápido em Outubro pode descobrir em Janeiro que começou a chover ou que apareceu uma campanha com mais dinheiro do que talento.

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JVM


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