Bel Canto, em análise

Em “Bel Canto”, Julianne Moore dá vida a uma cantora de ópera encurralada no meio de uma crise política algures na América Latina.

Em 17 de abril de 1996, 14 membros do Movimento Revolucionário Túpac Amaru tomaram de assalto a residência oficial do embaixador japonês em Lima, no Peru. Nesse dia, realizava-se uma festa em celebração do 63º aniversário do Imperador Akihito, pelo que a residência estava cheia de dignitários internacionais que os revolucionários tomaram como reféns. Nos primeiros dias desta crise, os raptores deixaram sair todas as mulheres que se encontravam na residência e, através do intermédio da Cruz Vermelha, divulgaram as suas demandas ao mundo. Eles exigiam a libertação dos presos políticos, seus camaradas, e uma revisão das leis de mercado neoliberais implementadas pelo governo do Presidente Alberto, entre outras.

Dia 22 de abril de 1997, depois de já 275 reféns terem sido libertados, forças armadas forçaram entrada na residência e mataram os guerrilheiros assim como um dos reféns ainda detidos. Anos depois, o Tribunal Ibero-Americano dos Direitos Humanos decretou que, pelo menos, três dos 14 sequestradores foram vítima de homicídio extrajudicial, tendo sido negados os seus direitos humanos como ditados pela lei internacional. Em 2001, a escritora americana Ann Patchett publicou “Bel Canto”, uma versão ficcionada dos eventos em Lima. Em 2018, estreia uma adaptação cinematográfica desse mesmo livro.

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O filme sacrifica especificidade política e cultural em prol de melodrama barato.

Há que se notar que, nem o livro nem o filme alguma vez nomeiam o país onde os seus eventos decorrem. Para estas obras edificadas por autores americanos, a especificidade da nação cujas crispações políticas levaram à matéria-prima do seu drama são menos importantes que o potencial telenovelístico do grupo de diplomatas confinado à residência do embaixador nipónico. Assim, o Perú é anonimizado, sua cultura é apagada, as causas dos revolucionários transformam-se numa abstração e é pintado um retrato da América do Sul como um grupo de países que valem todos o mesmo aos olhos do potencial espectador.

Isso é particularmente notório quando se considera quanto a especificidade cultural dos reféns é posta em destaque, desde as suas barreiras linguísticas ao legado cultural das nações a que pertencem. Repare-se como as personagens principais de ambas as narrativas ficcionadas não são latinas, mas sim uma cantora lírica dos EUA e um magnata japonês que mentiu sobre as suas intenções de investir neste país sem nome para poder desfrutar de um recital privado. São eles a âncora emocional do filme e do livro, seu romance é o combustível do melodrama e é a sua experiência e influência sobre os sequestradores que faz florescer os temas de tolerância e empatia que transcendem as barreiras de cultura e, aparentemente, de diferentes níveis civilizacionais.

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Não se enganem ao pensar que “Bel Canto” acredita nas ideias que defende. Este é um exercício em hipocrisia disfarçada de filosofia liberal. O livro é ainda mais flagrante na sua condescendência para com os militantes de origem rural e empobrecida, denegrindo e desvalorizando a sua cultura folclórica em detrimento de uma celebração enamorada da ópera. É a ópera, em ambos os casos, que se revela como a cola que pode ligar a humanidade, ao iluminar a beleza que o ser humano é capaz de conjurar. A ópera italiana, essa expressão cultural intrinsecamente europeia é a arma que derruba barreiras políticas e humanas nessa selva política de uma américa colonizada, mas ainda selvagem. É difícil não revirar os olhos face à retórica auto contraditória de “Bel Canto”.

