Crista Alfaiate é Xerazade.

As Mil e Uma Noites (Vol. 1,2 e 3), DVD em análise

 

A trilogia de Miguel Gomes é um dos melhores filmes portugueses de 2015, (o Vol. 2 é o representante português aos Óscares de Hollywood) e dos mais bem sucedidos no panorama dos festivais internacionais. Depois dos 3 Volumes já terem estreado nas salas  alternadamente, chega agora no final do ano, uma edição em DVD, (caixa com os 3 Volumes), que apesar de não ter extras, permite pelo menos ver os três filmes de seguida e guardar para colecção.

A grande vantagem desta edição em DVD do tríptico de ‘As Mil e Uma Noites’ (O Inquieto, O Desolado, O Encantado), de Miguel Gomes (‘Querido Mês de Agosto’), é sem dúvida a possibilidade de visionar de seguida, as histórias de Xerazade, sobre a recente realidade nacional, escritas por três jornalista portugueses e recriadas pelo universo fantasista e delirante do realizador português.

A fantasia de Miguel Gomes.
A fantasia de Miguel Gomes.

Os protagonistas do filme de Miguel Gomes (no Vol. 1 O Inquieto), são o trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, ameaçados de encerramento, os especialistas preocupados com a proliferação de vespas asiáticas que estragam o mel, os aldeões indecisos de Resende, em dia de eleições autárquicas, onde se passa a história do galo que vai a tribunal e da incendiária ressabiada por ter sido trocada pela bombeira, ou mesmo os dramáticos testemunhos finais dos desempregados de longa duração, no capítulo que culmina no Banho dos Magníficos (os trabalhadores dos Estaleiros de Aveiro) na praia e que encerra esta parte, no primeiro dia de 2014. Os temas não são apenas económicos ou políticos há também histórias brincalhonas e sensuais, como as ‘donzelas ilha’ ou ‘os homens da troika de pau-feito’, (Américo Silva e outros), o PM (Rogério Samora), o sindicalista (Adriano Luz) e o tradutor brasileiro (Carlotto Cotta). Vemos uma baleia encalhada na praia, que faz lembrar o crocodilo de ‘Tabu’.

‘Os temas não são apenas económicos ou políticos há também histórias brincalhonas e sensuais…’

A baleia morta na praia, como o crocodilo de 'Tabu'.
A baleia morta na praia, como o crocodilo de ‘Tabu’.

Vê trailer do Vol. 1

O Volume 2, O Desolado, é curiosamente o filme português que vai representar Portugal na pré-selecção ao Óscares de Melhor Filme Em Língua Estrangeira. E neste segundo filme Gomes mantém o modelo original, diferentes discursos mas com a mesma matéria prima dos lugares do nosso País onde os habitantes vivem marcados pela crise e desilusão.  Abre com a Crónica da Fuga de Simão ‘Sem Tripas’ (sinónimo do famoso Joaquim Palito, com o estreante Chico Chapas a fazer do primeiro) a fugir por montes e vales até ir no jipe da GNR a caminho do tribunal por ter morto a mulher. Segue-se As Lágrimas da Juíza (Luisa Cruz), num tribunal onde se julga tudo, desde o roubo das vacas, à corrupção, aos banqueiros, aos visa golds, aos chineses, numa sequência com momentos verdadeiramente inspirados e hilariantes; e depois Os Donos do Dixie, onde um cão é pretexto para falar do suicídio de um casal de Santo António de Cavaleiros (Teresa Madruga e João Pedro Bénard), de um jovem casal de ‘agarrados’ à droga (Gonçalo Wadington e Joana de Verona), que vive da caridade, e que funciona como uma reconstituição de uma história paralela de exclusão social e abandono, passada numa Torre dos cosmopolitas subúrbios de Lisboa, onde se joga cricket.

‘…um tribunal onde se julga tudo, desde o roubo das vacas, à corrupção, aos banqueiros, aos visa golds, aos chineses…’

Joana de Verona e Gonçalo Wadington, são um casal.
Joana de Verona e Gonçalo Wadington, são um casal.

Vê trailer Vol. 2

O circulo fecha-se num Volume 3 (O Encantado) onde Miguel Gomes dá destaque à personagem de Xerazade (Crista Alfaiate) e às brilhantes histórias dos inenarráveis ‘passarinheiros’ de Chelas (e novamente com Chico Chapas)  e a famosa manifestação dos policias que quase culminou na invasão da Assembleia da República. O filme começa em Marselha no cenário da ‘Ilha das Virgens’, e do castelo do Grão Vizir (Américo Silva), onde vive Xerazade. É aqui que esta começa a sua narrativa e os seus devaneios amorosos; primeiro com Pendelman o Loiro Burro (Carlotto Cota) e depois com o rapper Elvis. Mas do outro lado do mundo (O Parque das Nações virado ao contrário), estão as inúmeras histórias do canto dos pássaros Tentilhões, dos ‘passarinheiros’ e a Floresta Quente, um capítulo marcado pela manifestação dos policias. O filme termina simbolicamente com a história do pássaro que canta até morrer e nesse momento Xerazade cala-se, para dar lugar a Chico Chapas, o rei dos ‘passarinheiros’ a percorrer uma estrada ladeada de campos de espiga e papoilas vermelhas. Uma das muitas referências no filme ao Benfica. 

‘…é um filme sobre nós e a crise, mas é sobretudo um filme poético e encantador, que só faz sentido se for visto na totalidade.’ 

É notável a sequência dos 'passarinheiros'.
É notável a sequência dos ‘passarinheiros’.

Vê trailer Vol. 3

 

‘As Mil e Uma Noites’ (O Inquieto, O Desolado, O Encantado) é um filme sobre nós e a crise, mas é sobretudo um filme poético e encantador, que só faz sentido se for visto na totalidade.

 

Consulta Ainda: Procurar Lançamentos DVD, BD e BD3D | Lista Completa 2015

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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