"Não Apaguem os Nossos Rastos! Dominique Grange, Uma Cantora de Protesto" de Pedro Fidalgo

Não Apaguem os Nossos Rastos!, em análise

A música de protesto de Dominique Grange, e a arte de Tardi, chegam aos cinemas nacionais através de “Não Apaguem os Nossos Rastos!”, um documentário realizado pelo cineasta Pedro Fidalgo!

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“Não Apaguem os Nossos Rastos! Dominique Grange, Uma Cantora de Protesto” de Pedro Fidalgo

Em 2014, Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro co-realizaram um documentário sobre uma das grandes figuras do panorama musical português, que não podemos nem devemos situar apenas dentro das nossas fronteiras, porque foi igualmente um dos nomes maiores da música a nível internacional. Estou a falar de um filme, MUDAR DE VIDA, JOSÉ MÁRIO BRANCO, VIDA E OBRA, e naturalmente do homem que nunca deixou de combater pelos seus ideais, o cantor, compositor, arranjador e produtor José Mário Branco. Em 2022, agora a solo mas muito bem acompanhado, Pedro Fidalgo regressou ao que fora o seu propósito anterior, dando continuidade ao seu desejo, vontade e motivação de contar as histórias de quem quis e quer deixar uma marca na História através da canção de protesto. Para os devidos efeitos, no documentário de intervenção que agora estreia em Portugal, N’EFFACEZ PAS NOS TRACES! (NÃO APAGUEM OS NOSSOS RASTOS!), Pedro Fidalgo polariza a nossa atenção para a cantora francesa Dominique Grange, uma voz que se destacou nos acontecimentos do Maio de 1968 mas que não se ficou por aí, como prova a vasta documentação reunida sobre a sua luta musical a favor de diversas causas, sempre numa perspectiva militante. Uma mulher que hoje, seguramente mais pacificada consigo mesmo e com a realidade circundante, não mascara as simpatias de outrora pela esquerda revolucionária e pelas lutas operárias cuja continuidade se verifica hoje num plano mais vasto do mundo laboral, independentemente dos rótulos redutores de outras eras. Mesmo sendo uma democracia, a República Francesa parece muitas vezes esquecer o conceito “liberdade, fraternidade e igualdade” que ainda vale alguma coisa como palavra de ordem para os que querem acreditar que os ideais humanistas não morrem de um momento para o outro e sem resistência, mesmo quando ameaçados por movimentos pouco recomendáveis e de sinal contrário a esses valores. Mas não se pense que esta activista e militante, que chegou a estar na clandestinidade no seu próprio país, possui hoje como ontem uma posição passiva perante o aventureirismo esquerdista ou o que apelida de conformismo no seio de uma certa linha ortodoxa da esquerda que se diz ao lado do povo, da classe operária e das massas, mas que nos momentos vitais para a afirmação de alternativas calça as pantufas e fica a assistir, mais ou menos resignada ao que se perfila como sendo as dificuldades maiores do processo inexorável da luta política, sindical e social.

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Em resumo, NÃO APAGUEM OS NOSSOS RASTOS!, que recebeu o subtítulo DOMINIQUE GRANGE, UMA CANTORA DE PROTESTO mostra-nos uma “cantautora” cujo “compromisso perpétuo” se associa de forma muito criativa ao genial Tardi, um mestre da banda desenhada cuja obra vem sendo acompanhada e destacada por qualquer um que aprecie o que de melhor se produz nos domínios gráfico-narrativos a que genericamente chamamos BD. Basta recordar a Adèle Blanc-Sec dos primórdios da sua carreira, as aventuras fabulosamente desenhadas para dar corpo e alma aos caminhos cruzados do detective Nestor Bruma, passando por obras de grande significado político como LE CRI DU PEUPLE, que se desenrola durante o período da Comuna de Paris, e por outras que nos fazem lembrar os horrores dos grandes conflitos bélicos como a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, por exemplo, C’ÉTAIT LA GUERRE DES TRANCHÉES, PUTAIN DE GUERRE, ou a série de álbuns editados sob o lema MOI, RENÉ TARDI, PRISONNIER DE GUERRE AU STALAG II-B.

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Entretanto, mais recentemente editou um livro-CD, LE DERNIER ASSAUT, juntamente com Dominique Grange e os músicos da banda Accordzéâm que, aliás, podemos ver e ouvir no documentário de Pedro Fidalgo. Sem dúvida, a montagem viva e com bom ritmo dos materiais audiovisuais de diversas fontes que constituem parte do projecto de montagem fílmica funcionam e são matéria q.b. para o irmos ver, mas a mais-valia que constitui a introdução das ilustrações de Tardi confere a NÃO APAGUEM OS NOSSOS RASTOS! um sabor especial que me deixou com vontade de ir a uma livraria procurar o álbum quase homónimo, ou seja, 1968-2008: N’ÉFFACEZ PAS NOS TRACES! – na prática, o irmão mais velho do filme de 2022, nem que seja pela sempre notável capa de Tardi.

Não Apaguem os Nossos Rastos!
Não Apaguem os Nossos Rastos

Movie title: Não Apaguem os Nossos Rastos! Dominique Grange, Uma Cantora de Protesto

Date published: 12 de May de 2022

Director(s): Pedro Fidalgo

Genre: Documentário, 2022, 96 min

  • João Garção Borges - 70
70

Conclusão:

Prós: Directo, eficaz, cumpre a promessa de realizar o retrato de uma cantora de protesto inserindo-a no devir das grandes lutas que ainda dão sentido ao seu espírito militante.

Contra: Editado em 2008, já não vai ser fácil comprar o álbum que provavelmente inspirou o realizador para este seu novo
e muito interessante documentário de criação.

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