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A Ilha dos Amores, em análise

“A Ilha dos Amores”, uma obra de Paulo Rocha, está em destaque nos cinemas nacionais pela mão da Midas Filmes.

UMA ILHA DO TAMANHO DO MUNDO

Recordo como se fosse hoje os primeiros contactos profissionais com o realizador e produtor Paulo Rocha quando, ainda aluno da Escola de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa, fui convidado a integrar a equipa de produção de A ILHA DOS AMORES, 1978-1982. Desde cedo senti, pelo modo como o autor falava do seu projecto, que a rodagem iria ser uma daquelas que se podem considerar a síntese de muitas experiências vividas ou sonhadas, recriação de mil caminhos percorridos que nos conduzem a outros mil por percorrer e ao encontro de mil portas abertas para horizontes geográficos próximos e distantes, mil contextos culturais cuja assimilação se iria realizar passo a passo, dia a dia, a um ritmo que nos permitia integrar com entusiasmo e pormenor de filigrana o que cada membro da equipa podia dar ao filme. Numa palavra, o estado de espírito necessário para avançar com sucesso para o resultado final que se desejava ser o fruto dessa dialéctica pessoal e colectiva. Pelo menos, foi assim que encarei a minha participação e a minha disponibilidade numa produção que, na prática, foi a minha primeira grande longa-metragem enquanto profissional de cinema. Mas as declarações do Paulo Rocha, que por diversas vezes falou do seu modelo de realização, e não apenas em relação ao filme em causa, deram razão ao meu pressentimento. Neste ponto do artigo, porque prometi a mim mesmo não sobrepor o meu ponto de vista ao ponto de vista do realizador, passo mais adiante a palavra ao Paulo Rocha divulgando aqui e agora breves excertos de uma gravação que com ele fiz na altura da produção de O RIO DO OURO, 1998, o outro filme que me aproximou de novo daquele que foi, no plano pessoal, seguramente uma das mais fortes referências no modo como nos primeiros anos da minha carreira partilhei e passei a encarar a arte cinematográfica. Disse-me ele numa espécie de confissão: “Eu sou uma pessoa muito obsessiva, e acho que vou viver eternamente. Por isso não tenho a noção do tempo passar. Eu vou é sedimentando todos os dias. Trabalho muito. No fundo, A ILHA (DOS AMORES) acaba por ser o trabalho de uma dúzia de filmes, um trabalho formal (…) São quase vinte anos de estudar a China, o Japão, de viver essas relações pessoais, e ao mesmo tempo as várias vanguardas europeias. (…) Eu gosto bastante das pessoas e gosto bastante das forças e dos talentos que elas têm. Se eu as conseguir namorar para que me emprestem um pouco as suas forças poéticas e as suas aventuras de momento, de modo a se integrarem numa espécie de grande síntese, eu nisso sou vampiresco. Roubo imenso das pessoas desde que elas entrem em cumplicidade comigo. Também sou capaz de fazer cedências no sentido de reformular a sequência, o projecto. Por isso A ILHA DOS AMORES é uma espécie de longo gráfico das várias tentações e zangas que eu tive com temas chineses, macaístas, japoneses de várias cores e feitios, lisboetas e europeus. Tem a ver com a minha descoberta da música de vanguarda, passei anos a ir aos festivais de música por essa Europa fora, com a colagem, com a poesia do Ezra Pound, ou seja, a ideia de fazer um poema com todas as línguas, o conceito de colagem onde estivessem todas as civilizações”.

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Na verdade, se a referência mais sonante e de certo modo enganadora nos leva para o canto nono do poema épico de Luís de Camões, o argumento da obra fílmica A ILHA DOS AMORES possui na base uma estrutura organizada em cantos, mais precisamente nove, mas essa divisão corresponde não aos cantos de OS LUSÍADAS mas sim ao património intelectual herdado do autor de uma das mais antigas obras da literatura oriental, as NOVE CANÇÕES de Chu Yuan (340 a. C. – 278 a. C.). Este poeta exerceu o cargo de primeiro-ministro numa região e num contexto administrativo que viria, com outros estados, a formar a futura China. Desterrado para o Sul, Chu Yuan recolheu entre as populações primitivas que ali viviam um conjunto de canções xamanísticas que reescreveu de uma forma erudita. Quando Paulo Rocha descobriu esta figura maior da identidade chinesa, assim como a articulação das matérias subjacentes ao poema referido, encontrou nas referidas canções a solução para dar corpo e alma e, como ele disse, a “forma e o fundo” de um projecto que inicialmente seguia um rumo muito mais próximo da narrativa clássica. Durante a sua leitura, estudou as vastas perspectivas que se alinhavam perante a noção prevalecente da viagem dos espíritos que regressam a este mundo para um encontro amoroso, aquilo a que podemos chamar uma, ou mesmo, a viagem xamanística. Paulo Rocha podia agora integrar igualmente matérias similares do Teatro Nô e ainda do livro de Wenceslau de Moraes sobre a Dança dos Mortos: O BON-ODORI EM TOKUSHIMA. Bon-odori é um vocábulo do budismo, mas adaptado para uma cerimónia onde se encontram os princípios guia da cultura japonesa – o budismo, o xintoísmo e o culto dos antepassados. De repente, estavam ali perfilados os ingredientes para a ritualização do eros, o mundo dos mortos e o seu impacto no quotidiano dos vivos a que adicionava aspectos particulares das obras referidas e da poesia camoniana, numa colagem modernista que de um modo ou de outro possuía pontos de encontro com o THE CANTOS, de Ezra Pound, livro que Paulo Rocha andava a ler naquela época, composto por 120 poemas, os referidos CANTOS, que finalmente deveriam constituir a unidade de um único poema.

