© Riccardo Spinella

Adeus Piero Tosi, o melhor figurinista de sempre

Piero Tosi (1927-2019) foi um dos maiores figurinistas de sempre, tanto do Cinema como do Teatro. Para o grande ecrã, ele desenhou as roupas de filmes tão belos como “O Leopardo” e “Morte em Veneza”. O seu legado perdura, mesmo depois da sua morte, tanto pelos seus trabalhos como pelas pessoas que o seu trabalho inspirou.

Em toda a sua História, a Academia de Hollywood apenas premiou um figurinista com a honra de um Óscar Honorário, dado como reconhecimento de uma extraordinária contribuição para o desenvolvimento da Sétima Arte. Esse estimado artista foi Piero Tosi, que já na altura se encontrava tão frágil que a sua colaboradora de muitos anos, Claudia Cardinale, foi a pessoa que recebeu o galardão em seu nome. Ontem, dia 10 de agosto, passados quase seis anos desde esse evento, despedimo-nos de Tosi. O figurinista morreu com 92 anos, em Roma, e será enterrado na capela da família Zeffirelli.

Como o nome do seu derradeiro local de descanso pode sugerir, Tosi trabalhou muito ao lado do também lendário Franco Zeffirelli. Aliás, ao longo da sua longa e muito gloriosa carreira, Piero Tosi colaborou com alguns dos melhores realizadores italianos em alguns dos melhores filmes alguma vez produzidos nessa nação. Vittorio di Sica, Pier Paolo Pasolini e Liliana Cavani, o figurinista trabalhou com todos eles, mas foi com Luchino Visconti que Tosi concebeu uma série de filmes que viriam a mudar o modo como vemos e fazemos cinema.

A primeira vez que os dois homens colaboraram num filme foi em 1951, com “Belíssima”, mas foi em 1954, quando Visconti transferiu o seu gosto e estética operática dos palcos para o grande ecrã, que esta dupla deixou a sua primeira grande marca nas páginas da História do Cinema. O resultado desta segunda colaboração foi “Sentimento”, um festim para os sentidos sob a forma de uma intriga política oitocentista cujo triunfo tanto depende do melodrama romântico da narrativa como do esplendor visual que Tosi trouxe consigo.

Mais importante ainda foi o tipo de verisimilitude histórica que o figurinista aplicou aos seus designs. Quando Tosi e Visconti começaram a fazer filmes juntos, era raríssimo, quase inédito, ver o passado histórico a ser fielmente reproduzido no ecrã. Estilizações com base nas modas contemporâneas eram a norma, mesmo nos mais sérios e portentosos dramas históricos. Tosi, com muita ajuda da equipa exímia da Tirelli Costumi, foi contra essa convenção e procurou trazer o passado para o presente, para frente das câmaras.

Lê Também:
O Conto dos Contos e a fantasia barroca dos seus figurinos

A sua atenção ao detalhe levou-o mesmo a nunca cortar os tecidos com mais largura do que seria disponível na época em que os seus filmes se passavam, pois o cair das peças seria alterado. Ele era um verdadeiro historiador da moda que, ao invés de escolher uma via académica, dedicou a vida a tornar as modas de outros dias numa verdade tangível que todos podiam apreciar na escuridão do cinema. Não que Tosi fosse sempre um escravo da História. Acima de tudo, ele era um artista, um brilhante figurinista que sempre dava aos seus realizadores o melhor possível, correspondendo às exigências dos projetos e por vezes até transcendendo-os.

Talvez o seu trabalho mais impressionante tenha sido “O Leopardo”, um épico histórico sobre obsolescência e o imparável movimento do tempo que Luchino Visconti assinou e que é a sua magnum opus também. Esse filme, estreado em 1963, valeu a Tosi a primeira de cinco nomeações para os Óscares. Em 1972 e 1974, outras duas megaproduções de Visconti valer-lhe-iam mais duas nomeações, “Morte em Veneza” e “Luís da Baviera”. Depois desses espetáculos de verismo histórico e requinte absoluto, uma comédia clássica sobre drag queens, “A Gaiola das Malucas” de Édouard Molinaro, conquistou-lhe a quarta indicação para os Óscares em 1980. Por fim, o filme que Zeffirelli fez com base na ópera de Verdi “La Traviata” marcaria a quinta e última nomeação de Tosi, em 1983.

Infelizmente, o figurinista nunca ganhou, como é comum com grandes cineastas europeus que não ponham o pé em Hollywood. Pelo menos, como já dissemos, a Academia lá reconheceu como os filmes de Tosi ajudaram a mudar os paradigmas do cinema e fizeram com que o passado pudesse ser mais que uma fantasia estilizada quando visto nos cinemas. É claro que o legado de Piero Tosi não se resume a esse homenzinho doirado.

Além de ter aberto as portas a uma estética cinematográfica mais realista em filmes de época, Tosi também serviu de inspiração e até de professor para muitos dos grandes figurinistas que hoje em dia vestem os espetáculos mais elegantes e opulentes do grande ecrã. Gabriella Pescucci, figurinista de “A Idade da Inocência” e “Penny Dreadful” foi, por exemplo, uma aprendiza de Tosi. Por seu lado Massimo Cantini Parrini foi estudante do mestre e é um dos figurinistas mais promissores do panorama italiano com filmes como “O Conto dos Contos” e “Dogman” no seu currículo. Sandy Powell, uma boa candidata a Melhor Figurinista de sempre juntamente com Tosi, sempre creditou o italiano como uma das suas principais influências e inspirações, nomeadamente o seu trabalho em “Morte em Veneza”.

Lê Também:
Óscares 2019 | Quem é Sandy Powell?

Os seus filmes são o verdadeiro e mais absoluto legado de Piero Tosi, na verdade. Por isso mesmo, deixamos aqui uma série de imagens de alguns dos seus mais belos feitos cinematográficos. Mesmo que não conheças ainda o trabalho de Piero Tosi, talvez algumas destas fotos te levem a procurar os seus filmes. Garantimos que, pelo menos do ponto de vista das roupas, nenhuma destas obras pode desapontar. Acreditem que este era um dos grandes génios do cinema, um verdadeiro mestre!

1 de 30

SENTIMENTO (1954) de Luchino Visconti

senso piero tosi
© Lux Film

1 de 30

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *