20º Queer Lisboa | Barash, em análise

Em Barash, a cineasta israelita Michal Vinik retrata a vida de uma adolescente que começa uma relação com uma nova colega de escola ao mesmo tempo que a sua família passa por uma crise.

barash queer lisboa

Apesar de continuar a ser uma marca incontornável do cinema de temáticas queer em Portugal, se há uma crítica a fazer ao Queer Lisboa, mais especificamente à edição deste ano, é que, na sua seleção de filmes, a presença de narrativas lésbicas é minúscula. Das 28 longas-metragens nas várias secções em competição e a Panorama, apenas meia dúzia de títulos se focam em personagens e vidas de mulheres homossexuais. Mesmo assim, por entre a diminuta seleção de títulos, encontramos algumas belíssimas joias cinematográficas, incluindo a primeira longa-metragem da cineasta israelita Michal Vinik, Barash. Este é, como tantos outros projetos de temática queer, um retrato de uma jovem a descobrir a sua sexualidade e do seu primeiro amor, mas, com algumas idiossincrasias tecidas pelo meio, este título consegue evitar ser apenas mais uma obra genérica.

A protagonista de Barash é Naama, uma jovem de dezassete anos que vive em Israel com a sua família conservadora cujo apelido dá nome ao filme e é, de uma forma redutiva, a única coisa a unir estas pessoas debaixo do mesmo telhado. Fora do sufocante ambiente doméstico, Naama é uma rebelde que passa as noites a divertir-se com as suas amigas, bebendo, engatando rapazes em parques de estacionamento, procurando drogas e outras tantas típicas mostras de hedonismo adolescente. Tal como as suas companheiras, Naama parece quase estar atordoada para a vida, um espírito errante que vive apenas para uma existência epicúria e meio sonolenta. É então que, um dia, ela conhece uma nova colega de escola, Dana cujo comportamento desavergonhado, cabelo loiro oxigenado e atitude desafiadora depressa chamam a atenção da protagonista e, eventualmente é na companhia desta nova amiga que Naama vai descobrindo os prazeres do corpo feminino e, pelo caminho, a sua identidade.

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Apesar dessa descrição sumária, Barasah não se resume apenas a um retrato de um passageiro romance juvenil, sendo que, se formos brutalmente honestos, a sua componente romântica é talvez a parte menos interessante do projeto. Ao estilo de A Vida de Adèle, um título a que Barash tem sido muito comparado, o romance é uma forma de explorar a personagem central, mas, ao contrário do vencedor da Palme D’Or, este filme israelita não tem muito interesse nas emoções da outra pessoa envolvida. Aqui, apenas Naama e o seu conflito interno são postos em evidência e Dana é sempre mantida à distância da nossa perceção, mais como um símbolo de autodescoberta do que uma pessoa concreta.

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Essa componente de bildungsroman individualista é pintada ainda com as tonalidades de um retrato bastante crítico da Israel dos nossos dias, onde preconceitos virulentos corroem todas as instituições, mesmo a unidade familiar, e onde o conformismo despótico que o estado e as gerações mais velhas impõe sobre a juventude tem o efeito contrário de gerar inteiras gerações de rebeldes enfurecidos com o mundo em que habitam. Para além de Naama e suas amigas, que parecem sempre zangadas com tudo e todos, a outra grande rebelde do filme é a sua irmã, Liora, que desapareceu da sua base militar, como é seu hábito, e, aparentemente está envolvida com um rapaz árabe para absoluto transtorno do seu pai tirânico.

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Uma das sequências mais memoráveis de Barash ocorre mesmo quando Naama, seu irmão mais novo e seu pai viajam de carro até à cidade onde, supostamente vive o namorado de Liora. Aí, num encadeamento de eventos tão desconfortáveis como odiosos, o pai mostra a vastidão do seu preconceito venenoso, humilha os seus filmes e parece um monstro prestes a espancar alguém quando se põe aos gritos numa esquadra da polícia a exigir falar com o comandante. Só que, o comandante também é árabe, levando o homem a uma apoplexia de histeria confusa. Tal como em muitas cenas de Barash, temos aqui grandes quantidades de humor, mas essa comédia é sempre resultante de algo horrendo. Aqui, as verdadeiras dimensões do horror vêm mais tarde, quando nos vamos lentamente apercebendo da imensa hipocrisia da figura paternal. Ele grita a Liora que os árabes tratam mal as mulheres e vão fazer dela uma escrava, mas basta ver o modo como ele próprio trata a mulher e os filhos para vermos como isso não é uma qualidade exclusiva dos palestinianos, ao contrário do que o seu discurso indica.

A ajudar a estabelecer esta voraz crítica à sociedade israelita contemporânea, a realizadora Michal Vinik empregou uma abordagem formal bastante estruturada em torno de ideias realistas. No entanto, ela teve a sensatez de não se deixar levar pelo exemplo de tantas outras obras e assim, apesar de realista, Barash nunca se torna em mais um filme narrativo com uma estética pseudo documental à la cinema verité. Pelo contrário, longe de trespassar uma ideia de observação objetiva, esta coleção de técnicas, como câmara ao ombro muito tremida, grandes planos constantes, uso de luz natural e pouca profundidade de campo, confere ao filme a qualidade de uma experiência imersiva na perspetiva de Naama, sua imaturidade e energia juvenil a vibrarem juntamente com a imagem.

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O máximo exemplo desta qualidade imersiva ocorre quando vemos o jovem casal de amantes a partilharem momentos eróticos no seu quarto. Aí, o espaço é sempre filmado desfocado, com toda atenção centrada nos corpos humanos próximos da objetiva, a luz é difusa e doirada, como uma solarenga tarde de verão e o efeito geral é quase onírico, como um sonho removido e distante da realidade da restante vida de Naama. O que isso também realça é o modo como Dana nunca parece ser uma presença fixa na vida da sua amiga e amante. Existe sempre uma certeza, na nossa mente, em como este romance não vai durar muito e que, talvez, esta história de atração e amor seja apenas um fragmento não muito cataclísmico na vida de Naaman. É somente um capítulo de algo muito maior do que o que a narrativa captura.

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Todo o filme, de facto, é abençoado com essa visão matura de que, apesar de Naama se sentir no precipício de uma mudança drástica na sua vida, talvez a sua história ainda venha a sofrer mais reviravoltas e que existe já uma imensidão de experiências de vida no seu passado. Esta natureza de miniatura ou fragmento de algo maior e contínuo regista-se graças a uma falta de artifício dramático, que pode se frustrante para alguns espetadores. Assim, Barash acaba por ser um retrato extremamente franco e sincero da vida de uma adolescente, que, mesmo quando ela não se entende a si mesma, parece ser transparente para o público que a observa. Doloroso, simples e modesto, este filme pode estar longe de ser inovador ou radicalmente original, mas é uma obra sólida de cinema como estudo de personagem e análise crítica de uma sociedade.

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O MELHOR: Os momentos de humor desconfortável que se vão registando ao longo da narrativa.

O PIOR: É entendível no contexto da estrutura do filme e suas intenções, mas a indefinição e distância de Dana têm a triste consequência de tirarem muito poder emocional à experiência de Barash


 

Título Original: Barash
Realizador:  Michal Vinik
Elenco:
Sivan Noam Shimon, Hadas Jade Sakori, Bar Ben Vakil, Dvir Benedek
Queer Lisboa | Drama, Romance, Comédia | 2015 | 81 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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