Faltam ainda vários meses para a cerimónia dos Óscares 2027. Ainda assim, a temporada de prémios já vai a todo o vapor. Cannes já passou, o Festival de Veneza e Toronto estão a caminho, e uma série de trailers têm deixado a internet em polvorosa. Por isso, começa a dar para entender como se desenhará a corrida a Melhor Filme.
Se há um nome que ninguém questiona é o de Christopher Nolan. Segundo as odds mais recentes do GoldDerby para a categoria de Melhor Filme, “A Odisseia” segue isolada na frente da corrida. A vantagem é tão expressiva que praticamente todos os analistas já a dão como garantida entre os nomeados. Mas um favorito isolado não significa uma corrida vazia ou facilitada. Pelo contrário: com Nolan na frente, a conversa começa agora a virar-se para os filmes que lhe podem fazer frente e disputar o resto das vagas de Melhor Filme.
Atualmente, estes são os nove nomes que vale a pena manter debaixo de olho:
1. La Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi

Se há um filme com hipóteses reais de incomodar “A Odisseia”, esse é “La Bola Negra”. O filme é realizado pela dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi (Los Javis). Atravessa quase um século de história espanhola, entrelaçando as vidas de três homens na Espanha republicana de 1932, na Guerra Civil de 1937 e na Espanha contemporânea. O argumento parte de um fragmento inacabado do poeta Federico García Lorca, adaptado também da peça “La Piedra Oscura”, do mesmo autor.
O elenco é liderado pelo músico Guitarricadelafuente, na sua estreia como ator, e por Miguel Bernardeau. Junta-se ainda Penélope Cruz, Lola Dueñas e Glenn Close. Em Cannes, o filme recebeu uma das ovações mais longas do festival e Los Javis venceram o prémio de Melhor Realização, ainda que a Palme d’Or tenha acabado por ir para “Fjord”. Foi precisamente esse impacto que desencadeou uma guerra de licitações pelos direitos norte-americanos, vencida pela Netflix.
A plataforma nunca conseguiu o Óscar de Melhor Filme, apesar de apostas fortes como “Roma” ou “O Poder do Cão”. Por isso, está agora a dar a “La Bola Negra” a maior janela de exibição em sala da sua história: 47 dias entre a estreia nos cinemas americanos e a chegada ao streaming. É um sinal claro de que a Netflix vê aqui a sua melhor oportunidade até hoje. Para além de Melhor Filme, o projeto surge bem posicionado em Realização, Filme Internacional, e nas categorias de representação, com Guitarricadelafuente e Penélope Cruz ou Lola Dueñas como possíveis nomeados.
2. Obsession – A Felicidade é Relativa, de Curry Barker

O filme que ninguém viu chegar é “Obsession”. Trata-se de um terror psicológico de baixo orçamento (750 mil dólares). Ainda assim, tornou-se o fenómeno comercial mais improvável do ano, num percurso que os analistas já comparam ao de “E.T.” em 1982. A Focus Features pagou 15 milhões de dólares pelos direitos em Toronto. Desde então, o filme já ultrapassou os 470 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais.
O motor da conversa nos Óscares é Inde Navarrette, que interpreta Nikki. A personagem começa como uma paixão platónica, mas transforma-se numa figura bem mais perigosa do que aparenta. Por isso, a aposta da Focus deverá ser posicioná-la em Melhor Atriz, com uma narrativa de “estrela em ascensão”. Além de Atriz e de Melhor Filme, o filme tem hipóteses reais em Argumento Original e Casting. Já a vaga de Melhor Realizador para Curry Barker é mais difícil, uma vez que a categoria tende a ser resistente a estreantes, mesmo depois de sucessos comerciais evidentes.
3. Wild Horse Nine, de Martin McDonagh
Depois de “Três Cartazes à Beira da Estrada” e “Os Banshees de Inisherin”, Martin McDonagh regressa com “Wild Horse Nine”. É um drama passado nos dias que antecederam o golpe militar chileno de 1973. A história segue dois agentes da CIA, interpretados por John Malkovich e Sam Rockwell. Ambos são enviados de Santiago à Ilha de Páscoa pelo seu chefe de secção (Steve Buscemi). Ali, acabam envolvidos numa teia de conspirações e num passado comum por resolver.
O currículo recente de McDonagh só alimenta as expectativas. “Três Cartazes” valeu-lhe sete nomeações e as vitórias de Sam Rockwell e Frances McDormand. Já “Os Banshees de Inisherin” somou nove nomeações. Rockwell volta a estar em grande destaque, enquanto Malkovich entrega uma interpretação que se antevê ser uma das mais elogiadas da temporada. Por isso, “Wild Horse Nine” surge como um sério candidato nas principais categorias dos Óscares. O filme estreia em Veneza e depois passa por Telluride e Toronto, traçando assim mais um forte percurso de McDonagh pelos festivais.
4. Project Hail Mary, de Phil Lord e Christopher Miller

