Em “O Veredito Social”, Aaron Sorkin regressa ao universo de “A Rede Social” para transformar o escândalo dos Facebook Files num thriller sobre jornalismo, poder e manipulação digital. Mikey Madison, Jeremy Allen White e Jeremy Strong protagonizam uma história verdadeira sobre os segredos de um império que descobriu como transformar as nossas emoções em dinheiro. Um filme oportuno, inteligente e perturbador, mesmo quando as palavras correm mais depressa do que as imagens. Chegou esta quinta às salas de cinema.
Mark Zuckerberg não inventou a estupidez humana, a intolerância política, as teorias da conspiração ou o prazer de insultar desconhecidos. Inventou, isso sim, uma plataforma capaz de transformar boa parte desses comportamentos num negócio extraordinariamente rentável. O que começou por ser uma maneira de encontrar antigos colegas, partilhar fotografias e coleccionar amigos virtuais acabou por transformar-se num gigantesco laboratório de comportamento humano, onde somos simultaneamente participantes, cobaias e consumidores. E, o mais extraordinário, voluntariamente.
É sobre esta transformação que Aaron Sorkin constrói “O Veredito Social”, dezasseis anos depois de ter escrito “A Rede Social”, o extraordinário filme de David Fincher sobre a criação do Facebook. Agora, assumindo também a realização, Sorkin abandona o mito do jovem génio informático para examinar as consequências políticas, económicas e sociais da sua invenção. A questão deixou de ser como Zuckerberg conseguiu conquistar milhões de utilizadores. Interessa sobretudo perceber o que aconteceu quando esses milhões se transformaram em milhares de milhões e alguém descobriu que a nossa atenção podia ser comprada, vendida e manipulada.
O Escândalo Estava Dentro dos Computadores
Inspirado na investigação The Facebook Files, publicada pelo The Wall Street Journal em 2021, o filme acompanha Frances Haugen (Mikey Madison), uma engenheira informática que decide denunciar determinadas práticas da empresa, e Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), o jornalista que ajuda a transformar documentos confidenciais numa investigação de enorme repercussão internacional. O material revelava que o Facebook conhecia diversos riscos associados ao funcionamento das suas plataformas, incluindo efeitos prejudiciais sobre adolescentes, circulação de desinformação e amplificação de conteúdos extremistas.
Sorkin encontra aqui o seu território favorito: indivíduos competentes que enfrentam instituições poderosas, discussões sobre responsabilidade moral e uma batalha aparentemente desigual entre a verdade e o dinheiro. Não existem perseguições automóveis nem assassinos profissionais. As armas são documentos, testemunhos, números e decisões editoriais. O suspense nasce da possibilidade de uma informação ser divulgada, escondida ou desmentida por uma máquina empresarial dotada de recursos praticamente ilimitados.
E depois chegam os diálogos. Torrenciais, vertiginosos, brilhantes e ocasionalmente exasperantes. As personagens discutem algoritmos, procedimentos internos, publicidade política, sistemas de recomendação e métricas de participação com uma rapidez que quase exige mais do que legendas mesmo para espectadores que já falam inglês. Sorkin escreve como quem dispara uma metralhadora de palavras. A linguagem tecnológica, aparentemente impenetrável, transforma-se numa sucessão de confrontos verbais em que cada explicação constitui uma descoberta e cada pergunta pode desencadear uma crise.
O Óscar de Mikey Madison e a Redenção do Jornalismo

Depois de conquistar o Óscar com “Anora”, Mikey Madison revela novamente uma impressionante capacidade de transformação. A sua Frances Haugen é uma mulher reservada, metódica, consciente dos riscos que corre e muito distante das personagens heroicas habitualmente fabricadas por Hollywood. A actriz constrói a interpretação através de gestos discretos, pequenas hesitações e uma determinação que dispensa discursos grandiosos. Jeremy Allen White, vindo da série “The Bear” (O Urso), introduz a energia oposta: um jornalista inquieto, persistente, permanentemente confrontado com a dificuldade de traduzir mecanismos digitais complexos numa história acessível ao público.
A relação entre ambos constitui o melhor do filme. O jornalismo regressa ao cinema como uma profissão que exige tempo, investigação, verificação e coragem, precisamente numa época em que qualquer cidadão com um telemóvel se considera repórter, comentador político e especialista em assuntos internacionais. Sorkin acredita na imprensa como instrumento de fiscalização democrática. É uma convicção quase antiquada, mas particularmente necessária quando a mentira pode chegar a milhões de pessoas antes de um jornalista conseguir verificar uma única frase.
Jeremy Strong: O Homem Que Comprou o Silêncio

