A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2, em análise

 

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  • Título Original: La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2
  • Realizador: Abdellatif Kechiche
  • Elenco:  Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos
  • Género: Drama
  • Leopardo Filmes | 2013 | 179 min

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Uma das grandes tragédias do Cinema de hoje é a maquinação do sistema dos media. Desde a estreia em Cannes, “A Vida de Adèle” foi etiquetado até à exaustão – o filme lésbico com uma interminável cena de sexo, cujo realizador maltratou a equipa e atores durante a produção, mas que coincidentemente também ganhou o prémio máximo no referido Festival.

Pode ter ouvido milhares de coisas sobre este filme, nem todas elas fazendo jus à obra a que se referem, mas aqui recuperamos a mais importante: é uma obra de arte, e talvez um dos filmes mais envolventes a nível emocional a surgir em muitos, muitos anos.

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Adèle tem 15 anos e é uma jovem que estuda literatura no colégio para um dia se tornar professora, como sempre desejou. Entre as aulas, o burburinho entre o seu grupo de amigas tem os alvos do costume – os rapazes mais atraentes da turma, particularmente Thomas, que demonstra um afeto especial pela nossa protagonista.

Pressionada pelas amigas e pelo desejo de encontrar respostas a questões que sem saber já colocava, Adèle envolve-se com o rapaz para descobrir que nada é como esperava. Assombrada pelo vislumbre de uma carismática jovem de cabelo azul com a qual se cruzou na rua apenas uma vez, Adèle mal consegue parar de pensar nela, e apesar de genuinamente não o saber, nesta altura todos sabemos porquê. É a materialização do amor à primeira vista, que se regista na fisicalidade de Adèle como na vida real – um murro no estômago e a constatação imediata da nossa própria incompletude.

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A magnética história de amor começa a escrever-se a traços cautelosos mas sólidos, e Kechiche deixa-a desenvolver-se languidamente, ao longo dos anos, enquanto tudo e nada acontece, e os entretantos tomam lugar de destaque nos diferentes estádios do êxtase, exploração, contentamento e o tédio da estagnação. Antes conotado com a excitação da descoberta e o prazer da felicidade, eventualmente – e apesar de continuar presente em apontamentos muito interessantes, agora mais desesperados – a cor azul começa a desvanecer-se, inclusive do cabelo de Emma, e lentamente percebemos como esse pequeno sinal nos marca inquestionavelmente o princípio do fim.

Inspirando-se livremente na banda desenhada de Julie Maroh (“Le bleu est une couleur chaude”), Kechiche livra-se de um dispositivo melodramático que culminava com a morte trágica de Adèle (ou na banda desenhada, Clèmentine), para examinar um outro drama, uma outra morte, mais abstrata, quiçá ainda mais devastadora.

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Se tivermos de apontar um equivalente próximo e recente, “Blue Valentine” de Derek Cianfrance surge em mente, mas “A Vida de Adèle” vai muito mais fundo, e expõe muito mais debilidades humanas, e é muito mais cru e real, constituindo-se como uma ode aos caprichos do coração e às belezas inesperadas da vida, sobre o primeiro amor e a sua urgência, romanticismo, fisicalidade, arrebatamento, desespero e o despertar em nós do desejo dar tudo o que temos e não temos. É vívido e vibrante, e é universal e específico, versando sobre a primeira paixão, as excitantes descobertas da vida e aqueles momentos trágicos em que estragamos tudo e partimos corações – o nosso, e o do outro. É celebração explosiva de glória e dor, um nervo exposto e uma janela para dentro da vida – magoa e deixa marca como ela, mas, de alguma forma, deslumbra com o seu poderio.

À parte de uma disputa escolar pouco simpática, o filme de Kechiche não é, como poderia bem ter sido, um filme de movimento, ou anexo a uma narrativa tradicional da “saída do armário”. Não é uma tese sobre a intolerância, ou um esforço declarado para abordar uma questão social pungente. Muito mais central é a relação e a sua dinâmica, o que resulta e não resulta, as compatibilidades e as diferenças que são relacionáveis com qualquer pessoa. Não sendo um filme político ou reivindicativo, acaba por triunfar nos meandros dessas contendas revolucionárias por apresentar a universalidade do que é a paixão e a manutenção árdua de uma relação.

