Alva critica Rotterdam 2019

Rotterdam 2019 | Alva, em análise

Alva”, a primeira longa-metragem de Ico Costa, conta uma história de solitude, retribuição, crime e fuga através de uma abordagem minimalista que tanto impressiona como frustra. Este filme está disponível no site Festival Scope até dia 24 de fevereiro como parte da presença online do Rotterdam International Film Festival de 2019.

Talvez não haja som mais humano que aquele de uma pessoa em esforço. A respiração ofegante marcada pelo suspiro de uma vocalização acidental, uma sinfonia de biologia animal com um toque de inequívoca humanidade. Este ruído primordial enche a banda-sonora de “Alva”, a primeira longa-metragem do realizador Ico Costa e uma surpreendente obra-prima de sonoplastia em estado de graça.

Antes de continuarmos esta peculiar celebração dos ruídos humanos deste filme, talvez seja importante oferecer algum contexto ao leitor. “Alva” foca-se na figura de Henrique Bonacho, um homem solitário que vive no distrito de Coimbra, isolado do mundo num casebre perdido algures na paisagem natural. Apesar de este ser um homem que parece sempre mais confortável quando está sozinho, sua mente parece revoltar-se contra essa mesma condição. Afinal, nem sempre foi assim.

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Um estudo em solidão insustentável.

Por entre diálogos escassos, mas sugestivos, sabemos que Henrique é um pastor que costumava viver com a mulher e duas filhas que o deixaram. Longe de aceitar tal fado, o eremita involuntário sempre disfarçado com uma máscara de impávida inexpressão revolta-se. “Alva”, que segue obsessivamente seu protagonista, hipnotizando a audiência com oceanos de observação silenciosa, é transformado por um repentino ato de violência.

Mais até que as consequências humanas do horror, é o modo como esse instante rompe com a harmonia formal que mais estarrece o espectador. O silêncio é violado, a pacata amorfia da narrativa é forçada a ganhar forma e o movimento humano de Henrique, esse guia do ritmo do nosso olho, torna-se tenso e apressado. Para quem se deixou levar pelo feitiço meio soporífico de “Alva”, esta é uma cambalhota sensorial que desfere um murro no estômago.

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A partir daí, o filme torna-se num anti-thriller em volta da fuga do criminoso que se escapule pelas montanhas suas conhecidas enquanto, fora do alcance do espectador, uma caça ao homem tem lugar. Ao longe, ouvimos helicópteros a sobrevoar o arvoredo, grupos de vozes autoritárias evocam imagens de polícias a patrulhar a zona em volta da casa de Henrique, enquanto a respiração ofegante do protagonista é uma constante lembrança da sua aflição.

Em termos dramáticos, “Alva” é um exercício em minimalismo cinematográfico e tal estética também se estende à sua abordagem ao trabalho de ator e definição de personagem. Henrique Bonacho é um não-ator que aqui interpreta uma figura com quem partilha o nome, uma figura a que o guião nunca concede a bênção de interioridade. Tudo o que sabemos e apreciamos sobre este fugitivo é-nos dado através de impulsos sensoriais exteriores à sua psicologia como é o caso do som que seu corpo produz em esforço e que a sonoplastia sobrepõe a toda uma catedral de ruídos naturais.

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O som de um humano em esforço inunda-nos o ouvido, oprime e assombra, imergindo o espetador no universo de ALVA.

Henrique Bonacho é uma tela em branco que Ico Costa usa para pintar um estudo de solidão. Seu pincel é o som expressivo em parelha com a fotografia realista e a imagem final que nos fica é de uma insustentável condição humana. Nem mesmo o criminoso consegue suportar o vazio em seu redor, a ausência total de outras presenças humanas. A redenção final não é tanto uma evolução moral de Henrique, mas sim o culminar da sua exaustão que tanto devém da sua corrida contra o encalço da polícia como do isolamento do seu autoimposto exílio.

Nunca fugindo à metodologia minimalista de todo este exercício, esta final evolução não é marcada por nenhuma abertura emocional ao espectador ou expressão verbal. Tudo é contado pela escolha de um fato claro que torna o animal encurralado de novo num homem com as mãos manchadas pelo crime. Há algo de sublime em tal simplicidade, numa escolha pela modéstia dramática ao contar um conto facilmente encarado com sensacionalismo e epítetos de melodrama.

A simplicidade, contudo, nem sempre beneficia “Alva” que, com 98 minutos, muito faz para testar a paciência do espectador. Pelo menos vinte minutos podiam ter sido cortados sem danificar o jogo rítmico e imersivo da fita, que, na sua presente forma, tem a triste aparência de uma curta esticada pela indulgência do seu autor ou talvez pela procura do prestígio que uma longa-metragem traz consigo. Em todo o caso, apesar de ser uma experiência limitada, “Alva” assume-se como um exercício cinematográfico de valor e sugere que Ico Costa é um nome promissor ao qual os cinéfilos portugueses devem prestar atenção no futuro.

Alva, em análise
alva critica rotterdam 2019

Movie title: Alva

Date published: 2019-02-15

Director(s): Ico Costa

Actor(s): Henrique Bonacho

Genre: Drama, 2019, 98 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“Alva” é uma estreia promissora de Ico Costa no panorama das longas-metragens, sendo um formidável exercício em minimalismo dramatúrgico que usa a expressividade do som com a precisão de um bisturi nas mãos de um mestre cirurgião.

O MELHOR: A respiração apressada de um criminoso em fuga.

O PIOR: O filme representa um exemplo do tipo de “slow cinema” mais difícil de ser apreciado por uma audiência casual com pouca paciência ou disponibilidade para se deixar imergir em seus ritmos vagarosos.

CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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