"Ask Any Buddy" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’20 | Ask Any Buddy, em análise

Ask Any Buddy” traz pornografia à competição Queer Art do festival Queer Lisboa de 2020. Trata-se de uma colagem arquivista que compila imagens de mais de uma centena de vídeos pornográficos dos anos 60, 70 e 80.

É profundamente injusto julgar um filme pela sua promoção, mas há casos que são demasiados flagrantes para ignorar na totalidade. “Ask Any Buddy” apresenta-se como uma resposta provocadora contra filmes como “Com Amor, Simon” e “Chama-me Pelo Teu Nome”, uma alternativa que recorda tempos anteriores quando homens gay podiam, supostamente, ver o seu desejo representado com honestidade no grande ecrã. Comparar estes títulos é mais do que fútil, uma tentativa vácua de chamar a atenção e capitalizar em tendências de contrarianismo.

Além do mais, supor que “Ask Any Buddy” é um artefacto de sexualidade filmada com genuinidade desafia a lógica. Afinal, este é um trabalho feito à base de pornografia, um caleidoscópio de fantasias sexuais cuja distância do real é essencial para o sucesso. O que vemos neste documentário experimental não é um sopro de honesto erotismo, mas uma memória cristalizada em celuloide. Uma memória de outros tempos quando o desejo homossexual não podia viver plenamente no cinema mundano e só podia mostrar a cara nas salas dedicadas ao vídeo porno.

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© Queer Lisboa

Não queremos, com isto, desvalorizar esta experiência fílmica de Evan Purchell ou os filmes que lhe serviram de matéria prima para a montagem. Usando excertos de mais de 125 fitas pornográficas, o realizador construiu aqui uma tapeçaria de desejo e carne, de pele suada e sexo envergado, esperma e saliva, película granulada e vídeo fragmentado. Desde 1968 a 1986, o ano antes de Stonewall e o começo da crise da SIDA, Purchell evoca um período muito específico de cultura homossexual, tanto ao nível do erotismo como da posição social.

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Os cenários dos filmes são um dos mais importantes detalhes, espaços que remetem para a clandestinidade do sexo entre homens. Vemos cruising em casas-de-banho públicas, a sedução em parques urbanos depois do sol se pôr, engates no bar e orgias na sauna. Há um apelo à realidade da vida do homossexual na grande cidade americana, mas a fantasia nunca se dissipa por completo. Os atores são como ilustrações de Tom of Finland de carne e osso, ora leather daddies ou twinks de cabeleira loira saída de uma praia Californiana.

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© Queer Lisboa

São sonhos libidinosos que facilmente são categorizados como obscenos pela sociedade mainstream. Tanto mais isso se percebe quando vemos as imagens desconexas de contexto, qual onda de orgasmos que se abate sobre o espetador num frenesim de êxtase tão intoxicante como confuso. Sentimo-nos desorientados, mesmo quando embalados pelo titilante apelo das imagens. Os filmes de ontem conversam entre si, contrariam-se e rimam, dando uma névoa de sentido ao caos da montagem. Além do mais, há uma tonalidade emocional que transparece do projeto e não nos referimos à excitação entesada.

Nunca nos esquecemos, nem por um segundo, que o que vemos é um período finito na História da comunidade gay, algo perdido nas marés da História que nunca será recuperado. “Ask Any Buddy” é assim tão tumescente de desejo como é melancólico no sentimento. Isto não é uma canção de celebração, mas sim um requiem, uma elegia que nos recorda como a pornografia é uma parte essencial da evolução do cinema queer. Não é melhor nem pior que o cinema moderno, não é superior ao mainstream ou necessariamente inferior. Comparações dessas são imperfeitas e roubam prestígio a uma obra que merece admiração pela ousadia dos seus criadores.

Ask Any Buddy, em análise
ask any buddy critica queer lisboa

Movie title: Ask Any Buddy

Date published: 21 de September de 2020

Director(s): Evan Purchell

Genre: Documentário, 2020, 78 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Entre desejos ilícitos e orgasmos cinematográficos, “Ask Any Buddy” oferece uma visão impressionantemente vasta da pornografia gay de décadas perdidas. No espaço entre Stonewall e a SIDA, entre o começo da libertação e a peste devastadora, o desejo floresceu em formas belíssimas e hipnóticas. Trata-se de cinema experimental na sua vertente mais luxuriante.

O MELHOR: A qualidade das imagens do passado e os momentos ocasionais em que filmes díspares parecem conversar entre si, quer seja com um gesto repetido ou uma ação que segue da Costa Oeste para as ruas de Nova Iorque.

O PIOR: A campanha promocional irrita, mas são os limites óbvios do engenho que mais prejudicam a obra. Este tipo de obra vive melhor na galeria ou na instalação do que na sala de cinema.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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