"Ammonite" | © NEON

Ammonite, em análise | Made in USA

Depois do belíssimo “God’s Own Country”, o realizador britânico Francis Lee volta a filmar um romance queer como uma dança hipnotizante entre o ser humano e a paisagem. “Ammonite” conta com Kate Winslet e Saoirse Ronan nos papéis principais.

O modo como um filme é categorizado influencia o modo como o espetador se relaciona com ele, como o aprecia. Dizer que certa obra é um romance cria expetativas precipitantes que, caso não sejam correspondidas, podem causar desilusão. Quem vir “Ammonite” esperando uma história de amor talvez acabe desapontado, querendo mais de um filme caracterizado pela austeridade do sentimento. O mais recente trabalho do cineasta Francis Lee não é tanto um documento de paixão como um estudo de personagem que adapta toda a sua forma à psicologia dessas figuras.

Se há uma história de amor que define “Ammonite”, não é tanto a união sexual que se estabelece entre duas mulheres na Lyme Regis do século XIX. Quanto muito, é o romance entre a pessoa e a paisagem, entre uma paleontóloga e sua vocação, os fósseis. Ela é Mary Anning, uma cientista autodidata que se foi habituando ao menosprezo do seu trabalho. Desde meninice que as suas descobertas não lhe eram creditadas, seus esforços rasurados por uma elite académica que desrespeitava tanto a sua classe como o seu género.

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De facto, “Ammonite” inicia-se com a chegada de um artefacto ao Museu Britânico, onde as etiquetas de Anning são retiradas e seu nome deixado fora das páginas da História. Depois desse prólogo londrino, a ação move-se para a costa, para as praias rochosas, ondas brancas e céus cinzentos a que a antropóloga chama de casa. Nesse ambiente, ela tornou-se num ser abrasivo, insular, amedrontada pela interação e receosa que seus desejos a tornam numa pária ainda maior para a sociedade local. Só a mãe idosa lhe faz companhia e os esforços de Mary são focados na subsistência das duas mulheres.

Assim é até ao dia em que um casal enlutado chega a Lyme Regis em busca dos serviços científicos de Mary. Os Murchison são gente endinheirada, mas não há riqueza que poupe um casamento infeliz ou apague a mágoa de um filho perdido. Em busca de salvação, o marido deixa a esposa, Charlotte, a trabalhar com Anning, uma tentativa desesperada de dar nova vida a uma jovem que ele não compreende. O que começa por ser uma parceria acrimoniosa floresce em algo mais complicado, o desejo erótico soprando nova vitalidade na existência das senhoras inglesas.

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Lee não se fica por eufemismos visuais quando chega a hora das suas protagonistas desfrutarem dos prazeres da carne. Há uma rudeza por entre o estoicismo da fita, um calor humano que se manifesta em cenas de sexo prolongadas e um gosto pelo registo dos sentidos. Tanto pode ser o passar da língua na pele suada como o fustigar da face com ar salgado. Ambas as sensações tomam precedência no cinema de Francis Lee e definem uma experiência cinematográfica que vive na interioridade das personagens mais do que no panorama da história, do enredo, da narrativa.

Por outras palavras, “Ammonite” é um filme que vai frustrar aqueles que procurem um conto inspirador e bem complexo. Há detalhe minucioso no filme, mas trata-se do gesto e de algo como o roçar de um saiote de lã coçada nas pernas frias de uma exploradora. Até a sonoplastia reflete as prioridades peculiares dos cineastas. Diálogo e música são muitas vezes abafados pelo ruído do oceano, seus rugidos distantes tão presentes como a voz das protagonistas. É uma abordagem arriscada, mas paga seus dividendos. “Ammonite” é um filme assombroso que não cai em clichés, que traça seu próprio caminho e recusa cair no lugar comum.

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Em termos formalistas, o filme é uma preciosidade austera. Os figurinos de Michael O’Connor evocam o passado vitoriano com grande detalhe, mas ainda mais impressionante é a sua reprodução de classe e hierarquias económicas jamais verbalizadas na sociedade bem-educada da altura. A fotografia de Stéphane Fontaine, por seu lado, pinta magníficos tableaux com a tez pálida das atrizes e a paleta gélida do espaço natural. Reparem como a luz vai ganhando calor, laives de sol doirado, à medida que Mary se vai abrindo, sua soturna disposição esvanecendo e a vulnerabilidade mostra a cara.

Nada disso resultaria num filme tão imperdível como “Ammonite” sem o auxílio de um elenco capaz de exteriorizar os conflitos internos que tanto fascinam Francis Lee. No papel de Mary Anning, Kate Winslet oferece o seu melhor desempenho desde “O Despertar da Mente”, trabalhando num registo saturnino muito fora do seu habitual. Saoirse Ronan faz de Charlotte um ser inocente cujo apelo não esconde a inconsideração crónica das classes altas. Até os papéis mais pequenos são brilhantemente atuados por atores como Fiona Shaw, Gemma Jones e Alec Secareanu. Não há um único elo fraco na equipa.

Ammonite, em análise
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Movie title: Ammonite

Date published: 5 de March de 2021

Director(s): Francis Lee

Actor(s): Kate Winslet, Saoirse Ronan, Gemma Jones, Fiona Shaw, James McArdle, Alec Secareanu

Genre: Biografia, Drama, Romance, 2020, 120 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Entre fósseis e devaneios eróticos, “Ammonite” conta uma história de mulheres antissociais a descobrirem o milagre da companhia humana. Mais do que um grande romance lésbico, este é um estatuto retrato de personalidade e tempo histórico. Francis Lee volta a mostrar que é um dos melhores realizadores britânicos da atualidade.

O MELHOR: A prestação de Winslet, as imagens de Lyme Regis, o pormenor na recriação do passado histórico. Tudo isso e um final que não podia ser mais perfeito. Nada melhor que acabar um filme em alta.

O PIOR: Quem for ver o filme à espera de um romance assombroso, “Ammonite” está destinado a fracassar. Isto é um estudo de personagem, não uma história de amor.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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