Em “Digger”, o mexicano Alejandro G. Iñárritu pega na estrela que passou décadas a salvar o mundo, envelhece-a à força, entrega-lhe uma petrolífera e pergunta o que acontece quando Ethan Hunt deixa de ter uma missão e passa a ter uma catástrofe nas mãos.
Tom Cruise passou quarenta anos a fazer-nos acreditar que o corpo humano, desde que suficientemente teimoso, podia vencer a gravidade, os helicópteros, as bombas nucleares e até a idade. Em Digger, Alejandro G. Iñárritu decide estragar-lhe a festa. Dá-lhe barriga, papada, cabelo ralo, sotaque texano e uma personagem que não precisa de correr porque tem dinheiro suficiente para mandar os outros fazê-lo por ele.
Digger Rockwell é um magnata do petróleo, herdeiro de uma fortuna familiar construída literalmente a partir de uma pá, criatura feita de poder, arrogância e absoluta convicção de que o mundo existe para ser explorado. Vive rodeado de troféus de caça e de uma gata quase tão acabada como o planeta que ajudou a estragar. Quando uma fuga de metano numa plataforma no Árctico provoca uma explosão e solta uma gigantesca massa de gelo em direcção ao Norte da Europa, aquilo que começa como acidente industrial transforma-se rapidamente num ensaio sobre capitalismo, irresponsabilidade e a velha arte de passar a culpa ao vizinho.
Iñárritu não conhece a palavra contenção. Nunca conheceu. Digger tem alguma coisa de Doutor Estranhoamor, bastante de Escândalo na TV, um pouco de Não Olhem Para Cima e aquela tendência muito própria do realizador para transformar uma ideia em acontecimento visual. Tudo é grande: os cenários, os discursos, as metáforas, os gritos, os egos e, naturalmente, a dimensão da desgraça.
O problema é que Stanley Kubrick (Doutor Estranhoamor), precisava de meia dúzia de gestos para desmontar a loucura do poder. Iñárritu prefere duzentas pessoas, uma sala gigantesca, uma banda sonora, um discurso inflamado e, se ainda não percebemos, provavelmente um icebergue.
Tom Cruise finalmente representa
Mas o que torna Digger verdadeiramente curioso não é a sátira climática. É Tom Cruise. Durante anos, Cruise transformou o próprio corpo numa marca industrial. Saltou de prédios, pilotou aviões, agarrou-se a fuselagens e caiu de precipícios para provar que uma estrela de cinema podia continuar a ser a mesma estrela de cinema para sempre. Aqui, finalmente, aceita perder o controlo da imagem. Digger é vaidoso, ridículo, barulhento, desagradável e fisicamente pesado. Não é Ethan Hunt envelhecido. É quase o anti-Ethan Hunt. Cruise grita muito, é verdade. Rosna, gesticula, ameaça e ocupa cada divisão como se tivesse comprado o edifício na véspera. Mas também volta a fazer uma coisa que quase tínhamos esquecido: representar uma personagem, em vez de representar Tom Cruise a cumprir uma missão. Não chega ao nível de Magnólia, Nascido a 4 de Julho, De Olhos Bem Fechados ou Colateral, mas há qualquer coisa de libertador em vê-lo aceitar o grotesco. A barriga é falsa. A idade, infelizmente para ele, não. À sua volta, John Goodman transforma o Presidente dos Estados Unidos numa caricatura suficientemente reconhecível para não precisar de legenda, Michael Stuhlbarg faz de vice-presidente com vocação para peça de mobiliário e Riz Ahmed assume o papel ingrato do único homem aparentemente racional numa sala cheia de gente que prefere discutir responsabilidades a impedir a catástrofe. Sandra Hüller, como meia-irmã de Digger, merecia bastante mais espaço. Há ali uma personagem que poderia ter acrescentado contradição, conflito e até alguma espessura emocional ao filme, mas Iñárritu está demasiado ocupado a preparar o próximo grande gesto.
O mundo exige, Digger fornece

O melhor momento chega quando Digger enfrenta uma assembleia internacional e lança a sua defesa do petróleo. Toda a gente condena os combustíveis fósseis, explica ele, mas ninguém quer abdicar dos carros, das viagens, dos aviões, do conforto, das entregas rápidas ou do ar condicionado. «Vocês exigem, eu forneço.» É uma frase brutal precisamente porque não é inteiramente falsa. E talvez seja aí que a sátira encontra finalmente alguma coisa mais interessante do que o simples vilão bilionário. Porque é muito fácil amaldiçoar o magnata petrolífero. Mais difícil é reconhecer a pequena parcela de Digger que existe em todos nós quando o litro da gasolina sobe cinco cêntimos. Visualmente, Digger é outra história. Emmanuel Lubezki fotografa o filme como se o fim do mundo tivesse contratado um grande arquitecto. Dennis Gassner e Richard Johnson transformam salas, cortinas, plataformas e espaços políticos num enorme palco em movimento. Há Fellini, Brecht e ecos de Roy Andersson, tudo atravessado pela habitual ambição de Iñárritu de fazer cada plano parecer importante. O resultado é excessivo, irregular, irritante e, muitas vezes, fascinante. Talvez Digger não seja o Doutor Estranhoamor da crise climática. Talvez Tom Cruise também não tenha encontrado aqui o grande papel dramático da maturidade. Mas é bastante mais interessante vê-lo envelhecer, engordar artificialmente e ajudar a destruir o planeta do que vê-lo outra vez pendurado num avião. E quando, no final, ouvimos Melanie cantar What Have They Done to My Song, Ma, percebemos que talvez a melhor resposta ao filme estivesse guardada para o genérico. Desta vez, convém ficar sentado.
JVM 6/10
Digger
Conclusão
Digger é daqueles filmes que nos deixam a discutir connosco próprios à saída da sala. É demasiado grande, demasiado barulhento, demasiado convencido da importância do que tem para dizer e, ao mesmo tempo, demasiado estranho para ser descartado com facilidade. Iñárritu falha quando explica em excesso, mas acerta quando deixa as imagens respirar, quando transforma o poder num palco e, sobretudo, quando percebe que a maior novidade não é o apocalipse climático: é ver Tom Cruise, finalmente, deixar de fugir da idade. Não é Doutor Estranhoamor, nem precisava de tentar tanto sê-lo. Mas há qualquer coisa de estimulante num filme que prefere correr o risco de falhar em grande a acertar em pequeno. E Tom Cruise, com barriga, papada, cabelo ralo e um ego do tamanho do Árctico, acaba por ser a melhor razão para embarcar nesta catástrofe. Nem tudo funciona, mas quase tudo provoca.
Overall
6/10User Review
( votes)Pros
O Melhor: Tom Cruise a aceitar desmontar a própria imagem de estrela de acção e a entregar-se a uma personagem grotesca, excessiva e fisicamente vulnerável. E também o trabalho visual de Emmanuel Lubezki, Dennis Gassner e Richard Johnson, que transforma Digger num espectáculo simultaneamente cinematográfico e teatral.
Cons
O Pior: A falta de contenção de Iñárritu. Quando a sátira já fez o seu trabalho, o filme insiste em explicá-la outra vez, mais alto, com mais diálogos, mais música, mais gritos e mais metáforas. Às vezes bastava confiar no espectador.