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Léa Seydoux afirmou por variadas vezes que não compreende como é aceitável retratar a violência no cinema, mas quando se trata de sexo – que é afinal uma necessidade e ato tão primários na vida humana – é imediatamente levantado o estandarte do tabu e do inaceitável. Essas cenas não são chocantes, ou perversas, porque são autênticas e inseridas na verdade da história de Adèle e Emma.

As já “famosas” cenas não são chocantes ou perversas, porque são autênticas e inseridas na verdade da história de Adèle. O sexo, além de constituir uma parte essencial da jornada da protagonista, é ainda retratado com uma emoção fluída, mercurial, quase palpável. Como outros elementos – como seja a presença da comida e a sua utilização no contraste entre os mundos dissemelhantes de Emma e Adèle – é essencial à rica construção geral de Kechiche. O seu objetivo é, não só demonstrar a influência poderosa do desejo sexual nas emoções, como ainda permitir ao espectador compreender – vendo, em oposição a ouvindo falar sobre – a profundidade da paixão partilhada.

Os altos e baixos da relação têm uma ressonância tão poderosa graças às interpretações fora de série das duas atrizes e o seu compromisso sem barreiras a estas personagens inolvidáveis.

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A Emma de Seydoux é uma criação magnífica, aliando uma imagem enigmática, quase mística a uma natureza livre, bondosa e verdadeira no amor que expressa por Adèle. Todavia, o filme pertence à mulher que lhe dá nome: em cena em praticamente todos os momentos, Exarchopoulos é uma revelação. Numa performance de instinto e intuição, e com apenas 18 anos na altura de rodagem, Exarchopoulos corporiza a crónica da maturidade de Adèle de uma forma simples e subtil que contrasta com a sua evocação do arroubo do amor e do desejo naquele que se subentende ser o primeiro capítulo do filme. O alcance do trabalho de um ator é completamente revolucionado e as possibilidades tornam-se, com o trabalho da jovem atriz, infinitas. É, até ao momento e na opinião desta que vos escreve e que se julgava inabalável depois de ver Cate Blanchett em “Blue Jasmine”, a melhor performance do ano.

Juntas, Exarchopolus e Seydoux são absolutamente destemidas, e a relação que criam no ecrã é tão orgânica que chega a desafiar a noção de “química entre atores” para apresentar uma nova possibilidade – o retrato fiel onde a abstração de que estamos perante uma obra de ficção é total.

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Em retrospetiva, o Cinema é muitas vezes referido como o grande meio criado pelo Homem, proporcionando a possibilidade de mergulhar noutra história que não a nossa, vivendo assim novas vidas e experiências que o tempo que por cá passamos não permite. Na maior parte das vezes, essa possibilidade não é preenchida, e o Cinema acaba por funcionar mais como um meio de escapismo do que propriamente identificação e extensão da vida. No entanto, de vez em quando, surgem os raros filmes que incitam à descoberta, que se cosem a nós, que nos propiciam crescimento e introspeção, e que nunca mais nos abandonam.

Quando chegamos, batidos e devastados, à última mas esperançosa passagem de “A Vida de Adèle”, damo-nos conta que Kechiche desenhou um autêntico mapa da alma humana, e tudo fica bastante claro. Deixamos o Cinema com um nó na garganta, e partimos de novo como adolescentes enfeitiçados pelo primeiro amor, mesmo que esmagados pela crueza da realidade. A nível pessoal, e desde que o ar frio daquela noite de novembro chocou o meu corpo quente e amedrontado, depois de três horas de reflexão pessoal e humana, nunca mais deixei de ver Adèle.

Todos os dias, em todo o lado.