Mark Zuckerberg surge agora interpretado por Jeremy Strong, substituindo Jesse Eisenberg. A diferença entre os dois actores corresponde à própria evolução da personagem. O fundador do Facebook deixou de ser um jovem impaciente, convencido de que todos os outros eram intelectualmente inferiores, para se transformar num bilionário praticamente inacessível, protegido por gabinetes, funcionários, assessores e advogados.
Strong, inesquecível como Kendall Roy em “Succession”, apresenta um Zuckerberg de movimentos rígidos, respostas calculadas e uma inexplicável dificuldade em parecer humano. A interpretação roça por vezes a caricatura, mas possui uma dimensão inquietante: aquele homem dirige uma plataforma que influencia a vida de milhares de milhões de pessoas e parece incapaz de compreender verdadeiramente as emoções que o seu negócio explora.
Curiosamente, Zuckerberg não domina a narrativa. É antes uma presença intermitente, o rosto visível de uma estrutura muito maior. Esta escolha retira algum dinamismo aos confrontos dramáticos, mas permite perceber que o problema ultrapassa largamente um empresário, por muito poderoso que seja. Substituir Zuckerberg amanhã não significaria necessariamente alterar o funcionamento do sistema.
Um Argumentista Genial Não Faz Outro David Fincher

A principal fragilidade de “O Veredito Social” é cinematográfica. Aaron Sorkin escreve magnificamente, mas a sua realização nem sempre encontra soluções visuais à altura das ideias. David Fincher conseguia transformar a criação de uma página na Internet numa experiência cinematográfica hipnótica, combinando montagem, composição visual, música e interpretações numa extraordinária demonstração de precisão narrativa.
Sorkin prefere confiar nos actores e nas palavras. Jeff Cronenweth proporciona-lhe uma fotografia elegante, Alexandre Desplat acompanha a tensão com uma banda sonora eficaz, mas o conjunto nem sempre consegue libertar-se de uma certa aparência televisiva. O argumento avança a uma velocidade impressionante enquanto a câmara parece, por vezes, resignada a observar pessoas sentadas a falar. O cinema também precisa de respirar entre duas frases inteligentes.
O filme ganha outra dimensão quando relaciona a actividade das plataformas digitais com a radicalização política que antecedeu a invasão do Capitólio, em Janeiro de 2021. Sem atribuir ao Facebook a responsabilidade exclusiva pelos acontecimentos, Sorkin examina como os mecanismos de amplificação de conteúdos podem agravar divisões sociais preexistentes. A ausência do nome de Donald Trump é uma opção controversa, sobretudo numa narrativa tão ligada à política norte-americana.
A Democracia Também Está à Venda?
A verdadeira perversidade do sistema é que os algoritmos não precisam de possuir convicções políticas. Precisam apenas de identificar aquilo que provoca mais reacções. Uma notícia rigorosa pode valer menos do que uma mentira escandalosa; uma discussão civilizada interessa menos do que uma polémica capaz de multiplicar comentários. O utilizador acredita que escolhe livremente aquilo que vê, quando uma parte considerável dessa escolha já foi condicionada por mecanismos que desconhece.
Esta é a dimensão mais actual de “O Veredito Social”. A inteligência artificial, os vídeos falsificados, a propaganda personalizada e a concentração do poder informativo em grandes empresas tecnológicas tornaram ainda mais complexas questões que a investigação de 2021 já tinha colocado. Quem decide o que vemos? Quem fiscaliza essas decisões? E como responsabilizar uma empresa quando cada utilizador recebe uma versão diferente do mundo?
Sorkin não apresenta respostas milagrosas. A investigação de Haugen e Horwitz demonstrou a importância do jornalismo, mas não acabou com a desinformação nem transformou radicalmente as plataformas digitais. É precisamente nesta contradição que reside a força política do filme: a denúncia pode ser necessária sem ser suficiente.
“O Veredito Social” é menos sofisticado do que “A Rede Social”, menos surpreendente na linguagem cinematográfica, mas possui uma urgência que dificilmente podemos ignorar. Não exige que abandonemos imediatamente o Facebook, o Instagram ou qualquer outra rede social. Obriga-nos, isso sim, a reconhecer que aquilo que julgamos gratuito tem um preço e que, muitas vezes, somos nós próprios a mercadoria.
No fim, a pergunta mais perturbadora já nem sequer diz respeito a Zuckerberg. Diz respeito a nós, à extraordinária facilidade com que entregamos informações pessoais, preferências, hábitos e emoções a empresas cuja principal obrigação continua a ser gerar lucros. Chamamos-lhe participação, comunicação, liberdade. Os departamentos financeiros chamam-lhe outra coisa.
O Facebook prometeu dar-nos voz. Descobriu entretanto que também podia escolher quem nos ouve, o que nos irrita e durante quanto tempo continuamos a olhar para o ecrã. E conseguiu o impossível: convencer-nos de que somos nós que mandamos.
JVM 6/10
O Veredito Social
Conclusão
“O Veredicto Social” é um thriller jornalístico inteligente, oportuno e perturbador, que confirma o talento de Aaron Sorkin para transformar palavras em suspense. Menos sofisticado do que A Rede Social, mas politicamente mais urgente, denuncia um sistema que transforma as nossas emoções em dinheiro. Zuckerberg criou o império, mas somos nós que continuamos a alimentá-lo. E ainda lhe agradecemos com um like.
Overall
6/10User Review
( votes)Pros
O Melhor: Os diálogos vertiginosos de Aaron Sorkin, as interpretações de Mikey Madison, Jeremy Allen White e Jeremy Strong e a extraordinária actualidade do tema.
Cons
O Pior: Uma realização menos inventiva do que a de David Fincher, alguma saturação de linguagem tecnológica e um Zuckerberg que merecia mais tempo de ecrã.



