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Rock in Rio Lisboa 2022 | a disco dos Black Eyed Peas

Em jeito de revista, não podemos deixar de recordar a passagem dos Black Eyed Peas, a 19 de junho, pelo Rock in Rio Lisboa 2022. Com o seu habitual e efusivo apelo à paz, amor e fraternidade, os BEP apoiaram várias outras artistas pop – de Britney a Shakira – e transformaram o Palco Mundo numa enorme discoteca a céu aberto. 

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A HISTÓRIA VASTA DOS BLACK EYED PEAS

will.i.am black eyes peas rock in rio lisboa 2022
will.i.am, aqui em concerto a 19 de junho de 2022, no RIR, é há muito o ‘maestro’ da banda |©Maggie Silva/MHD

Os Black Eyed Peas, que em tempos se chamaram “Black Eyes Pods” (aquando do seu surgimento na Los Angeles do início dos anos 90), foram também os The Black Eyed Peas até à saída de Stacy ‘Fergie’ Ferguson, em 2017. O trio original que compôs este grupo de hip-hop norte americano desde 1995 – Apl.de.Ap, will.i.am e Taboo – volta a ser, uma vez mais, o centro da banda. Todavia, a sua música transformou-se e, quem em tempos os conheceu, às suas letras e melodias, de trás para a frente, tem alguma dificuldade em reconhecê-los.

Os dois primeiros álbuns de estúdio dos Black Eyed Peas, “Behind the Front” e “Bridging the Gap”, lançados respetivamente em 1998 e 2000, colheram reconhecimento crítico e permitiram a will.i.am começar a crescer no sentido de se tornar o gigante produtor musical que hoje conhecemos. Em “Bridging the Gap” a banda viu até profundamente envolvida na produção da música a cantora de soul Kim Hill, que assumiu os coros deste disco mas deixou a banda antes do mesmo ser lançado.

Todavia, o verdadeiro sucesso comercial veio com “Elephunk”, em 2003. Inicialmente, Fergie foi convidada por will.i.am não para substituir Hill, mas para fazer coros em “Shut Up”. A dinâmica com a banda resultou de imediato, cinco músicas adicionais foram gravadas e o resto é história. Stacy Ferguson tornou-se bem depressa muito mais do que apenas uma cantora de back-up vocals, tornou-se uma vocalista de seu próprio mérito e um verdadeiro membro do grupo (e co-compositora), como se comprovou em “Monkey Business” (2005), “The E.N.D”. (2009) e “The Beginning” (2010) – os álbuns onde viria a participar antes de abandonar abruptamente o grupo em 2017 – supostamente para “ser uma boa mãe e dedicar-se à sua carreira a solo” ou quiçá por diferenças artísticas, nunca saberemos.

NOVAS FORMAS DE SER – EM PALCO E FORA DELE

Black Eyes Peas no Rock in Rio Lisboa 2022
J. Rey Soul é a nova vocalista dos BEP| ©Anne Karr/ Centrar Video – RIR

Depois da saída de Fergie, a talentosa cantora filipina J. Rey Soul juntou-se ao grupo, e foi ela que se apresentou a 19 de junho de 2022 no Parque da Bela Vista. Nos discos de estúdio “Masters of the Sun Vol. 1” (2018) e “Translation” (2020) a sua presença não se faz sentir como membro oficial, prestando a cantora uma função maioritariamente de apoio. Quando a jovem surgiu no Palco Mundo, ouviram-se audíveis “quem é ela?” – o que comprova a tese de que J. Rey não preencheu ainda o vazio deixado pela antiga vocalista.

Pior ou melhor, tudo é uma matéria de perspetiva. Para quem escreve esta análise, alguém que, na pré-adolescência, viu nos Black Eyed Peas a sua primeira banda favorita, e arrastou inclusive os pais para concertos no recém-construído Estádio do Algarve ou para o então Pavilhão Atlântico (agora Altice Arena), nos anos que já lá vão de 2005, a fim de ver o afamado grupo que tão bem era capaz de unir o hip-hop, a música funk, os ritmos latinos e a pop, então de certo esta já não é a mesma banda.

Sem dúvida os Black Eyed Peas mudaram, aliás, foram mudando ao longo do tempo. Em 2005, com “Monkey Business” e singles como “Don’t Phunk with My Heart” (sequela lírica e musical para o sucesso de “Shup Up”),os BEP orquestravam um casamento luminoso entre a pop e o hip-hop – com versos rápidos e memoráveis e bridges dignas de pop elevada. Jé em 2009, com “The E.N.D”, lançaram-se à música pura e dura de “discoteca”, com David Guetta como produtor. A Eletronic Dance Music, ou EDM, começou a tomar conta do seu estilo musical. O seu último disco, “Translation”, lançado em 2020, centra-se muito mais em influências de música latina, afrobeats, reggaeton e música trap. Foi precisamente este casamento de novas sonoridades que os Black Eyed Peas trouxeram ao Rock in Rio.

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Por isso lá está, os Black Eyed Peas são agora uma nova proposta que (quase) corta com o passado. Todavia, à medida que evoluíram foram sabendo captar novos públicos e incorporar musicalidades díspares. Há muito que não passavam por terras lusas, e fizeram-no como muita emoção, com belas mensagens pacifistas, para sempre transmitidas com o coração ao peito e com o grande hino que é “Where is the Love”. E claro. ainda há muita festa em Black Eyed Peas – quiçá mais do que nunca.

BEP no RIR 2022
©Anne Karr/ Central Video – RIR

O público jovem que se concentrava junto ao palco vibrou ao longo de todo o espectáculo, reconhecendo desde singles mais antigos a músicas mais recentes. A sua apresentação começou em altas com “Let’s Get it Started”, êxito de 2003, e que foi capaz de lançar o mote para 1h30 de pura diversão e contagiante energia em altas. Porventura, às vezes faziam faltas os agudos de Fergie, a forma como harmonizava com os restantes membros ou simplesmente a forma como o seu tom mais agudo contrastava com as restantes vozes. As músicas antigas viram-se alteradas, de forma a que certos versos que pertenciam à cantora não sejam sequer entoados. Não é uma má opção (embora custe ouvir, por exemplo “Pump It” sem a sua bridge, p.ex), pois assim J. Rey Soul tem direito a reivindicar o seu próprio espaço em palco e a sua própria voz.

A apresentação deu tempo a cada um dos membros dos BEP para brilhar individualmente e libertar a sua musicalidade. No final, as cerca de 50 000 pessoas que ainda deviam circular pelo recinto estavam rendidas à prestação que incluiu como momentos altos as prestações de “Mamacita”, um dos singles mais recentes da banda; de “Scream and Shout”, que serviu para os BEP celebrarem, com um recinto ao rubro, a libertação muito antecipada de Britney Spears ou ainda “The Time (Dirty Bit)”, música que casa a melodia e o EDM e faz as maravilhas de quem procurava neste dia libertar todas as toxinas e energias negativas.

Os Black Eyed Peas são uma banda bem diferente daquela que ascendeu ao estrelato quase há 20 anos atrás; para alguns, isso será um trunfo incontestável. 

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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