Se dúvidas me restassem quanto a que filme ver na passada 4ª feira, dentro das opções existentes, ao saber que podia ir ver o 3º melhor filme de 2013 para a Cahiers du Cinéma (e entretanto, também para a Sight and Sound Magazine), nem hesitei. O desafio consistia mesmo em conseguir aguentar as 3 horas de filme, um excelente filme que Abdellatif Kechiche realizou com uma mestria exemplar, considerado mesmo com um dos mestres do realismo em filme. Assim, o desafio foi superado com relevante facilidade, pois estamos perante um filme sem momentos mortos, que segue o seu percurso, ou seja, o percurso de vida de Adèle sempre em progressão ao longo de alguns anos da mesma.

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Para lá da excelente e desconcertante realização de Kechiche, que foi tão criticada pelas duas protagonistas do filme, temos uma muito bem conseguida adaptação da banda desenhada “Le Bleu est une couleur chaude” de Julie Maroh, em tradução livre, “O Azul é uma côr quente”, que foi adoptado para o título inglês. No entanto, o título em português, que reflecte o original “La vie d’Adèle”, acaba por fazer mais sentido de acordo com o que presenciamos.

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Seguimos a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma adolescente que se encontra no 10º ano, ainda nos seus tenros 15 anos, que tem o seu grupo de amigas e as suas conversas são tão naturais que reflectem uma das preocupações nesta idade: saber se consegue ser interessante para os rapazes do seu liceu/se tem rapazes interessados em si. As suas amigas apontam-lhe um alvo (Thomas) e, segundo o rumo natural das coisas, Adèle acaba a envolver-se até sexualmente com o rapaz. Mas… A vida de Adéle é feita de desilusões e ilusões, e aqui teve a sua primeira decepção, na procura da sua sexualidade. A sua mente já se desviava para uma rapariga de cabelo azul com quem ela se tinha cruzado apenas uma vez, mas que invadia os seus sonhos e desejos sexuais nocturnos. Adèle ainda não percebia que se tratava de amor à primeira vista e seguia o seu rumo, algo errático, na descoberta de novas experiências, inclusive com uma colega do seu liceu, que se revelou outra decepção, pois Adèle viu significado onde não existia.

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Depois, numa oportunidade proporcionada por acompanhar um colega seu homossexual até um bar deste tipo, acaba por se encontrar com a rapariga do cabelo azul, Emma (Léa Seydoux), e aqui começa a desenvolver-se uma bela amizade que se transforma em amor e paixão ardentes, à medida que os encontros entre ambas se somam, até à primeira experiência sexual(mente) intensa e louca de desejo (de forma bastante explícita mas, ao mesmo tempo, tão pura, natural, realista). Adèle é forte, resiste ao julgamento das suas colegas preconceituosas, e o tempo vai passando. É aqui que reside outros dos pontos geniais da realização de Kechiche, pois as indicações temporais são poucas, mas apenas superficiais e suficientes para sabermos quanto tempo já percorremos da vida de Adéle.

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Eventualmente, ou infelizmente, esta é uma história que não tem um final feliz, fruto dos erros e desilusões que Adèle encontra e/ou proporciona a Emma, refugiando-se na sua profissão de educadora, enquanto chora em grande parte da última hora/terço do filme. É de referir que a cena de separação entre Adèle e Emma envolve uma carga dramática tão grande que é impossível ficar indiferente a tal tristeza, tornando-se difícil saber que personagem apoiar, pois gostamos inevitavelmente de ambas, e sentimos pena pelas duas.

Em resumo, é injusto rotular este belíssimo filme como “lésbico”, “o filme que tem aquela cena lésbica de 7 minutos e tal”, “demasiado explícito”, entre outras expressões tão redutoras. Estamos perante uma belíssima história de amor, entre duas mulheres que descobrem entre si uma paixão louca e ardente que saciam com sexo explícito e desenfreado, com tanto empenho quanto aquele que Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux puseram em cada uma das suas personagens, o que aliado à realização magistral de Kechiche, constituem um filme arrebatador a todos os níveis.

Meus amigos, isto sim é cinema!

Pedro Almeida (10/10)

Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.