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Não obstante o realizador privilegiar a construção de um filme mosaico, capaz de encerrar a matéria primordial nos seus longos e belíssimos planos sequência (a coluna dorsal sobre a qual a estrutura geral foi erguida), havia um fio condutor que não afastou o lado mais prosaico, embora reinterpretado, da vida e do percurso existencial do homem, o escritor e oficial da marinha de guerra Wenceslau de Moraes (interpretado no filme por Luís Miguel Cintra). Português, nascido em Lisboa a 30 de Maio de 1854 e falecido em circunstâncias misteriosas no Japão (suicídio, assassínio, acidente?) a 1 de Julho de 1929. No seguimento de uma série de contrariedades pessoais e desiludido com a política nacional, sobretudo a crise gerada pelo Ultimatum Britânico com o controverso episódio do Mapa Cor-de-Rosa, abandonou Portugal para rumar a Macau nos finais do Século XIX. Na cidade do Sul da China viveu com Atchan, a mulher chinesa, e os seus dois filhos. Em Macau estabeleceu laços de amizade com Camilo Pessanha (no filme interpretado pelo próprio Paulo Rocha). Em 1898, cortou os laços com a família chinesa e mudou-se definitivamente para o Japão, onde exerceu numa primeira fase as funções de Cônsul de Portugal em Kobe. Naquele país procurava uma “arte de viver” que o encantara numa primeira e anterior visita. Neste espaço de adopção irá conhecer duas novas mulheres, as japonesas O-Yoné e a sobrinha desta, Ko-Haru. Devastado pela morte da mulher, O-Yoné (no filme interpretada por Yoshito Mita), renunciou ao seu cargo consular e, em 1913, mudou–se para Tokushima, cidade situada na Ilha de Shikoku (Sul do Japão), onde viveu com Ko-Haru (no filme interpretada por Atsuko Murakamo). Esta acabou por morrer, e Wenceslau de Moraes passou os restantes anos da sua vida mergulhado na mais profunda amargura e solidão. Será o escritor a definir o seu estado de alma numa carta enviada ao amigo Dias Branco: “Nada tenho que contar-te da minha pessoa. Vivo de lembranças do passado. Mas o passado parece-me já um sonho, uma coisa que nunca teve realidade. Do futuro não falo, o futuro é para mim a morte e mais nada. Não sofro, faz-me apenas falta uma pessoa amiga, aqui, a meu lado, para eu trocar impressões com ela, eu que sempre vivi para o coração!…” Numa outra carta dirigida em 1920 ao mesmo interlocutor, interroga-se: “Porque me exilei eu? Nem eu bem sei como isto foi, parece que concorreram mil causas para isto e que uma resolução instintiva – talvez demência? – me decidiu a vir viver neste canto. Em todo o caso não quero mudar, quero viver e morrer aqui e exatamente nas mesmas condições que imagina. Ninguém me resolveria a mudar de ideia.”

A Ilha dos Amores
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Em suma, a poética das múltiplas contribuições que moldaram este filme, só na aparência distantes e irreconciliáveis, um poema do Século IV a. C., as idiossincrasias da cultura japonesa e a descoberta de um outro espaço vital para um exílio no Extremo-Oriente que acabou por não ser imposto mas visto como uma libertação das grilhetas do decadentismo português no final do Século XIX, singularmente conjugados com inúmeras outras referências, são motivos mais do que suficientes para ver ou rever, com inegável entusiasmo, os seus 170 minutos. Particular atenção para a acção que decorre no Japão.

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Prova de que até a vida de um filme pode ser singular, A ILHA DO AMORES estreou mundialmente no Festival de Cannes de 1982, e quase dez anos depois em Portugal, em 1991. Regressou ao festival da Côte d’Azur em 2018, integrado na prestigiosa secção CANNES CLASSICS, e foi agora reposto no grande ecrã numa cópia restaurada para a ocasião. Será igualmente editado em DVD, numa edição conjunta da MIDAS FILMES e da CINEMATECA PORTUGUESA, uma edição em que os que a comprarem a preços muito razoáveis poderão usufruir ainda de um outro filme, o documentário A ILHA DE MORAES, 1984 (a viagem de Paulo Rocha em busca do diálogo possível e desejado entre os documentos e lugares vividos por Wenceslau de Moraes e a sua, do escritor e cineasta, Ilha dos Amores). Pode ainda ser visto nos videoclubes dos operadores de TV e na plataforma FILMIN.

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Por razões que penso devem compreender, não vou classificar com qualquer pontuação um filme em que sou parte interessada. Mas não me coíbo de promover e recomendar o seu visionamento, porque os seus valores de produção não se perfilam apenas no plano redutor do resultado final e da cópia síncrona. De facto, A ILHA DOS AMORES possui um lugar ímpar no quadro da cinematografia nacional e, porque não dizê-lo, no panorama internacional dos chamados film-fleuve, sendo uma das mais completas chaves para decifrar e melhor conhecer a personalidade, a dimensão e as qualidades únicas de um realizador que nunca desistiu de ser inovador, muitas vezes arriscando e fazendo arriscar até aos limites aqueles que com ele estabeleceram cumplicidades de natureza iminentemente criativa. Finalmente, um amigo e companheiro de que guardarei sempre as melhores recordações.

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