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75º Festival de Cannes | ‘Leila et ses frères’

Depois de ‘A Lei de Teerão’, o realizador iraniano Saeed Roustayi apresentou-se aqui na Competição com ‘Leila et ses frères’, uma fascinante tragicomédia familiar, um retrato sociológico da classe média iraniana e uma fábula de quase três horas. Mas é muito bom….e um forte candidato à Palma.

‘Leila et ses frères’, marca definitivamente a reconhecida projecção internacional do realizador iraniano Saeed Roustayi, com a presença nesta Competição oficial em Cannes 2022. A Lei de Teerão (2019), [Festival de Veneza – Selecção Oficial, Orizzonti] um thriller sobre uma brigada de narcóticos, a droga e toxicodependência, na sociedade iraniano, que fez bastante público em França, mas que em Portugal, infelizmente passou, um pouco despercebido. Saeed Roustayi assina agora em ‘Leila et ses frères’, um ambicioso fresco familiar, num cenário de crise económica no país dos mulás, que é o maior filme em duração da Competição de Cannes 75. Vale a pena mesmo aguentar as quase 3h de diálogos constantes, assentes numa forte e dinâmica realização, incluindo um extraordinário trabalho de todo o elenco, com personagens bem construídas e credíveis e sobretudo, em mais um retrato sociológico de questões, poucas vezes abordadas no cinema iraniano: a crise económica e o desemprego. Leila (Taraneh Allidousti) — vimo-la em O Vendedor (2016) — dedicou toda a sua vida aos pais e ao quatro irmãos rapazes. Muito afetada por uma crise económica sem precedentes, a família de classe média, está endividada e vai desbaratando as suas economias, à medida que as decepções pessoais, entre o núcleo familiar se desenvolvem. Para tirá-los dessa situação, Leila traça um plano de emergência: comprar uma pequena loja, num centro comercial, para começar um negócio com os irmãos todos quarentões e que por uma razão ou por outra regressaram a casa dos pais. Assim, toda a gente coloca as as suas economias neste investimento, mas falta um último apoio financeiro. Ao mesmo tempo e para surpresa de todos, o seu velho pai Esmail (Saeed Poursamimi), promete uma grande soma de dinheiro à sua comunidade, ao enorme clã familiar, para se tornar o seu novo padrinho-chefe, algo que é a maior honra da tradição persa. Pouco a pouco, as ações de cada um de membros levam a família à beira da implosão, enquanto a saúde do patriarca se vai deteriorando, num cenário de desemprego e inflação galopante.

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Na verdade, Esmail é um velho modesto e simples, que sonha com esse título honorário apenas porque julga ter esse, direito pela pela sua idade. Mas esse título tem obrigações pecuniárias, os seus meios são limitados e os filhos estão desempregados. Numa reviravolta vamos descobrir que afinal Esmail tem muito mais dinheiro guardado, do que pensam, os seus filhos e a sua esposa. Então vem uma escolha moral: os filhos deveriam roubar o dinheiro do seu pai ou deixá-lo usá-lo para sua consagração, e assim ver sua única possibilidade de um futuro melhor, escapar por entre os dedos? Pontuado por cenas e discussões familiares bastante violentas —  Leila ousa mesmo esbofetear o seu próprio pai — o filme pinta um retrato de uma família em crise, onde apesar de tudo o grande pilar é uma mulher, Leila, que tudo faz para arrancar a família dessa sua condição que caminha para a pobreza.

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‘Leila et ses frères’, não é um filme político, mas mostra, no entanto, a delicada situação social do Irão, após o embargo económico, imposto pelos EUA e da Administração Trump, que pretendeu retirar-se do acordo nuclear iraniano, mergulhando assim milhares de iranianos na pobreza. O filme lança também uma luz sobre a situação da classe média no Irão e sobretudo da marginalização, angústia e do beco sem saída, em que se encontram os mais pobres pobres e desfavorecidos no Irão. ‘Leila et ses frères’ volta também e quase como sempre, a questionar os códigos de uma sociedade patriarcal  e condicionada pelos preceitos do islamismo, onde, como dirá Leila: ‘nos ensinam a ter convicções e não a pensar. É na verdade, um filme muito parecido e ao estilo, do cinema de Asghar Farhadi, membro do júri de Cannes 75 e há pouco mais de dois filmes que faltam apresentar é um dos candidatos à Palma de Ouro 2022.

JVM, em Cannes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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