“Project Hail Mary” é a adaptação do romance de Andy Weir, o mesmo autor de “The Martian”. Segue um professor de ciências (Ryan Gosling) que acorda sozinho numa nave espacial, sem memória de como ali chegou. Aos poucos, descobre que a sua missão é impedir a extinção da vida na Terra. O filme teve a maior estreia de março de sempre para um título sem ligação a uma franquia. Além disso, ultrapassou largamente o seu orçamento de produção nas bilheteiras.
Gosling já soma três nomeações ao Óscar. Por isso, é apontado como um nome forte para Melhor Ator. Também a fotografia de Greig Fraser, o mesmo de “Duna” e “The Batman”, tem reunido elogios. Nos prémios intercalares da Astra, o filme já arrecadou o primeiro Melhor Filme da temporada. Gosling e Sandra Hüller ficaram como vice-campeões nas categorias de representação. Porém, a dúvida sobre “Project Hail Mary” é se o sucesso de grandes blockbusters como “A Odisseia” e “Dune: Parte Três” não possa eclipsar a força do filme.
5. Fjord, de Cristian Mungiu

“Fjord” venceu a Palme d’Or em Cannes. É o novo drama de Cristian Mungiu, o realizador romeno de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”. A história acompanha uma família romena de imigrantes evangélicos na Noruega. O seu quotidiano é abalado quando entram em rota de colisão com o sistema social norueguês. Sebastian Stan e Renate Reinsve protagonizam o filme. Em Cannes, dividiu opiniões pela sua carga sociopolítica, mas uniu o júri presidido por Park Chan-wook o suficiente para lhe entregar o prémio maior do festival.
Trata-se do segundo Palme d’Or da carreira de Mungiu. É um feito raro, que o coloca ao lado de um grupo restrito de cineastas. Nos últimos anos, a Academia tem dado particular atenção aos filmes mais barulhentos do festival. Por isso, “Fjord” surge como o favorito inicial para essa posição. Porém, “All of a Sudden” pode mesmo acabar por lhe roubar o lugar.
6. O Convite, de Olivia Wilde

Depois de “Não Te Preocupes, Querida”, Olivia Wilde regressa à realização e à representação com “O Convite”. É a comédia da A24 sobre um jantar tenso entre um casal em crise (a própria Wilde e Seth Rogen) e os seus enigmáticos vizinhos (Edward Norton e Penélope Cruz). O filme vem de Sundance, onde a A24 pagou 12 milhões de dólares pelos direitos. Desde então, já arrecadou mais de 48 milhões nas bilheteiras e tem uma resposta muito forte da crítica e do público.
O argumento adaptado, de Will McCormack e Rashida Jones, é apontado como o trunfo mais forte do projeto, mas a grande questão em aberto é se Wilde consegue furar a concorrida corrida a Melhor Realizador. A cineasta tem ainda a chance de se tornar a primeira mulher a ser nomeada simultaneamente para Melhor Atriz e Melhor Realizadora pelo mesmo filme.
7. Digger, de Alejandro G. Iñárritu

