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Dois anos depois do lançamento do importantíssimo e aclamado documentário “No Other Land”, que expõe a violência sistemática e repressão perpetuada pelos colonos israelitas na Cisjordânia, o mudou afinal? A vitória do Óscar em 2025, associada à crescente partilha de informação generalizada acerca do genocídio em Gaza, mudaram algo para melhor? Numa conversa mediada por Stefanie Bauman, co-diretora do Doc’s Kingdom, o cineasta Basel Adra falou, a 24 de outubro e na Culturgest, acerca da vivência Palestiniana desde que os ataques ao seu território se agudizaram.

Os dois anos desde No Other Land no DocLisboa 2026

“À Conversa com Basel Adra” foi uma talk originalmente não planeada para a presente edição do DocLisboa, mas possibilitada devido ao apoio da Associação José Afonso. Tanto que o filme não foi sequer exibido em antecipação, mas, não obstante, estava nitidamente muito presente nas mentes dos participantes/ audiência desta conversa, que de forma tão ativa colocaram questões pertinentes ao cineasta e advogado Basel Adra ao longo de 1h30.

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Basel Adra em conversa no DocLisboa
©Maggie Silva/MHD

Uma co-produção entre a Palestina e a Noruega, com realização por um coletivo que permitiu o encontro improvável entre palestinianos e israelitas, “No Other Land” foi um sucesso estupendo aquando da sua estreia na seção “Panorama” da 74.ª Berlinale, onde venceu o prémio inserido nesta mesma secção. No ano seguinte, a obra, que detalha o controlo apertado e usurpações sentidas pelo povo da Cisjordânia, venceu o Óscar de Melhor Documentário e tornou-se numa sensação internacional.

Mas, dois anos depois, o que mudou na vida de Basel Adra e na vida dos palestinianos do West Bank? Basel Adra, co-realizador da obra “No Other Land”, ao lado de Yuval Abraham (cineasta israelita que assinou este ano “Naza”), referiu, na Culturgest, que a realização deste filme prendeu-se bastante com a intenção de consciencializar a população internacional para o flagelo decorrente na Palestina.

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Basel Adra: um porta-voz incomparável

Todavia, sem quaisquer preâmbulos, Adra avançou que o conhecimento desta situação e desta injustiça em nada contribuíram para amenizar a situação de crise. Ao fim de contas, a maioria de “No Other Land” foi gravado antes do fatídico 7 de outubro de 2023, o dia em que um ataque forte por parte do Hamas provocou a agudização extrema dos ataques de Israel à Palestina.

A retaliação fez-se sentir forte, e não deixa de se fazer sentir. Basel Adra continua a filmar, embora menos, pois a situação só se tornou mais crítica e perigosa desde então. Aliás, um dos participantes do filme, Odeh Hadalin, professor de inglês, jornalista e ativista palestiniano, foi inclusive assassinado en 2025 por um colono israelita.

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E se Basel defende que filmar é a sua “única arma”, a divulgação do flagelo continua a ser insuficiente. O cineasta reconhece, com muita clareza e articulação, os problemas centrais da Palestina e da sua Cisjordânia – da falta de uma liderança real nos seus territórios à complacência ocidental e europeia em relação às agressões e usurpações perpetuadas pelos colonos israelitas.

Conversa No Other Land DocLisboa 2026
©Maggie Silva/MHD

O realizador é um missionário involuntário, que partilha a sua palavra por este mundo fora. Certamente conseguiria um visto europeu num piscar de olhos, mas Basel Adra não tem qualquer intuito de abandonar a Palestina – antes pelo contrário. Nesta visita a Portugal, colocou o dedo na ferida e acusou-nos de compactuarmos com a ofensiva de Israel. As empresas europeias, os governos do nosso continente, continuam, uma e outra vez, a comprar produtos produzidos pelos colonos, muitas vezes através dos próprios bens que roubaram aos palestinianos.

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Sim, Adra aponta o dedo e recusa a solução de dois estados, e de certo tem todas as razões para tal. A sua obra correu meio mundo mas não resultou em qualquer sentido real ou fictício de segurança extra para o seu povo ou, diretamente, para os seus ente queridos.

Ouvi-lo, de forma tão clara e inequívoca, a reconhecer os problemas existentes e as soluções parcas e vontades insuficientes foi, sem dúvida, um momento impactante, e capaz de complementar na perfeição a visualização deste filme, também ele de si tão bem executado e eloquente.

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O cinema, ao fim de contas, também funciona como documento histórico de relevo, e “No Other Land” tem um lugar inequívoco na história, tal qual o seu co-realizador.

O DocLisboa decorreu entre os dias 15 e 25 de outubro, mas as sessões de filmes vencedores continuam até esta sexta-feira (dia 30).

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