O Conto dos Contos e a fantasia barroca dos seus figurinos

O Conto dos Contos de Matteo Garrone é um dos mais luxuriantes festins visuais dos últimos tempos, combinando estilos barrocos com gloriosos elementos fantásticos, num verdadeiro sonho cinematográfico.

O figurinista de O Conto dos Contos, o mais recente filme de Matteo Garrone, é Massimo Cantini Parrini, um antigo estudante de Piero Tosi que já foi assistente de Gabriella Pescucci e  que frequentemente colabora com a Casa Tirelli. Tosi, Pescucci e Tirelli serão nomes bem conhecidos para grandes fãs de cinema italiano ou devotos da arte do figurinismo cinematográfico, pelo que não deverá ser uma surpresa que este filme, inspirado em contos seiscentistas de Giambattista Basile, seja um dos mais impressionantes espetáculos visuais do recente cinema europeu.

O Conto dos Contos

Apesar da fantasia inerente aos três contos que se entrelaçam na narrativa de O Conto dos Contos, Parrini decidiu focar o seu trabalho numa formidável recriação de estilos históricos do período barroco, inspirando-se fortemente em pinturas e esculturas da época, nomeadamente na obra de Velázquez. No entanto, como meio de encontrar uma atmosfera de visceral e macabra fantasia, Parrini simplificou alguns dos detalhes estilísticos, eliminando muita da decoração como laços e delicadas rendas, e inserindo elementos mais pesados e severos como construções de fio metálico, criando uma impressionante visão de história e pesadelo cinematográfico.

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A estrutura tripartida do filme, no entanto, colocou um interessante desafio ao figurinista, apresentando três reinos separados com histórias paralelas. Com exceção de algumas personagens e momentos que englobam os três reinos, Parrini utilizou uma inteligente seleção de pormenores históricos e cuidadas escolhas cromáticas.

O Conto dos Contos

 


 

O REINO DE LONGTRELLIS

O Conto dos Contos

Na criação dos figurinos que vestem a população de Longtrellis, o figurinista concebeu um discurso visual fortemente preso à estética vigente na corte de Espanha no início do século XVII. Alguns pormenores estilísticos sugerem outras referências históricas, nomeadamente uma misteriosa figura encapuzada e o escafandro que o rei enverga numa cena aquática, mas a especificidade geográfica da moda deste reino é irrevogável.

O Conto dos Contos

O Conto dos Contes

Como consequência desta inspiração espanhola e da temática fatalista deste conto, todo o guarda-roupa é caracterizado por uma paleta cromática que valoriza o preto acima de qualquer outra cor, rematado com pormenores de doirados que realçam a riqueza monárquica e as diferenças sociais que marcam um dos grandes conflitos desta narrativa.

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As grandes exceções, no que diz respeito a esta negrura, são as roupas da família do gémeo do príncipe, com tons mais leves e terrenos, assim como o vestido escarlate vestido por Salma Hayek como a rainha. Esse figurino sanguíneo foi assim edificado para demonstrar a vitalidade do amor maternal no momento em que é introduzida à audiência a relação entre mãe e filho, numa belíssima cena num labirinto. Tirando esse momento, Hayek veste quase só exclusivamente o preto e dourado, como que personificando uma ideia barroca de luto monárquico.

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O REINO DE STRONGCLIFF

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Em contraste com a negra severidade da corte encabeçada pela rainha de Salma Hayek, o estilo do reino de Strongcliff é bastante mais inspirado pelas modas da aristocracia francesa no início do século XVII. Neste conto, onde os apetites eróticos de um arrogante rei movem muito do enredo, Parrini concebeu um mundo de descarada riqueza e luxuriante sensualidade que contrasta fortemente com a pobreza e miséria de quem não tem a sorte de cair nas boas graças reais.

O Conto dos Contos

Nas vestimentas mais ricas, o uso de construções de fio metálico no lugar da delicada renda historicamente correta chega ao seu apogeu. Como tal, ao observar a máxima opulência da corte deste reino, há sempre uma certa impressão de frieza. O fausto é inegável, mas não existe nele qualquer delicadeza.

O Conto dos Contos

As verdadeiras protagonistas desta história são duas idosas tintureiras e, como consequência, os seus figurinos não possuem o esplendor nobiliárquico da corte, com silhuetas muito mais simples, texturas grosseiras, materiais muito mais pobres e um grande uso de remendos. Como ambas tingem tecidos como ofício, as suas roupas vão mostrando arco-íris de manchas, a vitalidade das cores quase que troçando com a degradação física que a passagem do tempo deixou nos corpos das duas personagens. No clímax deste conto, esse mesmo visual da roupa manchada é exibido numa versão muito mais macabra, com um rico vestido de corte a ser impregnado de sangue a pontuar, de modo horrendamente memorável, a grande tragédia destas irmãs e seus desesperados desejos por juventude e companhia.

O Conto dos Contos

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O REINO DE HIGHHILLS

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O terceiro e último reino veste-se à moda da corte inglesa, um estilo menos faustoso que o dos outros dois reinos retratados em O Conto dos Contos, mas também mais frio. Aliás, essa frieza estende-se às cores das roupas, com cinzentos, azuis e verdes-água a dominarem a imagem desta corte, a não ser em momentos de destaque narrativo.

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Apenas no final, tanto deste conto, como de todo o filme, é que essa glacial atmosfera se vai desvanecendo, com o glorioso ouro a conferir um triunfante calor cromático ao visual da narrativa.

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Mas, antes de se chegar a essa conclusão, relativamente feliz, o conto ainda tem direito a momentos de considerável horror e sanguinidade, sendo que a imagem de uma mulher envergando um elaborado traje de corte coberto de sangue se repete. Desta vez, no entanto, o sangue não é da pessoa que veste o figurino, a peça não está imaculada, mas sim degradada como que em exposição dos esforços heroicos da personagem, e o tom da imagem não é o de tragédia, mas o de melancólica vitória.

O Conto dos Contos

 


Não percas este filme nos cinemas, e, se te interessares por cinema italiano, não te esqueças da Festa do Cinema Italiano, que está a decorrer até dia 7 de Abril.


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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