Tom Cruise já foi nomeado quatro vezes, mas nunca venceu um Óscar competitivo. Por isso, “Digger” pode ser finalmente o papel certo. Nele, Cruise interpreta Digger Rockwell, “o homem mais poderoso do mundo”. É uma personagem irreconhecível, careca e com sotaque sulista. Depois de o seu império desencadear uma catástrofe ecológica, embarca numa missão desesperada para se apresentar como salvador da humanidade.
Trata-se ainda da primeira colaboração entre Cruise e Alejandro G. Iñárritu, realizador vencedor do Óscar por “Birdman” e “The Revenant: O Renascido”. O elenco de apoio inclui Sandra Hüller, John Goodman, Jesse Plemons e Riz Ahmed. Já o tom satírico do trailer convida a comparações com “Dr. Estranhoamor” e “Não Olhem para Cima”. Espera-se que o filme salte a temporada dos festivais, o que deixa em aberto a dúvida sobre o quão acessível será junto do público.
8. Being Heumann, de Sian Heder

Depois de “CODA”, vencedor de Melhor Filme, Sian Heder regressa com “Being Heumann”. É a biografia da ativista dos direitos das pessoas com deficiência Judy Heumann. O filme abre o Festival de Toronto este ano. Recria a ocupação de 28 dias do edifício federal de São Francisco em 1977, uma das ações mais marcantes da luta pela acessibilidade nos Estados Unidos. Ruth Madeley interpreta Heumann. Mark Ruffalo faz o secretário de Estado que inicialmente resistia à legislação.
O historial de Heder com a Academia dá força ao filme. Some-se a isso a urgência temática da história. Por tudo isto, “Being Heumann” é um dos nomes a observar de perto assim que arrancar a temporada de festivais de outono. Além disso, trata-se de um candidato da Apple TV, a mesma responsável pelo feito de “CODA”, o que também merece atenção. Este tipo de obras tem ainda potencial para arrecadar o People’s Choice Award, prémio com forte ligação aos Óscares.
9. Dune: Parte Três, de Denis Villeneuve

A saga de Denis Villeneuve chega ao fim com “Dune: Parte Três”. É a adaptação de “Dune Messiah” e dá um salto temporal na história. Mostra Paul Atreides (Timothée Chalamet) já como imperador, obrigado a enfrentar as consequências do seu próprio reinado. Zendaya, Rebecca Ferguson, Javier Bardem, Jason Momoa, Robert Pattinson e Anya Taylor-Joy completam o elenco.
As duas primeiras partes somaram mais de mil milhões de dólares em bilheteira mundial. Renderam ainda dezenas de nomeações nas categorias técnicas. A estreia está marcada para dezembro, mesmo no coração da temporada de prémios. Por isso, “Dune: Parte Três” surge como um dos nomes mais sólidos para repetir esse historial, sobretudo em Fotografia, Banda Sonora e Efeitos Visuais. Ainda assim, a fasquia para repetir uma nomeação a Melhor Filme está agora mais alta.
E que mais filmes vale a pena considerar?

Além destes nomes já bem debatidos, há um conjunto de títulos que podem ainda mudar a conversa nos próximos meses. “Behemoth!”, de Tony Gilroy, tem Pedro Pascal no papel de um violoncelista. A banda sonora está a cargo de vários compositores. O filme estreia no prestigiado NYFF.
Já “The Debut” terá estreia em Telluride. Trata-se de uma comédia de Jesse Eisenberg, com Julianne Moore e Paul Giamatti. Segue a transformação de uma dona de casa tímida numa atriz obcecada, depois de entrar para um grupo de teatro comunitário.
Em Veneza, “Primetime” traz Robert Pattinson no papel do apresentador Chris Hansen. O filme revisita a polémica série “To Catch a Predator”. Por sua vez, Toronto tem outro candidato forte: “Misty Green”, da A24, realizado por Chris Rock. Rosalind Eleazar interpreta uma atriz outrora premiada que tenta reerguer a carreira.
Quanto aos filmes já vistos, “All of a Sudden” continua a ser um dos mais elogiados do ano. É o novo drama do vencedor do Óscar Ryûsuke Hamaguchi. Além disso, a sua passagem pelos festivais de outono pode reforçar a sua posição como o grande favorito de Cannes.</p>