Nada disto invalida as boas intenções de Prachett ou dos cineastas. A sua mensagem de entendimento multicultural é valerosa. O problema é que a sua expressão, transmissão e execução acabam por revelar preconceitos e limites ideológicos que talvez os artistas em questão nem se apercebem que têm. Até a nível de casting tais problemas se manifestam. Com os reféns de origem asiática, norte-americana e europeia há cuidado em escolher atores das nacionalidades corretas ou que imitem sotaques diferentes e característicos dos países das personagens. No caso das figuras latinas, os cineastas escolheram atores de uma série de origens diferentes, acabando com um elenco em que cada ator tem um sotaque nacional diferente.

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Até Julianne Moore é mediocre.

É difícil acreditar que estas pessoas são todas do mesmo país quando umas falam castelhano com sotaque mexicano e outras exibem uma dicção Guatemala. Colombiana ou outra que tal. Podemos não conseguir identificar as diferenças específicas, mas quem tiver um ouvido atento irá apanhar inconsistências. Pelo menos, os atores escolhidos são exímios na construção de personagens complexas com base nos clichés e caracterizações unidimensionais que o guião lhes fornece. María Mercedes Coroy, Tenoch Huerta e Noé Hernández, caras conhecidas para quem seguir cinema latino-americano em circuito de festivais, são particularmente admiráveis e quase redimem o pesadelo que é o casting desleixado de “Bel Canto”.

O pior de tudo é que o filme, na sua totalidade, em nada supera os problemas que causa a si mesmo. Isto revela-se a vários níveis, mais ou menos técnicos. A modulação tonal e a perceção da passagem do tempo, por exemplo, são nulas, sendo que nunca entendemos quantos dias os reféns passam com os sequestradores e o enredo dá tantas cambalhotas de registo emocional que, chegado o clímax, é difícil estarmos investidos no fado das personagens em causa. Outro terrível elemento é a fricção entre Julianne Moore a interpretar a cantora prisioneira e Renée Fleming, sua voz dobrada em momentos musicais. Pura e simplesmente, a ilusão de que é Moore a arrebatar o mundo com a sua voz operática nunca é credível e põe em causa todo o mecanismo dramático da história.

No final, “Bel Canto”, o livro e o filme, proclama mensagens bonitas de entendimento humano e tolerância, mas, no seu âmago, revela ser o produto venenoso de uma ideologia politicamente míope, senão mesmo xenófoba e proto imperialista. Se a sua execução cinematográfica fosse exímia, poderíamos admirar o produto enquanto filme, mas não é o caso. Somente alguns desempenhos secundários se elevam acima da mediocridade a quem nem mesmo Julianne Moore consegue escapar. Os epítetos trágicos do filme ainda poderão vir a causar alguma reação comovida, mas isso deve-se mais à orgia de sofrimento baseado em realidades bem mais complexas que as retratadas nesta história que a qualquer tipo de mérito dos cineastas. Só de boas intenções não se faz bom cinema e “Bel Canto” é a prova cáustica disso mesmo.

Bel Canto, em análise
Bel Canto

Movie title: Bel Canto

Date published: 2018-11-07

Director(s): Paul Weitz

Actor(s): Julianne Moore, Ken Watanabe, Christopher Lambert, Thorbjørn Harr, Sebastian Koch, Olek Krupa, Elsa Zylberstein, Tenoch Huerta, Johnny Ortiz, Ryo Kase, Eddie Martinez, María Mercedes Coroy, Noé Hernández, Phil Nee

Genre: Drama, Música, Romance , 2018, 100 min

  • Cláudio Alves - 45
45

CONCLUSÃO:

“Bel Canto” é um filme cheio de ideias bonitas e mensagens putativamente progressivas, mas esconde em si alguns preconceitos e limitações ideológicas. Apesar do controlo de ritmo, tom e fluidez narrativa serem pouco marcados, alguns membros do elenco conseguem dar vida a este melodrama pueril. Surpreendentemente, Julianne Moore não é uma destas almas salvadoras.

O MELHOR: A flexibilidade moral que Noé Hernandez consegue telegrafar, a autoridade nobre de Tenoch Huerta e a angústia romântica de María Mercedes Coroy.

O PIOR: O anonimato e indefinição da nação onde a ação principal se desenrola.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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