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A Lei de Teerão, em análise

‘A Lei de Teerão’ do iraniano Saeed Roustayi é um filme realizado a um ritmo alucinante, que não dá o mínimo de tréguas ao espectador. É uma história de policias, baseada no combate ao elevado consumo e tráfico de drogas no Irão. Estreia a 30 de junho e é um filme imperdível!

Mais de dois anos após a sua exibição no Festival de Veneza 2020, ‘A Lei de Teerão’ de Saeed Roustayi, chega finalmente às nossa salas de cinema, seguindo a lisonjeira reputação que teve o seu último filme Leila’s Brothers (2022), estreado em Maio  passado, no Festival de Cannes. Apesar de ter sido um dos filmes favoritos da crítica, acabou infelizmente por não ganhar nenhum prémio, o que seria um grande estímulo para este jovem realizador iraniano, que faz 33 anos em agosto próximo e que vai certamente dar que falar em breve. Porém a sua antecipada fama não pode ser usurpada, ainda mais porque ‘A Lei de Teerão’ (2019), consegue ser uma obra ainda mais forte, perturbadora e convincente, do que ’Leila’s Brothers’, este sobre uma família em desagregação, falida e muito afectada, por causa da grave crise económica e desemprego, provocada pelo embargo dos EUA ao Irão, durante a Administração Trump. A história de ‘A Lei de Teerão’ é baseada na assustadora situação social, praticamente desconhecida do Irão, que se tornou, apesar dos preceitos do fundamentalismo religioso, num país de tóxico-dependentes: são cerca de 6,5 milhões de viciados em drogas, em 82 milhões de habitantes, onde impera como se sabe a Lei Islâmica. São uma fauna que vive à margem da lei e que a virtuosa câmera de Saeed Roustayi, filma como se fosse um exército de zombies, marginalizados da sociedade e a viverem em condições degradantes. ‘A Lei de Teerão’ é aliás um daqueles filmes, que deixa uma profunda marca nos espectadores, sobretudo porque retrata de uma forma impressionante, além de todo um ambiente das ruas ou da esquadra dos polícias, o fenómeno do vício do crack e de um enorme movimento de tráfico e consumo de drogas pesadas, comparável aos guetos, das grandes cidades norte-americanas e europeias. 

A Lei de Teerão
O fabuloso Payman Maadi, o actor dos filmes de Ashgar Farhadi, no papel do inspector Samad Majidi. ©Leopardo Filmes

O filme, aliás tem como referência quase óbvia ao famoso ‘Os Incorruptíveis Contra a Droga’, de William Friedkin (1971), — aliás, o veterano realizador norte-americano não lhe poupou elogios —  só que em vez de Gene Hackman, temos um fabuloso Payman Maadi — o actor dos filmes de Asghar Farhadi — no papel do inspector Samad Majidi, um polícia feroz, que lidera uma brigada especial de combate ao narcotráfico. Majid parece ter apenas uma obsessão: encurralar Nasser Khakzad (Navid Mohammadzadeh, vimo-lo em ‘No Date, No Signature’, com o qual venceu o Prémio de Melhor Actor na secção Orizzonti do Festival de Veneza 2017), um ousado, charmoso e manipulador traficante, que lhe atormenta a alma, a carreira e a relação familiar. Mas antes disso, começa por ordenar uma grande limpeza aos bairros de lata de Teerão, onde vive uma multidão de viciados em drogas, que vai definhando e morrendo aos poucos nas ruas. O inspector espera desta forma conseguir chegar à cadeia de tráfico, prendendo e assediando os intermediários: traficantes, mulas e pequenos dealers…onde se incluem mulheres, crianças e toda uma miséria social, que alimenta um submundo, que para nós ocidentais era absolutamente desconhecido. O filme é tão realista, quanto perturbador e nesse sentido acabou mesmo por ter de enfrentar a censura iraniana: o realizador teve que negociar algumas mudanças no argumento, para conseguir terminá-lo. E mesmo assim, não deixou de ser surpreendente como as autoridades iranianas o deixaram estrear. Interessante é também saber que o jovem Roustayi fez durante mais de uma ano uma extensa e apurada pesquisa, para escrever o argumento, passando, algum tempo num esquadrão de narcóticos da policia de Teerão, depois nas prisões e até nos tribunais, para entender melhor como realmente funcionam os interrogatórios e os julgamentos. Estes aliás culminam na maioria dos casos e pela Lei Islâmica, numa condenação à morte dos traficantes. No Irão, a pena por posse de drogas é a mesma, quer se carregue 30g ou 50kg: a morte por enforcamento. Nessas condições, os traficantes de drogas não têm escrúpulos em jogar à grande e no tudo ou nada, e assim a venda de crack sobretudo, explodiu no país.

