Crater, ArteKino Festival

ArteKino ’18 | Crater, em análise

Misturando elementos do documentário e da ficção, “Crater” explora a vida de uma jovem que vive num bairro pobre mas cujo dom poderá ajudar a sua família, mesmo que isso lhe custe a infância. A obra venceu o prémio especial do júri no Festival Internacional de Tokyo e no Festival de Cinema Crossing Europe.

Rosario é um vendedor de feira juntamente com a sua mulher. A família vive na pobreza da qual teme nunca sair mas tudo muda quando a sua filha Sharon mostra interesse, e dom, pelo canto. Desejando que a filha se torne numa grande cantora como as que vê na televisão, Rosario fará de tudo para conseguir o dinheiro necessário para que Sharon possa gravar um single e marcar presença em canais de televisão locais. Contudo, isto virá à custa da infância da jovem.

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Apesar de querer seguir o seu sonho, Sharon acaba por começar a cair em depressão, vítima da pressão constante do seu pai que não a deixa respirar, e isso rapidamente transpira para as suas ações e para o modo como comunica com ele. Concentrado somente no que deseja e no que é melhor para a família, ele continuará a empurrar a jovem até ela quebrar e tomar medidas pelas próprias mãos, tentando escapar ao mundo de opressão em que vive.

Para além de uma história realista e dramática que vê o cair de uma jovem incapaz de lidar com a sua realidade dura e sem esperança, “Crater”, obra realizada por Luca Bellino e Silvia Luzi, tem ainda outro elemento que o demarca pela positiva. Ainda que seja uma ficção dramática, ela caminha nos passos de realizadores como Hirokazu Kore-eda e mistura elementos da ficção e do documentário, um estilo cujo objetivo é o de destruir a barreira entre estes dois géneros cinematográficos, oferencendo uma experiência realista e emotiva.

Crater, ArteKino Festival

A história é fictícia mas não inteiramente. Temos Sharon e Rosario, filha e pai na vida real – a verdadeira Sharon também é cantora e modelo, e Rosario é o seu manager. “Crater” é ainda filmado com câmara-à-mão, uma técnica usada principalmente em documentários, e toda a filmagem é feita a imitar este género cinematográfico, dando-nos um olhar atento à vida da família – se o espectador não souber que este não é de facto um documentário ele será enganado, um segredo quebrado somente em alguns momentos específicos e claramente ensaiados de montagem paralela, impossíveis se a filmagem fosse completamente orgânica.

A interação entre Sharon e Rosario é natural, mesmo nos momentos de zanga em que o pai tenta controlar o temperamento rebelde da jovem, furiosa com a vida e com a exigência do pai que a obriga a passar tempo sozinha e a impede de brincar com as amigas. No final, sentimos o arrependimento de Rosario, tal como antes tínhamos sentido a raiva e frustração de Sharon. Mesmo que estas não sejam as suas vidas, as lutas terão sido certamente semelhantes.

O final é emocional e incerto, colocando em causa o futuro de Sharon e mergulhando Rosario num mar de remorsos por erros que poderão nunca ser corrigidos. Do início nasce um crescendo de frustração que leva o espectador a um final aberto e que o deixa com vontade de saber mais, muito mais. Curiosamente, ele termina numa fase em que “o não saber” assombra a família e tal como eles não conhecem o desfecho da sua história, também o espectador não o sabe.

“Crater” é um dos grandes filmes disponíveis no ArteKino Festival e um dos nossos favoritos. Se ficaste curioso podes vê-lo em tua casa até ao final do dia 31 de dezembro. Lembramos-te que podes igualmente votar nele, e nos outros filmes, para o prémio do público.

Crater, em análise
Crater, ArteKino Festival

Movie title: Il Cratere

Director(s): Luca Bellino, Silvia Luzi

Actor(s): Sharon Caroccia, Rosario Caroccia, Tina Amariutei

Genre: Drama

  • Ângela Costa - 85
85

CONCLUSÃO

"Crater" é uma obra para os amantes do drama mas também do documentário, revelando a vida de uma jovem cuja liberdade é roubada pelo seu pai que, por sua vez, tenta lutar por um futuro melhor para a sua família.

O MELHOR: A mistura entre elementos da ficção e do documentário, trazendo-nos uma visão mais intíma e realista desta família. As interações são orgânicas e tanto compreendemos a frustação do pai como o desespero de Sharon.

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Ângela Costa

Mestre em Cinema pela Universidade da Beira-Interior, sou apaixonada pelo cinema japonês e toda a cultura que o envolve. Adoro igualmente fotografia e se tiveres curiosidade passa no meu Instagram ;) Música e videojogos são dois outros grandes interesses.

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