"Babai" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Babai, em análise

Com a sua primeira longa-metragem, o realizador russo Artem Aisagaliev constrói uma odisseia de infelicidade infantil em tona de gelo e muco desfocado. “Babai” está inserido na Competição Internacional do 17º IndieLisboa.

Babai pode traduzir-se como avô ou o velho. No entanto, o significado da palavra no contexto folclórico eslavo resvala para uma qualidade mais sinistra. Babai é o papão, aquele ser misterioso com que pais ríspidos amedrontam seus filhos. Se não fores para a cama a horas, o Babai vem atrás de ti, se te levantares durante a noite, o Babai vai-te comer. Esta explicação marca o início de “Babai”, o filme de estreia de Artem Aisagaliev. Em texto branco sobre fundo negro, as palavras envernizam o filme, desde o começo, com uma ideia de meninice assustada, de angústia e pavor.

Do medo lendário para o terror mundano, Aisagaliev enche a escuridão deixada pela definição esvanecida com o som de um adulto a ralhar com uma criança. A voz do homem é ríspida, quase cruel, enquanto, como resposta, o mais pequeno só chora, funga e quase soluça. Quando a imagem finalmente se manifesta e bane o ecrã preto, o que vemos é um quadro quase abstrato. Numa profundidade focal muito limitado, a câmara está apontada para o nariz do menino, sua pele pintada com ranho. O choro continua.

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© IndieLisboa

Esperaríamos que este tableau sofrido fosse, como o texto inicial, um modo de estabelecer o tom do filme, um ponto de partida. Contudo, no caso de “Babai”, trata-se do ponto de partida e de chegada também. Por outras palavras, por muito que Aisagaliev tente dar uma vaga estrutura narrativa ao seu trabalho, o filme sofre de uma monotonia invariável. O jogo formalista espanta no primeiro momento, com corpos fragmentados em detalhe desfocado e o som enquanto catedral de ruído nervoso. Uma passagem pelo dentista tem sons tão grotescos que é capaz de dar pesadelos ao espetador desprevenido.

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A história que se desenrola por entre este jogo formal peca pelo miserabilismo e pela indefinição. Gesha e Mark são dois irmãos pequenos que vivem com um pai brusco e sem afeto. “Babai” delineia o tormento dos meninos ao longo de um fim-de-semana quando o patriarca negligente os deixa na companhia dos avós, mais adultos que não parecem ter interesse algum nos miúdos. Um dia, quando a quinta dos velhotes se torna no palco sangrento para a chacina de uma ovelha, Gesha foge horrorizado.

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Não nos surpreende a reação. Aisagliev faz questão de filmar a morte do animal do modo mais chocante imaginável, deixando que as entranhas ensanguentadas encham o enquadramento e, a certa altura, mirando o feto de um borrego morto antes de poder nascer. O vulcão do abandono finalmente explode com este horror e o filme termina com uma procura infrutífera. Ouvimos, ao longe, pessoas chamarem pelo menino, mas este não reaparece. Depois do que vimos, ele teria que ser louco para regressar a este insensível seio familiar.

Parece criminoso acusar de aborrecimento mortal um filme com somente 64 minutos. Infelizmente, “Babai” merece tais críticas, especialmente porque pede comparação a outros trabalhos recentes com temática semelhante. “Loveless – Sem Amor” de Andrey Zvyagintsev é também uma pesquisa de desleixe parental na Rússia moderna. Contudo, esse filme de 2017 sabe variar seus idiomas audiovisuais e transcender a pura alegoria. “Babai” nunca consegue tal proeza, ficando-se pelo miserabilismo misantrópico, sem propósito e sem especificidade suficiente.

Babai, em análise
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Movie title: Babai

Date published: 1 de September de 2020

Director(s): Artem Aisagaliev

Actor(s): Gesha Aisagaliev, Mark Aisagaliev, Dzhumabai Aisagaliev, Saggidulla Aisagaliev, Sergey Aisagaliev, Tamara Barsukova, Alex Fedorov, Anton Martinov

Genre: Drama, 2020, 64 min

  • Cláudio Alves - 45
45

CONCLUSÃO:

Desfocado a nível visual e dramático, “Babai” é um conto de miséria infantil que nunca transcende as suas engenhosas soluções formais. Interessante, mas sem substância, o filme representa o primeiro grande desapontamento do 17º IndieLisboa. O MELHOR: O pesadelo do dentista expresso através dos sons do metal a ranger contra o dente. A desorientação da câmara que se revira e a angústia de uma imagem que nos está sempre a obstruir a visão clara do drama humano. O PIOR: A falta de detalhe concreto no guião. Apesar de ter observações fortes sobre o custo de negligência parental nas suas vítimas infantis, “Babai” nunca ultrapassa a superfície de tais realidades e jamais perscruta a profundidade psicológica das situações que representa. CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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