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Realizado a um ritmo alucinante, que não dá um minuto de descanso ao espectador, é com este pano de fundo meio-documental, que ‘A Lei de Teerão’ nos coloca e perante esse policia obsessivo, um grande especialista no terreno das investigações e interrogatórios. Todas as cenas quer sejam na esquadra quer sejam nas ruas, são absolutamente impressionantes: a começar logo pela primeira, uma perseguição em corrida pelas estreitas ruas de Teerão — que faz lembrar uma sequência de 007 James Bond — e que culmina de uma forma absolutamente surpreendente e em algo que terá depois consequências futuras na estabilidade emocional e confiança no seio do esquadrão de polícias. É curioso ver igualmente como este excitante thriller psicológico, se torna também num ‘filme de acção’, onde não há tiroteios: aqui os homens lutam só através de afiados diálogos verbais, truques psicológicos maquiavélicos e algumas cenas violentas. E assim, o espectador fica quase que hipnotizado por essa verve, por essa velocidade do fluxo de diálogos, pelo suspense e tensão, que nos atormenta do primeiro ao último momento. Embora para o fim a coisa acalme um pouco, para nos revelar uma horrível realidade. Saeed Roustayi faz também uma incrível otimização de recursos: seja numa ‘favela’ toda construída em tubos de cimento, seja num apartamento de luxo, na esquadra ou no tribunal ou mesmo numa apinhada cela da prisão, numa auto-estrada ou num estaleiro de obras. Ele sabe exatamente onde colocar a sua câmera para dar vida e a realismo à história, proporcionando-nos uma visão de quase 360 graus, dessa realidade social, dessa luta fratricida e sem fim entre polícias e traficantes, que nada tem feito para diminuir — as estatísticas oficiais, dizem o contrário — o número de tóxico-dependentes e consumidores de droga no Irão. Quase tanto ao estilo de um documentário, quanto de um thriller, ‘A Lei de Teerão’ tem um final, insuportavelmente cruel: 2 fileiras de soldados frente a frente, avançam um em direção ao outro para canalizar um fluxo dos condenados e forçá-los a alinharem-se para subirem em direção à forca; são seres completamente desumanizados, com as suas pernas a tremerem e a mijarem nas calças. Por isso além de um thriller de tirar o fôlego, ‘A Lei de Teerão’ é sobretudo um filme-denúncia, que não poupa o espectador a uma horrível realidade, provando que a pena de morte não tem de modo nenhum, um efeito dissuasor.

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A Lei de Teerão

O realizador escolheu ainda para os principais papeis, dois atores absolutamente fantásticos: Payman Maadi cuja velocidade de interpretação física e de fluxo verbal é incrível, ajudando ele sozinho quase, a manter o filme sempre numa grande tensão; e Navid Mohammadzadeh por sua vez, no papel de um ‘bandido’ que tem um perfil psicológico e social também muito interessantes e um reflexo da marginalidade da sociedade iraniana e das suas feridas insaráveis. As muitas cenas de confronto entre estes dois homens, são sem dúvida os grandes momentos do filme, sobretudo na segunda parte, talvez na mais conclusiva e apurada do filme. ‘A Lei de Teerão’ é por isso também um retrato sociológico de toda uma grande franja da sociedade iraniana, que continua marcada pela imensa pobreza e onde as pessoas para fugir a esse peso, refugiam-se nessa insuportável ditadura e dependência das drogas. Um ‘filmaço’!

JVM

A Lei de Teerão, em análise

Movie title: Metri Shesh Va Nim

Movie description: Ao fim de uma caçada de vários anos, Samad, um obstinado oficial da policia com métodos expeditos, apanha finalmente o traficante de droga Nasser K. Enquanto o policia acha que o caso está encerrado, o confronto com o cérebro dessa rede de tráfico de drogas, vai levá-lo por um caminho bastante mais duro e diferente do que imaginava.

Date published: 27 de June de 2022

Country: Irão, 2019

Duration: 135 minutos

Director(s): Saeed Roustayi

Actor(s): Payman Maadi, Navid Mohammadzadeh, Parinaz Izadyar, Farhad Aslani,

Genre: Drama, Thriller

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  • José Vieira Mendes - 90
90

CONCLUSÃO

A Lei de Teerão’ de Saeed Roustayi é um filme realizado a um ritmo alucinante, que não dá um minuto de descanso aos espectadores, nem mesmo aos iniciados no cinema iraniano, que vão decerto ficar surpreendidos com a qualidade e destreza deste filme de acção. Os espectadores mergulham numa alucinante narrativa de uma brigada de narcóticos, no combate ao tráfico, ao melhor estilo do cinema de Hollywood, tornado-se quase reféns, dessa história que dura mais de duas horas, mas que passam num ápice. Porém, também não são poupados em observar uma triste e horrível realidade, que defende a pena de morte. ‘A Lei de Teerão’ é um filme incrível, sobre uma realidade muito diferente da nossa, mas é muito mais do que um mero thriller de tirar o fôlego, sobre a caça aos traficantes de droga: trata-se de um profundo ensaio sobre os direitos humanos, o consumo de droga, a sociedade iraniana em geral e as leis islâmicas. 

Pros

O ritmo alucinante da acção, sobretudo na primeira parte, que nos leva para uma segunda mais tranquila e pausada, mas também mais profunda do ponto de vista da reflexão social, passada entre a esquadra e a prisão. 

Cons

A parte final tem uma sequência que é muitíssimo violenta, capaz de mexer muito com os espectadores mais sensíveis, mostrando uma realidade atroz, que não imaginávamos que ainda existisse, em pleno século XXI.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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