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Antevisão |  ‘Mank’ ou A Guerra dos Egos

David Fincher que, depois de andar uns tempos pelas séries de televisão, regressa ao cinema — embora em streaming — com ‘Mank’, um projecto ainda iniciado pelo seu pai Jack, sobre o tumultuado processo de criação de ‘O Mundo a Seus Pés’ ou ‘Citizen Kane’ de Orson Welles. Estreia na Netflix a 4 de Dezembro.

Foi quase uma verdadeira guerra dos mundos ou de dois universos artísticos: o de Orson Welles e o do argumentista Herman J. Mankiewicz e, uma luta pelo reconhecimento da autoria do argumento de ‘O Mundo a Seus Pés’ (‘Citizen Kane’, no original em inglês), um filme que vale a pena rever, até para melhor entender Mank, de David Fincher. Em 2021 comemoram-se precisamente 80 anos da estreia de ‘O Mundo a Seus Pés’ (1941), de Orson Welles — para muitos considerado o melhor filme de sempre da História do Cinema — e esta obra, regressa à ribalta, em ‘Mank’ de David Fincher, numa espécie de ‘filme dentro do filme’.

David Fincher
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Independentemente do seu maior ou menor reconhecimento como obra-prima máxima do cinema, o processo de criação de ‘O Mundo a Seus Pés’, foi extremamente tumultuoso, como era da praxe nos anos dourados — por vezes bastante negros também — de Hollywood, mesmo antes das suas fascinantes imagens chegarem ao ecrã. O notável David Fincher (‘Seven-Sete Pecados Mortais’, 1995’) depois de várias temporadas como realizador das séries de televisão ‘House of Cards’ e ‘Mindhunter’, regressa ao cinema — ao que parece não directamente às salas — com este ‘Mank’, um filme que parte da história verídica e da figura de Herman J. Mankiewicz [1997-1953], — irmão mais velho doze anos do realizador Joseph L. Mankiewicz [1909–1993] —, argumentista e script doctor estrela da Hollywood dos anos 30, que disputou com Orson Welles a verdadeira autoria do argumento de ‘O Mundo a Seus Pés’, este o primeiro filme da carreira de Orson Welles, um genial e carismático ator, realizador, diretor de teatro e escritor.

VÊ O TRAILER DE ‘MANK’

Apesar da disputa ‘O Mundo a Seus Pés’, ganhou o Oscar de Melhor Argumento Original que acabou partilhado pelos dois: Mankiewicz e Welles. Mas nos grandes sucessos há sempre algo ou alguém que fica na sombra. Sobre ‘Mank’ numa entrevista recente à PREMIERE (França) David Fincher, que há seis anos não estreava um filme, — o último foi ‘Em Parte Incerta’ (2014) — declarou que ‘Mank’, faria parte de uma parceria a longo prazo, ao que parece um contrato de exclusividade por 5 anos, com a plataforma de streaming Netflix. A estreia de ‘Mank’  já está mesmo anunciada na plataforma da Netflix e com data prevista para 4 de Dezembro.

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“O realizador de ‘Seven’ leva a cabo com este filme um dos seus projectos mais cinéfilos, escrito pelo seu pai falecido em 2003”.

São Gary Oldman (Makiewicz) e Tom Burke (Welles) que vão protagonizar esta luta de galos ou de egos, cujos os danos colaterais vão cair sobre Lily Collins (em Rita Alexander, secretária do primeiro), Amanda Seyfried (Marion Davies, amante do mediático magnata William Randolph Hearst) ou Charles Dance (interpretando o próprio Hearst, a inspiração ‘oficiosa’ do Rudolph Kane ou Cidadão Kane). Jack Fincher, pai do realizador  — falecido em 2013 — assinou o argumento de ‘Mank’ ou pelo menos a base desta história de ambição wellesiana (ou melhor mankiewicziana). De facto ‘Mank’ é um velho projecto do realizador que se arrasta desde os finais dos anos 90: Fincher queria que este fosse o seu filme seguinte a O Jogo (1997) e Kevin Spacey, o protagonista. O facto também de querer filmá-lo a preto e branco, causou uma sistemática rejeição de todos os estúdios a quem apresentou o projecto. Contudo, ‘Mank’ tornou-se afinal uma realidade vintage,  tal como o realizador o havia concebido, graças agora à Netflix.

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“Gary Oldman é agora o protagonista de ‘Mank’, tendo em conta que Kevin Spacey caiu em desgraça devido aos propalados casos de abuso sexual.”

É importante recordar que ‘Mank’, não é o primeiro filme sobre o processo de criação de ‘O Mundo a Seus Pés’. Recorde-se do pouco memorável telefilme ‘RKO 281’ (1999), de Benjamin Ross com Liev Schreiber como Orson Welles e John Malkovich como Herman J. Mankiewicz, que acabou por tornar-se um enorme fiasco de receitas e bombo da crítica. ‘Munk’ centra-se mais na figura do polémico argumentista, interpretado por Gary Oldman, e nos seus problemas com o álcool e na pressão exercida sobre ele, para que terminasse a tempo de se iniciar a rodagem, o argumento que deu origem a ‘O Mundo a Seus Pés’.

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“Mank’ será certamente um dos filmes do ano de 2020 e voltará a fazer gala do habitual nível de exigência visual do realizador de ‘Seven”.

David Fincher que está igualmente envolvido no papel de produtor de projectos tão diversos como ‘Lange’ — um biopic sobre a famosa fotógrafa da Depressão nos finais dos anos 20 nos EUA, Dorothea Lange, dirigido por Leslie Decktor — e uma nova versão de ‘Chinatown’, — que mais não é do que um prequela para televisão do célebre filme de Roman Polanski de 1974  — assina com ‘Mank’ a sua terceira longa-metragem baseada em factos verídicos, depois de ‘Zodiac’ (2007) e ‘A Rede Social’ (2010). Outra curiosidade  é a escolha de Gary Oldman agora como protagonista, tendo em conta que Kevin Spacey caiu em desgraça devido aos propalados casos de abuso sexual. Oldman e Fincher foram esposos da mesma mulher: Donya Fiorentino, com quem Fincher esteve casado entre 1990 e 1995 e Oldman entre 1997 e 2001. Daí que a filha de Fincher seja meia-irmã dos dois filhos de Oldman com Fiorentino. Segundo consta ambos os casamentos terminaram de uma forma bastante conflituosa e Fincher teria aproveitado esta experiência traumática como fonte de inspiração para o tema de ‘Em Parte Incerta’. Seja como for ‘Mank’ será certamente um dos filmes do ano de 2020 e que voltará a fazer gala do habitual nível de exigência visual do realizador de ‘Seven’. A actriz Amanda Seyfried — que interpreta Marion Davies, amante de William Randolph Hearst — em declarações ao site Collider disse que Fincher a obrigou a repetir a mesma cena cerca de 200 vezes, ao longo de uma semana de filmagens. É quase o mesmo que dizer que o espírito de Welles assentou em Fincher!

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

One thought on “Antevisão |  ‘Mank’ ou A Guerra dos Egos

  • Sou admirador do trabalho de José Vieira Mendes. Aproveito para levantar um problema, que como cinéfilo e também alguma Critica; A questão do uso e abuso do acender o cigarro, que tanto é usado pelos Realizadores. Não só é um mão exemplo, como falta de criatividade e gasto de pelicula, nocivos!

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